Limites à atualização das rendas deixam dúvidas no mercado imobiliário – Expresso

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Economia
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12 setembro 2022 10:35
O travão no aumento das rendas anunciado pelo Governo não abrange todos os inquilinos, já que os contratos que só em 2023 completem um ano de execução verão a renda aumentar, para lá do limite de 2% imposto pelo Governo. Mas o setor imobiliário tem-se confrontado com uma dúvida relativa a outros tipos de rendas. O regime de arrendamento urbano diferencia entre “arrendamentos para fins habitacionais” e “arrendamentos para fins não habitacionais” e é esta última categoria que está a causar dúvidas entre os agentes do setor.

O contrato de arrendamento comercial, industrial ou para exercício de profissão liberal integra-se na tipologia dos contratos não habitacionais, o que tem estimulado as dúvidas no mercado imobiliário, uma vez que permite liberdade contratual para ambas as partes.
Esta categoria permite contratos de “prazo certo” e de “duração indeterminada”, com disposições que consentem que as rendas sejam atualizadas em 5 ou 10 anos. Em caso de trespasse, prevê o Novo Regime do Arrendamento Urbano, as rendas podem ser atualizadas automaticamente, sem estarem abrangidas pelos limites impostos pelo Governo.
Na opinião de Nélio Leão, administrador da consultora imobiliária Imovendo, a proposta de Lei do Governo, que terá de ser aprovada no Parlamento por incluir matéria fiscal, “destina-se apenas a contratos para fins habitacionais”.
Entendimento diferente tem Regina Santos Pereira, sócia e especialista na área imobiliária da sociedade SRS Advogados. “Ao não fazer discriminação, a proposta de lei inclui todas as rendas”, assume a advogada.
A proposta de lei do Governo determina que no próximo ano “não se aplica o coeficiente de atualização anual de renda dos diversos tipos de arrendamento”. As rendas ficam limitadas a um aumento de 2%, inferior ao coeficiente de atualização que resulta da totalidade da variação do índice de preços no consumidor, sem habitação, e que para 2023 foi calculado em 5,43%.
O aviso com este coeficiente é publicado no Diário da República até 30 de outubro de cada ano
Regina Santos Pereira defende que a proposta de lei “não deixa qualquer dúvida” de que a limitação abrange todos os contratos de arrendamento em vigor, que ficam limitados a um aumento de 2%.
A advogada, que esteve envolvida em várias ações no Centro de Arbitragens da Propriedade e do Inquilinato, acrescenta que ao prever que o travão nas rendas abranja sujeitos passivos tributáveis em sede de IRS ou IRC, “ficam incluídos todos os contratos em vigor”, exceção feita a contratos que tenham cláusulas especificas de aumentos.
Questionado o Governo sobre a interpretação destes aumentos, os ministérios das Infraestruturas e Habitação, autor da proposta, e o das Finanças, que decidiu os descontos fiscais a aplicar aos proprietários, remeteram esclarecimentos para a pasta da Economia, que tutela o arrendamento comercial e industrial. O Ministério da Economia assume que “o objetivo do legislador é que a medida se aplique a todo o tipo de arrendamento”.
Sem acesso ao “apoio extraordinário ao arrendamento” estão os proprietários que tenham celebrado contratos ao longo deste ano e que em 2023 serão atualizados pela taxa de 5,43%. A proposta de lei do Governo deixa de fora os contratos celebrados a partir de 1 de janeiro.
O regime em vigor determina que a primeira atualização da renda pode ser feita um ano após a entrada em vigor do contrato.
Ou seja, quem arrendou casa este ano fica de fora do travão às rendas. E isto porque a proposta de lei prevê expressamente que o limite de 2% na atualização das rendas seja aplicado a “contratos de arrendamento em vigor antes de 1 de janeiro de 2022”.
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David Ribeiro, ex-deputado de Rui Moreira, condenado por racismo – Público

Publicação feita em 2018 no Facebook motivou queixas de dois cidadãos e da SOS Racismo. Movimento de Rui Moreira havia recorrido, mas decisão da CICDR não mudou.
A Comissão Permanente da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) reiterou a sua decisão inicial e condenou o ex-deputado municipal do Porto David Ribeiro “pela prática discriminatória em razão da origem étnica e da nacionalidade”. O caso remonta já a 2018, altura em que o deputado eleito pelo movimento de Rui Moreira fez um post no seu Facebook intitulado “ciganos romenos no Porto”.
Na altura, David Ribeiro refutou as acusações de racismo e contou com o apoio do Porto, o Nosso Movimento, que recorreu da decisão da CICDR. No final de Julho deste ano, numa notificação à qual o PÚBLICO teve acesso, esta entidade vem, no entanto, reiterar aquilo que havia dito e “condenar o arguido” a uma coima de 428,90 euros.
A condenação acontece pelas “práticas discriminatórias de assédio e de adopção de acto em que, publicamente ou com intenção de ampla divulgação, seja emitida uma declaração ou transmitida uma informação em virtude da qual uma pessoa ou grupo de pessoas seja ameaçado, insultado ou aviltado, ambas em razão da nacionalidade romena e da etnia cigana”, refere o processo.
Contactado pelo PÚBLICO, David Ribeiro não quis fazer comentários sobre o assunto, limitando-se a confirmar que havia sido o movimento de Rui Moreira a recorrer da decisão.
Numa publicação no seu Facebook em Julho de 2018, David Ribeiro referiu-se a um “grupo de 20 ou 30 romenos” que eram um “autêntico martírio” para comerciantes e residentes da zona da Boavista, no Porto. O então deputado municipal defendia que era preciso “encontrar rapidamente formas eficazes de proteger os cidadãos destes energúmenos”.
O caso saltou das redes sociais para a própria Assembleia Municipal do Porto dias depois, quando Tatiana Moutinho, que tinha integrado as listas do Bloco de Esquerda, levou o tema ao hemiciclo. Foi essa cidadã – e um outro, Piménio Ferreira –, que decidiram apresentar queixa à CICDR. A SOS Racismo também o fez.
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Não somos assim tão racistas | Opinião | PÚBLICO – Público

Há sempre problemas mais graves do que aquele de que estamos a falar. Foi assim com temas ridículos como a violência doméstica, a pedofilia na Igreja e o ambiente.
Quando se fala de racismo em Portugal, há sempre alguém que critica o “exagero”, o “despropósito” e a “perda de tempo”. Noutros lugares o racismo “é pior” e, como é sabido, temos “problemas bem maiores”.

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Velhofobia nas eleições – Folha

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Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"
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No primeiro debate presidencial, você ouviu alguma menção às mortes dos mais velhos na pandemia ou às agressões e abusos diários cometidos contra os velhos no Brasil?
A violência contra os mais velhos sempre existiu, mas ficou escancarada na pandemia. Os brasileiros ficaram horrorizados quando ouviram os discursos sórdidos de autoridades, políticos e empresários, recheados de preconceitos e agressões contra os mais velhos.
“Vamos todos nos contaminar para criar imunidade e esta epidemia acabar logo. Só irão morrer alguns velhinhos doentes. Deixem os jovens trabalharem. Não vamos parar a economia para salvar a vida de velhinhos. Só velhinhos irão morrer, eles iriam morrer mesmo, mais cedo ou mais tarde. Vai ser até bom para a Previdência se morrerem logo. O problema do Brasil é que todo mundo quer viver 100 anos”.
As denúncias de violência contra os velhos pelo Disque 100 cresceram 500% nos primeiros meses da pandemia. A realidade é muito mais assustadora, pois a maioria dos velhos tem medo e vergonha de denunciar seus agressores, os próprios filhos em mais de 50% dos casos, além dos netos, cônjuges, genros e noras. Os velhos, dentro das nossas casas, experimentam uma espécie de invisibilidade social e de “morte simbólica”.
Não me lembro qual foi a primeira vez que usei a palavra velhofobia, mas sei que nas minhas palestras, em 2017, eu já usava o termo para designar o pânico de envelhecer e as violências cometidas contra os mais velhos no Brasil.
Minha primeira coluna para a Folha de S.Paulo com o termo foi “Você sofre de velhofobia?” (17/9/2019). Com a chegada da pandemia de Covid-19 no Brasil, escrevi “Velhofobia” (9/4/2020) para denunciar o descaso com as vidas dos mais velhos. Ela teve tanta repercussão que a BBC publicou uma longa entrevista comigo (2/5/2020): “Pandemia de coronavírus evidencia ‘velhofobia’ no Brasil, diz antropóloga“.
Escrevi dezenas de colunas para a Folha sobre o tema, entre as quais: “A velhofobia está dentro de mim” (4/11/2020), “Fora velhofobia” (23/6/2021) e “A velhofobia está cada vez mais explícita, perversa e cruel” (27/10/2021). Fiz um TEDxSãoPaulo: “Lições de amor na pandemia: a luta contra a velhofobia” (8/6/2020). O querido Jairo Marques fez uma emocionante entrevista comigo para a Folha: “A velhofobia se escancarou e saiu do armário“, no Dia do Idoso (1º/10/2021).
Como muitos me perguntam por que prefiro velhofobia e não etarismo ou outro termo, fiz uma enquete no meu perfil do LinkedIn, em dezembro de 2021, com a pergunta: “Que termo você prefere para designar a discriminação, o preconceito e a violência contra as pessoas mais velhas?”
O resultado da enquete com 313 votos foi:
Etarismo é a discriminação com base em estereótipos associados à idade. A discriminação etária pode se manifestar de diferentes maneiras, como atitudes de exclusão, de violência, de abuso, de infantilização e até mesmo por meio de piadas e “brincadeirinhas”. O termo é útil para denunciar qualquer tipo de discriminação com base na idade, podendo envolver preconceitos contra os velhos, mas também contra adultos, adolescentes e crianças.
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Exatamente por isso, prefiro falar de velhofobia, pois meu propósito tem sido combater a violência contra os mais velhos, apesar de considerar importante denunciar a discriminação em outras fases da vida.
Sinceramente, não acho tão importante assim a palavra que escolhemos para combater a violência, a discriminação e o preconceito contra os mais velhos, seja velhofobia, etarismo ou outra qualquer. Para mim, o mais importante é denunciar que as nossas casas escondem uma brutal violência física, psicológica e verbal, abuso financeiro, negligência, falta de cuidados básicos de higiene e de saúde, maus tratos e abandono dos mais velhos.
Nas eleições, precisamos lembrar que combater a velhofobia é lutar pelo nosso próprio direito de envelhecer com dignidade. Cada voto pode ser decisivo para o futuro dos nossos filhos e netos: os velhos de amanhã.
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Rota do Petisco regressa a Albufeira – SAPO Brasil

A 12ª edição conta com a maior participação de sempre, segundo comunicado. A rota deste ano vai chegar a 220 estabelecimentos de 11 concelhos algarvios, que seguramente vão fazer as delícias de quem se atrever a embarcar nesta aventura.
Este ano, a Rota do Petisco será dedicada à Juventude. Assim, o valor do passaporte que dá acesso ao evento, €1,5, irá reverter na totalidade para seis instituições e projetos da região que combatem a discriminação social, racial e/ou de género, promovem a saúde mental dos jovens e impulsionam o voluntariado jovem.
Para participar, é necessário adquirir o Passaporte da Rota do Petisco nos estabelecimentos aderentes ou nos Postos de Informação da Rota.
Para mais informações sobre a Rota do Petisco consulte o site do evento aqui.
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Como a doença inflamatória intestinal pode afetar a vida profissional – VISÃO

Nos primeiros meses, Ana Almeida sentiu que os colegas e os responsáveis da empresa onde trabalhava foram “compreensivos” com o impacto da colite ulcerosa, uma doença inflamatória do intestino, com que foi diagnosticada em 2012. “Porém, a dada altura, começaram a questionar tantas idas ao hospital e tantos exames. Uma vez perguntaram-me: ‘Então e procurares um médico e tratares disso como deve ser?’”, recorda. “Senti-me péssima. Parecia que não estava a esforçar-me o suficiente”, assume a copywriter, contando que a doença se manifestou inicialmente através de dores intensas e hemorragias abundantes.
Com o tempo, Ana Almeida foi constatando que mais pessoas tinham dificuldade em compreender as dores, o cansaço, as idas frequentes à casa de banho, por causa da diarreia, a má disposição e a necessidade de ir ao médico com frequência. “Em 2013, emigrei para a Suíça, e comecei a trabalhar no departamento de comunicação de uma escola de massagens. No dia em que fiz uma colonoscopia total, em altura de crise, em que me sentia fraquíssima e mal conseguia andar, obrigaram-me a ir trabalhar”, conta Ana Almeida. “Acharam-me muito pálida, mas claro que não me mandaram para casa. Trabalhei seis horas”, diz a doente, acrescentando que ”nos períodos em que a doença está mais ativa, torna-se muito difícil fazer a vida normal”.
Como adianta o gastrenterologista José Cotter, as doenças inflamatórias do intestino, que afetam cerca de 24 mil pessoas em Portugal, e cujas formas mais comuns são a colite ulcerosa e a doença de Crohn, têm um impacto significativo no quotidiano dos doentes, se não forem clinicamente controladas. “Múltiplas idas à casa de banho, mal-estar, internamentos hospitalares, necessidade de efetuar exames complementares e recorrer a consultas médicas frequentes, além de alguns cuidados alimentares (em fase aguda), limitam o desempenho de uma atividade laboral normal”, afirma o diretor do serviço de gastroenterologia do Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães. “Devido ao mal-estar e às limitações da doença em fase aguda ou não-diagnosticada, os doentes ficam desanimados por não se sentirem bem, verem a sua recuperação demorada e necessitarem de apoio frequente dos cuidados de saúde”, acrescenta o médico, dizendo ainda que “às vezes, é preciso recorrer a tratamentos com efeitos colaterais”, o que acarreta ainda mais dificuldades.
Stress, ansiedade e depressão
Quando a doença não está controlada, uma simples reunião de trabalho ou um evento profissional são suficientes para causar stress e preocupação.  Ana Almeida, hoje com 38 anos, sabe bem o que isso é. “Sobretudo os encontros presenciais são momentos que antecipo com bastante ansiedade. Quando estou num local onde não sei onde ficam os sanitários, fico em pânico”, assume a copywriter. “Só o stress de sair de casa, pensar na logística que implica deslocar-me, procurar lugar para estacionar, perceber onde fica a casa de banho mais próxima são preocupações suficientes para arruinar o meu dia.”
Jorge Ascensão, psicólogo clínico, explica que o stress pode ser “um efeito bidirecional” da doença inflamatória intestinal, podendo, por um lado, agravar-se em momentos de crise da doença, e por outro, “acentuar os sintomas” da mesma por motivos familiares, profissionais ou outros. Para o especialista, o aparecimento de patologias psicológicas, como ansiedade ou depressão, “não está necessariamente relacionado com a gravidade da doença, mas com a perceção negativa que a pessoa tem de si e do mundo, a partir do momento do diagnóstico”. 
De acordo com Jorge Ascensão, 60% das pessoas com colite ulcerosa e doença de Crohn desenvolvem perturbações de ansiedade moderada a grave. “Se considerarmos ansiedade ligeira, completamos quase a totalidade das pessoas com esta doença”, acrescenta o psicólogo, que trabalha com a Associação Portuguesa de Doença Inflamatória do Intestino (APDI). Mais: cerca de um terço (30 a 40%) dos doentes apresenta “sintomas depressivos e perturbações de humor”, acrescenta.
Em muitos casos, estes doentes têm acompanhamento psicológico. “Trata-se de proporcionar a quem tem a doença e aos seus familiares um espaço onde podem trabalhar a aprendizagem da doença, dos tratamentos, [falar sobre] as dúvidas, medos e outras questões emocionais”, explica Jorge Ascensão.
Em algumas situações, os sintomas e o impacto psicológico levam os doentes a deixar de trabalhar ou a alterar a sua vida profissional. Ana Almeida decidiu deixar o emprego, para se tornar empresária. “Ter de pedir favores e compreensão, justificar faltas e compensar horas, esgotava-me quase tanto como a doença. Por isso, criar o meu horário, trabalhar ao meu ritmo e aguentar as guinadas naturais de quem trabalha por conta própria foi a solução que encontrei para ser mais feliz.”
Apesar do estigma e da discriminação de que muitas pessoas continuam a ser alvo, o gastrenterologista José Cotter considera que, graças à inovação, o preconceito tem vindo a esbater-se. “São doenças não contagiosas, embora crónicas, mas que, graças aos avanços dos tratamentos, se conseguem tratar com elevada eficácia, permitindo aos doentes ter um quotidiano normal em grande parte dos casos. Isto é muito importante do ponto de vista social, laboral e psicológico, uma vez que [os doentes] passam a não acarretar qualquer discriminação, rasto ou estigma”, sublinha o especialista. Além do aperfeiçoamento dos métodos endoscópicos, e das melhorias na área da imagiologia, o médico destaca, também, o aparecimento de fármacos mais eficazes que “melhoram o prognóstico, evitando complicações e sequelas”.
Conheça a fundo a DOENÇA INFLAMATÓRIA DO INTESTINO: 40 dúvidas respondidas e 5 vídeos essenciais

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"Admitir a necessidade das cotas raciais é admitir o racismo no Brasil", afirma antropóloga – O POVO Mais

O ano de 2022 é um marco temporal importante em diversos aspectos no Brasil, entre eles os dez anos de existência das cotas nas universidades e institutos federais. Por lei, metade das vagas nos cursos devem ser destinadas a estudantes oriundos de escolas públicas. Dentro desse contingente, as vagas devem ainda ser reservadas para negros, indígenas e pessoas com deficiência.
Para Vera Rodrigues, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), os debates mais acirrados sobre as cotas incidem sobre as questões raciais. “Não vejo tantos embates furiosos quando a gente fala, por exemplo, em cotas sociais. Não é apenas uma questão de não ter dinheiro suficiente, vai além. Os dados de genocídio da juventude negra, de feminicídio contra mulheres negras, estão aí pra falar disso”, afirma.
Vera, que também é membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), enfatiza que o Brasil precisa se reconhecer como um país racista. É dessa forma que a antropóloga vê caminhos para superarmos os processos inconclusos que vivemos. 
O POVO – O que é a Lei de Cotas? Porque ela existe e qual é sua importância?
Vera Rodrigues – Nós temos as cotas sociais, que são para o ingresso de pessoas que vieram da escola pública, e as cotas raciais, que entraram como uma subcota dentro desse universo. Elas são um mecanismo possível de uma ação afirmativa que visa combater as desigualdades raciais e sociais na educação.
Historicamente, nós, população negra, sempre estivemos subrepresentados nos espaços de educação, especialmente no ensino superior. Lá no início de 2002, se não me engano, tínhamos 2% apenas de universitários negros num país como o Brasil, cuja maioria da população é negra. Uma discrepância muito grande entre o percentual populacional e a representação dessa mesma população em espaços decisórios, espaços de prestígio, de acesso de bens e serviços, de formação, como é o caso das universidades federais.
Então as ações afirmativas, mais precisamente as cotas raciais, elas vêm alinhadas com a perspectiva de fazer o enfrentamento a essas desigualdades enfrentadas pela população negra.
OP – Qual é a avaliação que podemos fazer das cotas dentro desses 10 anos de vigência da lei?
Vera – Apesar de termos análises de pesquisadores, de associações, as análises que temos são dispersas. Quando a lei foi aprovada, estava previsto que o governo faria um acompanhamento em nível nacional. Isso não aconteceu. A fim desse decênio, entendemos que é preciso focar em três pontos: monitoramento, aprimoramento e defesa.
Monitoramento porque não se faz qualquer política pública se não há um diagnóstico de como a política está andando, sabe? Precisamos saber, da forma mais ampla possível, quais foram os cursos acessados, quais foram os índices de ingresso, permanência e sucesso desses estudantes… Saber onde estão os gargalos e onde estão os pontos fortes.
Já o aprimoramento é porque a própria sociedade tem novos desafios. O estudante cotista necessita também de políticas de assistência estudantil, dos auxílios para moradia, para garantir o restaurante universitário, por exemplo. Quando há cortes ou redução nos orçamentos da educação é óbvio que isso impacta nos estudantes, entre eles os cotistas que, por vezes, já têm um histórico de vulnerabilidade social. Isso sem falar na integração com outras políticas públicas, como a de transferência de renda.
Finalmente, a defesa é necessária porque não podemos ignorar que ainda temos uma correlação de forças pró e contra as cotas. Tramitam no Congresso Nacional projetos contrários à Lei de Cotas. Isso significa que dez anos depois ainda há muito a ser feito.
OP – E por quê ainda temos essas disputas?
Vera – Porque, apesar de pensada para o âmbito da educação, a Lei de Cotas extrapolou limites da educação. Ela começou a atingir outros setores da sociedade brasileira. São dez anos de uma revolução silenciosa.
Por exemplo, no Ceará, agora temos cotas para os concursos para ingresso no serviço público. Já é uma outra esfera, é o mundo do trabalho e do serviço público.
OP – As cotas permanecem como uma necessidade?
Vera – Sim, sem dúvida. As desigualdades raciais não têm dez anos, elas têm mais de 100. Não vamos desfazer em dez anos o que em centenas de anos foi construído e perpetuado cotidianamente. Nós temos processos inconclusos no Brasil.
Quem está à frente deste país, quem compõe o cenário político, judiciário e empresarial deste país? Já deu tempo para a gente ter resolvido isso, mas não foi (resolvido). E a gente só avançou o que avançou porque se conseguiu forjar, a partir da luta do movimento negro brasileiro, um mecanismo prático de inclusão.
A população negra ainda é vista como algo que incomoda. Admitir a necessidade das cotas raciais é admitir o racismo no Brasil. E o Brasil nunca quis enfrentar isso.
OP – Quando a senhora se refere aos processos inconclusos do Brasil, estamos falando do quê?
Vera – Se pegar a independência do Brasil, por exemplo, o que significou para o povo em si? Se em 1822 foram rompidas as amarras coloniais do Brasil com Portugal, as amarras coloniais do Brasil com seu povo permaneceram. O Brasil continua escravista até 1888, e isso formalmente porque a coisa não terminou no dia seguinte.
O que aconteceu no dia 14 de maio de 1888, o dia após a abolição? Isso significou política pública de reparação ou foi só um “Vire-se, não precisamos mais de vocês”? A sociedade brasileira espera realmente que a meritocracia baixe e, de um dia para o outro, tudo que vai valer é uma uma espécie de uma leitura individual, ou seja, cada um por si e vençam os melhores?
O que aconteceu foi o abandono de uma população negra. E, na consequência, seus descendentes sofreram com esse abandono. Ainda temos muitas consequências para lidar. Nós precisamos ainda ter espaços de representatividade, que não é simplesmente ter um corpo negro ali.
OP – Diante disso, como as cotas podem avançar?
Vera – Pela legitimação das bancas de heteroidentificação. Temos uma política pública que parte da autodeclaração; mas a autodeclaração não é o fim, ela é o princípio. Acho que foi uma ingenuidade imaginar que teríamos nenhuma fraude nesse país. Por menor que seja a proporção dessas tentativas de fraude, elas existem. Se a gente não combater, a gente ajuda a matar a política, porque nenhuma política pública pode ser conivente com fraude.
Não se faz política pública sem mecanismos de controle. Ninguém pensaria, por exemplo, em fazer uma política de transferência de renda sem exigir cadastro, documentação, não sei o que lá mais. Por que a política de cotas raciais seria diferente?

 
Em 2001, pessoas das classes C, D e E eram de 19% dos estudantes nas universidades federais. Em 2020, a proporção foi de 52%. No mesmo período, pretos, pardos e indígenas saíram de 31% para 52%.
 
Em agosto, a Lei de Cotas (lei nº 12.711/2012) completou 10 anos de vigência. O documento prevê sua revisão após uma década de existência e o fato vem despertando discussões sobre as cotas. A revisão não implica extinção das cotas, mas avaliação dos seus resultados e da viabilidade em serem ampliadas ou reduzidas.


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Djavan conta como a fama alterou o racismo em sua vida – VEJA Rio

Há 31 anos, Djavan subiu ao palco do Rock in Rio para participar da apresentação do guitarrista mexicano Santana. Neste sábado (10), ele está de volta ao festival, mas para realizar um show seu pela primeira vez. Atração que abre a programação do Palco Mundo, o cantor e compositor alagoano vai enfilteirar grandes sucessos de sua carreira, como Se, Sina, Flor de Lis e Samurai, além de algumas músicas do recém-lançado álbum D.
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Em entrevista a VEJA RIO, o artista de 73 anos, que recentemente declarou seu voto para presidente em Lula, falou sobre artistas que o ajudaram no início de sua carreira, racismo e envelhecimento em público, entre outros assuntos.
Você fez uma participação no show do Santana em 1991, mas agora é uma apresentação completa. Sei que você é admirado no mundo inteiro e tocou em muitos festivais. Mas no Rock in Rio são 100 mil pessoas por dia e no nosso país, é algo especial. Como você está se sentindo? 
Eu estou certo de que estou me encaminhando a fazer um espetáculo único, inédito na minha vida. Porque o Rock in Rio tem toques que a gente não pode comparar. Não é só o público de 100 mil pessoas, mas a abrangência. Ele leva o que está acontecendo no palco para o mundo inteiro. E, para uma pessoa que já tem uma inserção fora do Brasil bastante acentuada, é um upgrade maravilhoso, e eu estou realmente muito ansioso para fazer esse show, porque eu espero fazê-lo de modo energético, vibrante, eu espero realmente que a plateia esteja — como sempre está quando eu faço show — a favor, com expectativa positiva. E estou me preparando para que tudo isso ocorra realmente de maneira muito boa, que eu saia do palco feliz e deixe todo mundo feliz.
Seu show terá trabalhos de artistas periféricos nas projeções. E em termos musicais, qual a diferença desse show para um show seu de turnê?
Você tem que fazer um repertório que funcione para 100 mil pessoas. Não pode ser um que deixe as pessoas meio voando. E, ao mesmo tempo, você precisa estar feliz com o que você está fazendo. É um repertório que tem que reunir músicas de sucesso, e ao mesmo tempo, músicas que você se sinta bem cantando. Busquei criar um repertório que corresponda à expectativa de todos, inclusive a minha. Embora isso não seja uma coisa fácil, porque você vai fazer um repertório que seja um tiro só, um show de uma hora. Então você tem que fazer um que envolva clássicos mesmo, não tem jeito. E eu também quero mostrar alguma coisa do disco novo. Como é que você vai fazer isso? Eu tenho tentado desde o início dos ensaios para esse show lidar com essa questão. Você tem que correr esse risco. Também não quero chegar lá e fazer o óbvio do óbvio, não vai me satisfazer. Eu consegui criar um repertório que eu acho que vai agradar a todos os lados.
Você fez recentemente Rock The Mountain, vai fazer o Coala. Como tem sido se apresentar para um público de festival? Que é jovem, acredito que isso renove seu público…
A minha plateia é muito heterogênea em todos os níveis, isso sempre foi assim. E isso deve-se à diversidade da minha música, que traz uma diversidade também de raça, de religião, de classe social, faixa etária. Eu sempre vi nos meus shows garotos de 10, 12 anos. Já estou acostumado com essa diversidade dos meus shows. É uma coisa que me agrada profundamente, e eu conto com isso, porque isso já acontece há muitos anos.
Mas tocar em festival tem algo de diferente?
Ah, sim. Houve uma época em que eu fiz muito festival, tanto no Brasil como fora, ao redor do mundo. Depois eu parei um pouco de fazer, porque é uma logística distinta, e eu tenho uma logística própria das minhas turnês, e sofria um pouco com os festivais, porque ali é uma logística para todos os artistas que vão participar daquele dia. E isso não é uma coisa simples. Aí voltei a fazer o ano passado e gostei. Gostei de fazer o Rock The Mountain, fiz um outro também, e agora vou fazer o Rock in Rio e o Coala. O Rock in Rio não se compara muito aos outros, por causa de toda essa estrutura que ele traz, que é única no mundo. Mas fazer festival não pode se tornar um hábito, digamos assim (risos). Porque eu tenho uma turnê a cumprir a cada lançamento de disco, e as minhas turnês têm uma outra pegada, uma outra maneira e razão de ser. Mas festival e aqui e acolá é bom fazer também.
+O artista que Roberta Medina sonha trazer para o próximo Rock in Rio
Você é um artista que cuida da sua música em vários aspectos: produz seus álbuns, faz seus arranjos, eu já vi você dizendo que era sofrido esse processo com produtor às vezes, agora está falando sobre a logística única dos festivais… Você é um artista que gosta de participar de todas as etapas nos shows, se envolve?
Não é nem que eu goste, eu preciso me envolver em tudo. Porque eu tenho uma carreira longa, quarenta e poucos anos, e já sofri de todo tipo de coisa. Essa coisa que você pensar o seu pensamento, o seu desejo ser desenvolvido por outras pessoas nunca dá certo. Sobretudo quando você é, naturalmente, uma pessoa que pensa um pouco diferente na profissão, no fazer da sua arte. Então eu acabei abraçando todas essas funções e até hoje continuo assim. E não vou mudar, porque eu não quero ficar insatisfeito depois. É óbvio que essa maneira que eu tenho de fazer me dá trabalho triplicado com relação à maioria das pessoas. Mas eu gosto de fazer o que eu faço. E só de saber que ali eu vou garantir o meu bem-estar, isso já me desinibe de ter muito trabalho, de passar horas e horas, às vezes não dormir direito, essas coisas todas, para fazer o que eu tenho que fazer. 
Você ficou com uma fama de fazer letras complicadas de entender, que acho até injusta, porque a gente vê outros artistas que também fazem letras que não são óbvias de se compreender e a cobrança não é a mesma. Acha que algumas críticas que sofreu na carreira têm influência do racismo?
É óbvio que têm, o racismo é a razão desse tipo de problema. E é paradoxal, porque o número de sucessos que eu tenho, como é que você pode abrir a boca para dizer que a minha letra não é compreendida? E por que tantos sucessos? Porque a origem é determinante na hora da análise de um artista. Eu sou um negro, filho de uma lavadeira, do segundo estado mais pobre da federação brasileira (Alagoas), não fiz faculdade. Então nada pode garantir, para quem está acostumado a analisar os outros, que o que eu faço faça sentido se eu não tenho uma base intelectual. Isso tudo é bobagem.
E o que importa?
Na verdade, o talento vale muito pouco. O que vale mesmo é a inteligência, é ela que comanda tudo. Se você tem inteligência para desenvolver um talento, você vai ser um grande talento no futuro. Se você não tem, você não vai. Mas eu sou uma pessoa que, quando Deus botou no mundo, ele disse: “Você vai ter problemas, porque você vai desenvolver uma música que não vai ser usual. Mas eu vou te dar força, certeza, você vai ter uma personalidade que vai ter que romper essas barreiras, porque senão você não vai conseguir.” E foi isso que aconteceu, é isso que acontece, eu tenho certeza das coisas. Sou muito intuitivo, eu penso uma coisa, quero, vou fundo, luto por aquilo e consigo. Porque eu brigo muito. Eu sou uma pessoa de luta. E por isso eu cheguei até aqui da maneira como estou. Eu vou buscar, não fico esperando chegar até mim.
Essa forma de pensar diferente, essa música diferente, apesar de todo o sucesso e reconhecimento que você tem, fez com que você se sentisse solitário na sua trajetória?
Bastante. Você vê que tem o grupo baiano, cearense, da Paraíba, mas não tem o grupo de Alagoas (risos). Eu fui sempre muito solitário na minha busca. Embora, justiça seja feita, eu tenha sido buscado muito prematuramente pelos grandes artistas. Quando eu surgi, todos: Caetano, Chico, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, todos vieram a mim, porque percebiam que estava vindo alguém que valia a pena. Tanto que eu fiz música para todos eles, gravei com todos eles, então não posso me queixar disso. Acho que a ascendência que eu tive está muito na mão desses artistas, eles foram bem responsáveis por isso. Foi uma sorte que eu tive, porque, do jeito que eu precisava de ajuda (risos), sendo quem eu era e como eu pensava — e penso até hoje —, eu precisava de alguém que entendesse isso e viesse me acudir.
Você tem músicas em que canta falando de amor para um homem. Como foi isso na sua carreira? Foi recebido naturalmente ou foi uma questão?
Olha, ao que eu saiba, isso nunca foi recebido de maneira negativa. Porque, quando eu escrevo, estou buscando novas formas, palavras novas… Você pode falar até do mesmo assunto sempre, o que vale é a maneira como você fala. Eu falo muito de amor, por exemplo. Amor é um tema inesgotável, porque amor é a vida. Falo de outros assuntos, mas falo mais de relação humana. Então, quando eu escrevo no feminino, estou certo de que eu estou escrevendo como ser humano. Porque as questões de um e de outro são as mesmas. Elas só são absorvidas e desenvolvidas de forma inerente a cada gênero. Mas o homem e a mulher têm questões iguais em todos os sentidos, não só no amor. É um desafio você escrever no feminino e conseguir ser identificado como a pessoa que escreve, simplesmente. Ali não está em questão o gênero ou o que você passou a ser por causa daquilo. Eu tenho necessidade de escrever às vezes no feminino para me reconhecer melhor. É uma questão de você querer adentrar novos universos, outros mundos. Porque é impressionante como o mundo feminino e o masculino não têm nada a ver e são iguais ao mesmo tempo. Quando eu escrevo no feminino, me ensina muito.
O racismo ganhou muito espaço nas discussões públicas nos últimos anos no Brasil. Como você vê essa mudança que vem acontecendo?
Olha, o racismo é uma questão estrutural, é uma questão cultural. Para debelar o racismo, não tem instrumento mais eficiente do que a educação. A educação no Brasil está como você sabe: completamente desestruturada, esfacelada. É preciso refundar a educação no Brasil. O racismo, que não é uma coisa própria do Brasil, é mundial, quanto menos educação houver, mais difícil será para combatê-lo no Brasil. A gente tem essa dificuldade. Até porque até os próprios negros precisam compreender o que é exatamente o racismo. Por que nós, negros, temos tanta dificuldade de nos inserir numa sociedade de consumo, para ascender ao mercado (de trabalho), às universidades, as questões que formam um indivíduo. É claro que para o negro o espaço que sobra, depois do branco — que é o instrutor de toda uma sociedade, de todo um universo, que é habitado por negros e brancos —, o negro sabe que ele precisa mostrar dupla capacidade para poder se impor. Isso aconteceu comigo e acontecerá com qualquer outro negro.
Esse conhecimento, então, pode ser transformador.
O quanto antes o negro compreender essas questões, mais ele se beneficiará de caminhos para resolvê-las. Não quero dizer que o sucesso e o dinheiro façam do negro um branco. E o negro também não quer isso. Ao contrário: o negro quer ser cada vez mais negro, cada vez lutar pela sua cultura, pela sua posição no mundo, pela sua arte. Eu acho uma burrice sem par a posição em que se coloca o negro no Brasil. É medo também: a sociedade branca tem medo do negro. Sabe do seu potencial, da sua força. Lutou a vida inteira contra o negro por causa disso também. Isso não é uma coisa apenas da escravidão. Claro, a escravidão fomentou toda essa estrutura de desprezo e de falta de reconhecimento do branco em relação ao negro. Mas eu acho que a coisa também começa daí: o negro precisa entender o que é o racismo, por que ele existe, como ele pode se posicionar nessa questão, e saber como brigar para, não digo resolver, atenuar as coisas de modo que a sua vida flua com mais naturalidade.
Como a sua ascensão social mexeu com a questão do racismo na sua vida?
O racismo se manifesta para mim hoje de maneira diferente. O cara quando fica famoso e tal não deixa de ser negro. Pessoas que não gostam de preto não vão gostar de mim hoje porque eu sou famoso. Agora, se manifesta mais veladamente, porque tem toda uma identidade da pessoa à frente. Tem que romper essa identidade para se manifestar livremente como se manifestaria diante de outro negro. Mas isso não me engana (risos). Eu continuo negro e vou sofrer racismo até o final da minha vida.
Você vive em ambientes de maioria branca. Como é o sentimento de não ver pessoas como você no mundo onde você vive?
Isso é uma coisa que sempre me incomodou. Mas a vida continua, você precisa viver. O que eu posso fazer e tenho feito é mostrar a minha vida, a minha identidade, a minha história e tentar as pessoas negras de uma realidade que elas precisam conhecer, precisam lidar com ela. Agora, não tem jeito de uma pessoa resolver a questão. Ela só pode ser resolvida, ou pelo menos atenuada, na escola. É a educação. O sujeito tem que saber, desde que entra numa escola, ali pequenininho, que o preto, branco, amarelo são todos iguais, todos têm a mesma potencialidade. Porque os portugueses, ou sei lá quem começou de verdade a escravidão (de africanos), sempre se preocuparam em querer provar que intelectualmente o negro é inferior. E muito negro, por falta de estrutura ou de condições, comprou essa ideia. Não porque quis: foi uma coisa imposta, na verdade. A primeira coisa que, se puder, eu faço, é dizer para um negro: “Não, você é exatamente igual a todo branco. Lute por isso. A sua luta tem que começar por isso, você tem que provar que é intelectualmente capaz tanto quanto qualquer outra pessoa. Você não tem uma estrutura social para demonstrar isso, para desenvolver isso, mas você é igualmente inteligente.” 
Você falou recentemente do quanto se sentiu cobrado por falar lá atrás que esperava o melhor para o Brasil e te chamarem de bolsonarista e atacarem. Com você acha que deve ser a relação dos artistas e política? Artista tem que se posicionar?
Uma pessoa que dispõe de uma tribuna, um microfone, vivendo num país como o Brasil, carente, em construção, uma sociedade à qual falta tudo praticamente ainda, eu acho que ele tem, antes de mais nada, o dever de, tendo oportunidade, esclarecer questões que são primordiais para o crescimento da nação, para o crescimento do povo. Você vive num país hoje difícil até de você tomar posição, porque as coisas mudaram, e a gente não vive num estado de coisas que possa ser chamado de normal. Mas você não vai deixar de se posicionar por isso, porque é maior que você. O Brasil precisa, o Brasil precisa de todos nós. Estamos, cada vez mais, precisando de pessoas que possam ajudar. E eu posso. Eu nem preciso me posicionar nitidamente sobre questões políticas, porque eu já ajudo de outras maneiras, e mesmo assim eu faço isso, porque têm pessoas que têm dificuldade de entender as coisas, a gente precisa esclarecer. Porque eu acho que o povo dispõe dos artistas, entre outras coisas, para ajudá-lo a viver, a crescer, a alcançar, a ultrapassar. E estou aqui para isso.
No seu disco novo, você gravou uma música com o Milton Nascimento pela primeira vez, é até difícil de acreditar que não tenham gravado juntos antes. Tem algo na sua carreira que você tem vontade de fazer e ainda não fez?
O meu projeto de amanhã é acordar com a mesma impetuosidade que acordei hoje. Eu quero sempre ter a vontade de fazer, o desejo, a alegria de criar, de vislumbrar novos horizontes, novas propostas. Isso é o que eu quero que Deus mantenha na minha vida: a vontade de fazer. Eu quero acordar todos os dias com a alegria de sentar e compor uma canção nova.
É difícil envelhecer em público?
É difícil envelhecer. Agora, ao mesmo tempo, é uma glória. Eu quero morrer com 100 anos (risos). Fazendo o que faço hoje ou não, mas respirando, porque eu amo a vida. Eu acho que a vida é o maior bem de qualquer pessoa na face da tarde. Eu, graças a Deus, tenho boa saúde. Eu cuido da minha saúde, eu sou uma pessoa regrada, digamos assim, porque eu gosto da vida. E eu acho que eu tenho muito o que dar ainda, eu tenho muito o que fazer. Então eu só quero que Deus me acorde todos os dias alegria com a qual eu fui dormir a noite passada.
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MPT promove evento que combate discriminação e valoriza diversidade racional no trabalho – Agência Sertão

No final desta semana, dias 15 e 16 de setembro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) realizará a terceira edição do evento virtual e gratuito Afro Presença. A iniciativa busca prevenir e combater a discriminação racial nas relações de trabalho e valorizar a diversidade racial nos espaços empresariais.
Na edição de 2022, o Afro Presença traz como tema “Plantando sementes, criando raízes”, e busca trazer representatividade, oportunidades e conhecimento para os jovens negros de todo o país.
O evento terá a realização de palestras, debates, oficinas e muita interação, sempre com o propósito de promover representatividade, oportunidades e conhecimento para os jovens negros e negras.
Roger Cipó, Ana Minuto, Egnalda Cortes, Karol Pelissioni, Molina Indígena, Pagu, Allan do movimento Blackmoney e Jaqueline Góes são algumas das presenças confirmadas para algumas das 16 mesas temáticas.
O Afro Presença pretende discutir questões como a importância da diversidade nos meios de comunicação, novos formatos de mercados para jovens negros, o papel das tecnologias na inclusão de jovens negros, a importância das diversidades estéticas para a sociedade, entre outras pautas.
As oficinas de capacitação tratarão conteúdos de carreira e empreendedorismo, transformação digital, ocupação de espaços e os desafios de estar em ambientes embranquecidos, representatividade no cenário político impactando a autoestima e empoderamento dos profissionais negros.
As pessoas interessadas em participar podem realizar sua inscrição através de formulário eletrônico no site do evento.
A apresentadora e jornalista Alinne Prado e a criadora de conteúdo digital Sueide Kinte já estão confirmadas como mestres de cerimônias dessa terceira edição.
O Movimento Afro Presença surgiu através do Projeto Nacional de Inclusão de Jovens Negras e Negros Universitários no Mercado de Trabalho, do Ministério Público do Trabalho. A ação é executada pela startup Negras Plurais e produzida pelo Labfantasma.
O projeto conta ainda com várias empresas parceiras como Bradesco, Coca-Cola, Colgate, Mover, Itaú, JP Morgan, Natura, Santander, Tim, Unilever, Vale e Vivo.
Outro diferendial do Afro Presença, é que algumas empresas patrocinadoras vão entrevistar e encaminhar candidatos inscritos no evento para processos de seleção para vagas nas suas empresas. Segundo os organizadores, esse apoio e o compromisso de oportunidade de trabalho são fundamentais em termos de representatividade e redução das desigualdades raciais.
Para conferir a programação completa do evento acesse a página do Afro Presença ou acompanhe suas redes sociais.
Agência Guanambi Sertão Ltda [email protected] (77) 98831-9536
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Fontenelle: Justiça da PB declara incompetência em caso de xenofobia – Portal T5

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