Mikhail Karikis nas Carpintarias de São Lázaro: a urgência de uma togetherness – Rimas e Batidas

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A exposição continua nas Carpintarias de São Lázaro e a performance musical da abertura, no passado dia 22 de Julho, é-vos aqui contada. O Lisboa Soa de 2022 começou em modo de artivismo, alertando-nos para a necessidade de corrigirmos o corrente desastre ambiental e de nos juntarmos para uma acção comum.
Vivemos num tempo em que a arte (as artes, no plural) precisa novamente de ser engajada. Se essa era uma característica do modernismo, a ironia do pós-modernismo, e depois o cinismo do pós-pós-modernismo (ou meta-modernismo, segundo alguns filósofos culturais e da estética), conduziram a uma geral despolitização da criatividade. O poli-artista de origem grega Mikhail Karikis, residente em Lisboa depois de uma longa estadia no Reino Unido, é um dos melhores exemplos na actualidade internacional desta renovada necessidade de cometimento e intervencionismo. Coube-lhe a ele abrir o Lisboa Soa com uma exposição nas Carpintarias de São Lázaro, com todo o simbolismo daí inerente.
Acoustics of Resistence é o título da dita exposição — e não podia ser mais apropriado. Porque a resistência é, mais do que nunca, urgente e porque, na circunstância como em todo o percurso de Karikis, o som é uma componente fundamental, tenha a forma que tiver, seja a fala, os ruídos da natureza, a implicação imaginária de uma envolvência acústica, mesmo que haja silêncio, ou até a música, nos formatos de vídeo, instalacionismo e performance.
Para o efeito escolheu três peças, uma de 2018, “No Ordinary Protest”, com uma conversa entre 35 crianças da Mayflower Primary Academy, e duas já datando do corrente ano, “Surging Seas”, combinando imagens topográficas do estuário do Tejo no passado, no presente e num mais do que previsível futuro, e texto, este também resultante de diálogos infantis (mas com que perspicácia!), e “The Weather Orchestra”, com as participações em quatro grandes ecrãs de Joana Guerra, Maria do Mar e Helena Espvall em instrumentos que mimetizam os sons de diversos ambientes climáticos (trovoadas, ondas do mar, ventos, chuva, etc.), mais introduções de cantos tradicionais do mundo, com intervenientes como a madeirense Mariana Camacho, Salman Duski, Helene Tungelund e João Neves. O cuidado com o pormenor incide no cuidado com a iluminação, com a gama de cores e com os belíssimos fatos vestidos pelas intérpretes.
A grande causa da arte de Mikhail Karikis, como já se terá entendido, é o alerta quanto às alterações climáticas devido à incúria ambiental do capitalismo, bem clara na projecção futurística de “Surging Seas” quanto ao que acontecerá ao Rio Tejo. E esta surge acompanhada por uma outra mensagem de não menor importância: a da necessidade de uma togetherness, da união e da comunhão de propósitos dos seres humanos. Importantíssima numa altura em que a guerra, o ressurgimento dos fascismos, o racismo, a xenofobia, a homo-transfobia, a exploração dos outros, a competição individualista, a indiferença pela sorte alheia, o ódio propagado pelas redes sociais estão na ordem do dia. E lá estão uns quantos cartazes de uma suposta manifestação ambientalista com os dizeres “esperança indizível”, “resgatar o futuro, não o lucro”, “quando oiço, o eu torna-se nós” (sintetizando, aliás, o conceito por detrás da obra de Karikis) ou “amor feroz”.
Na inauguração, a 22 de Julho, o artista também cantou (muito bem, diga-se, parecendo inesgotáveis os seus recursos expressivos) e tocou alguns dos instrumentos de “The Weather Orchestra” numa performance musical em que Joana Guerra e Helena Espvall tocaram os seus violoncelos e Maria do Mar o seu violino, ou seja 3/6 do colectivo Lantana (notícia em primeira mão: vai sair disco do sexteto muito em breve), numa improvisação plena de detalhes, centrada nos jogos de timbres que se iam proporcionando, e criando uma atmosfera de uma serenidade e de uma beleza de todo helénica que foi muito especial.
Também nesta ocasião esteve por inteiro uma premissa essencial do trabalho de Karikis, “desenvolver projectos de inspiração social que estimulem um imaginário activista e proporcionem a idealização de futuros de potenciação e autodeterminação”. A música que ali aconteceu era a anunciação, a agenciação, do que pode ser uma sociedade outra, de pessoas livres e iguais. Um exemplo celular do que a humanidade poderá vir a ser, se todes, finalmente, fizermos por isso. Não é um sonho, é uma emergência, aquela em que Mikhail Karikis vem insistindo de modo tão notável.
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