Portal UFS – Professor da UFS lança livro sobre xenofobia e intolerância linguística – UFS

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Em meados de 2016, um estudante haitiano foi agredido a garrafadas em Foz do Iguaçu, no Paraná, principal cidade brasileira da Tríplice Fronteira, formada por Paraguai, Argentina e Brasil. Getho Mondesir, então com 33 anos, era estudante de administração pública e políticas públicas na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-americana), em Foz.
Naquele ano, Jocenilson Ribeiro era professor na Unila, atuando na pesquisa, extensão e ensino. Entre outros temas, lecionava português para falantes estrangeiros. O docente conta que a agressão contra o estudante haitiano foi emblemática, no contexto de violências por discriminação contra estrangeiros.
“Vale lembrar que historicamente a cidade de Foz do Iguaçu se desenvolve ao lado de outros países. E a gente sabe, não é nenhuma novidade, que toda fronteira envolve violência, discriminação, diversos tipos de problemas políticos, econômicos, policiais”, recorda Jocenilson.
O professor já havia percebido, na própria sala de aula, a existência da discriminação sofrida por estrangeiros.
“Eu ensinava línguas e também teorias linguísticas para estudantes de cerca de 16 a 20 nacionalidades diferentes na mesma sala, então apareciam, através de comentários dos estudantes, o constrangimento, as denúncias — microdenúncias — da própria relação dos estudantes com o pessoal da cidade ou dentro da própria universidade”, conta.
Jocenilson decidiu então pesquisar as manifestações de violência e discriminação contra estrangeiros na Tríplice Fronteira e na própria Unila. Do ponto de vista teórico e metodológico, o pesquisador adotou os estudos da análise dos discursos franco-brasileiros. Depois, a partir de 2020, ao se transferir para a Universidade Federal de Sergipe, o docente ampliou a pesquisa para a xenofobia dos brasileiros das regiões sudeste e sul contra nordestinos.
O estudo resultou na publicação, cinco anos depois, do livro “Xenofobia e intolerância linguística: discursos sobre estrangeiridade e hostilidade brasileira”. Parte da produção e edição da obra foi financiada pela UFS, através de projetos de pesquisas com bolsas de Iniciação Científica, e outra parte financiada pela Unila.
Xenofobia e glotofobia
A pesquisa de Jocenilson adotou a análise de discursos para compreender as manifestações de violência e discriminação contra estrangeiros. Realizar e analisar uma grande quantidade de entrevistas seria inviável naquele momento.
“Então começamos a observar pichações, tanto na universidade quanto na cidade, e também [observar] as redes sociais e as notícias, tanto na mídia corporativa quanto na alternativa, sobre denúncias ou casos, acontecimentos narrados a propósito dessas violências”, explica.
O objetivo foi então perceber como essa violência se manifesta nos diversos tipos de linguagens, textos verbais e orais. “Eu não fiz isso sozinho, fiz com estudante de iniciação científica [na UFS] e de mestrado na Unila”, complementa.
No caso da Unila e de Foz do Iguaçu, Jocenilson observa que a própria condição político-geográfica da Tríplice Fronteira fornece um pano de fundo histórico para a ocorrência de estereótipos e discriminações.
“Questões em relação a contrabando [por exemplo] geram comentários do tipo ‘coisas do Paraguai’, além disso tem também comentários contra argentinos, porque argentinos seriam grosseiros, porque eles impõem muitas multas contra motoristas brasileiros como uma forma de arrecadar dinheiro de forma ilegal, então essas coisas vão surgindo e obviamente isso gera comentários xenofóbicos, estereótipos e discriminação, e até inclusive violência física”, avalia o professor.
Além disso, a Unila é, por princípio, uma instituição voltada à integração, onde naturalmente se reverberam os preconceitos e discriminações contra estrangeiros. “Talvez a principal universidade brasileira, ao lado da UNILAB [Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira], no Ceará e na Bahia, que tem um propósito integracionista, isso significa que estas duas universidades recebem professores, técnicos, estudantes — majoritariamente estudantes — de origem estrangeira”, pontua.
A sequência da pesquisa, realizada na UFS, ampliou o estudo através do projeto “Vozes em migração: discursos, violências e representações de estrangeiridades”.
“Eu começo a observar também as discriminações contra nordestinos, que também são vistos como estrangeiros e passam por discriminação pela língua, pela questão de origem, pela religião e suas representações culturais mais diversas, quando os nordestinos migram para Sul-Sudeste, mas também quando eles falam nas mídias [por exemplo] e são objeto de estereótipo”, diz.
O docente avalia que a ascensão da xenofobia e da intolerância linguística no Brasil está relacionada a fenômenos de violência e discriminação mais amplas, como aquelas relacionadas, além da origem, à classe social, à língua, à cor da pele. “E sobre os quais o discurso científico tem nomeado como xenofobia, glotofobia — que é a discriminação contra o modo de falar ou as falas e a língua do falante —, o xenorracismo — a vinculação entre a questão racial e o racismo — e a porofobia, que é a discriminação, o desprezo e a desvalorização aos pobres, a pessoas de classes sociais mais menos favorecidas”, explica.
‘Cordialidade estereotipada’
Jocenilson Ribeiro reflete em seu livro sobre a contradição de um país de cuja história a estrangeiridade faz parte, desde a chegada dos primeiros colonizadores, ser o mesmo país onde a xenofobia tem sido crescente.
“Como se pode compreender a brasilidade diante do estrangeiro nessa contração entre a cordialidade estereotipada e a estrangeiridade esquecida? Há inúmeros exercícios analíticos. Pela constituição dos discursos que analisei, noto o brasileiro como um sujeito marcado pelas violências históricas seja como violador, seja como violentado”, aponta o pesquisador.
“Nesse sentido, o tratamento ao outro estrangeiro vai estar nesse espaço entre a recepção amistosa e a ideia de ameaça do outro, principalmente se esse outro for afrodescedente, refugiado, imigrante, não-gringo. O racismo estrutural se funda aí…”, avalia.
O autor e a obra
Jocenilson Ribeiro é professor da UFS lotado no Departamento de Letras Vernáculas e no Programa de Pós-Graduação em Letras. Além disso, coordena o grupo de pesquisa “imaGine (Laboratório de estudos de discurso, história e estrangeiridades)”.
O livro de Jocenilson foi publicado pela Editora Pontes e pode ser adquirido neste link.
Marcilio Costa – jornalista
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