Boris Johnson e Daniel Oliveira foram os dois passear, o primeiro caiu, o segundo escolheu tropeçar – Expresso

Siga-nos

Opinião
25 julho 2022 7:04
25 julho 2022 7:04
Há dias, escrevi aqui um artigo onde dizia que “se em Portugal, comentadores, analistas, políticos e cidadãos colocassem, na avaliação do nosso próprio governo, um décimo do escrúpulo que usam para condenar Boris, os 7 anos de governação de Costa, seguramente, ter-se-iam contado em meses.” O Daniel Oliveira, aqui, fez a gentileza de confirmar, horas depois, a minha afirmação. Fê-lo, aliás, usando termos e forma que não lhe são usuais. E acabou a reforçar uma tese antiga sobre o modus operandi da esquerda, minha, e uma falência argumentativa, da esquerda. A tese? Na ausência de razão, aumentam a confusão. A falência? Se a direita ameaça, acusam-na de “reaça”.
É justo reconhecer que o Daniel Oliveira, de quem discordo de quase tudo, apresenta normalmente argumentos em favor das suas teses e evita o insulto gratuito e não fundamentado. Infelizmente, sobre Boris Johnson, Daniel resolveu insultar muito e argumentar pouco. Chama-lhe aldrabão cinco vezes. Faz alusões à sua falta de carácter quatro vezes. E chama-lhe palhaço uma vez. É muito.
Argumentos? Umas coisas que há não sei quantos anos escreveu para o The Telegraph, mas que não concretiza; umas coisas sobre o Partygate, moralmente demolidoras, segundo Daniel, porque o país estava todo em casa e o Gabinete do PM estava em festa em Downing Street, ainda que não me lembre de lhe ter lido nada parecido quando em Portugal o país estava todo em casa, enquanto a CGTP celebrava na Alameda o 1º de Maio; umas coisas sobre um cavalheiro qualquer cheio de pecados cuja nomeação Boris suportou, mas nada semelhante a uma infinitude de casos que se aguentaram no poder em Portugal, protegidos por Costa; e o Brexit, claro. É pouco.
E é pouco porque se até eu, que gosto de Boris, conseguiria concretizar mais do que isso, mais seria de esperar de Daniel. Mas é pior do que ser pouco, é insidioso. É insidioso, porque, lá está, quando falta a razão aumenta a confusão, e porque quando a direita ameaça – Boris conseguiu, democraticamente, uma maioria como há décadas o Reino Unido não via – acusa-se de “reaça”. E como, neste caso? Amalgamando Boris com Farage, acusando-o de “um festival de mentiras xenófobas” e de incorporar a “xenofobia mais agressiva e a mentira sistemática [da extrema-direita] como forma de fazer política”.
Ou seja, no mesmo artigo, de onde sobra pouco mais para além disto, sobressai o insulto, a falta de rigor e a insinuação. Ninguém, de boa fé, pode considerar Boris um anti-liberal e um extremista. E, para alguém que se diz “eurocético cada vez mais convicto, mas que não troca o rigor do debate pela facilidade da demagogia”, Daniel tinha a obrigação de fazer mais.
Boris despediu-se, para gáudio dos seus opositores e dos seus traidores, esta semana dos Comuns. Num discurso de um minuto e quarenta segundos (!), onde deixou conselhos ao seu sucessor, disse várias coisas que importa reter: mantenham-se próximos dos Estados Unidos, lutem pelos ucranianos e lutem pela Liberdade e pela Democracia. É pouco? Eu acho que é bastante. Mais: eu acho que é bastante bom. Daniel Oliveira parece discordar, já que acha que Boris “[n]ão hesitou em alimentar o discurso mais belicista e perigoso sobre a guerra, não por qualquer solidariedade com a Ucrânia, como Zelensky parece acreditar, mas na esperança de adiar o regresso dos dissabores domésticos.” Está no seu direito de pensar assim. O que não pode esperar – daí este contraditório – é que as suas ficções preconceituosas sobre Boris sejam verdade, e passem por verdade.
A Europa deve continuar a pugnar pela Aliança Atlântica, pelo livre comércio numa base de respeito por valores elementares, desde logo o da Paz (não a paz das baladas hippies, mas a paz construída e defendida), e pela defesa intransigente da Liberdade e Democracia. Líricos – ou loucos – dirão que isso não está em causa. Mas está. Assegurar o cumprimento destas linhas vitais é todo um programa político. Um programa político a que, parece, nem todos aderem; sobretudo quando o seu confronto fica ameaçado. E um programa político que, sem tibiezas, se materializa, nestes cerca de 150 dias de guerra hedionda e sem adversativas admissivelmente decentes, na defesa determinada da Ucrânia. Boris fê-lo.
Mas naquele minuto e quarenta segundos de despedida, Boris ainda teve tempo de dizer mais: diminuam os impostos e desregulamentem tanto quanto possível. A esquerda pode discordar, e é normal que o faça, mas não pode desqualificar. Ou não devia. Pelo menos numa sociedade democrática onde visões distintas se digladiam pelo poder de forma legítima. O que também não podem fazer é, propositadamente calando o que também é dito e não lhes convém (por cá, a Iniciativa Liberal também costuma ser alvo destes ataques), tomar a caricatura pela persona.
Boris acrescentou, sublinhando a importância do investimento público, que se se ouvisse sempre o Ministério das Finanças, investimentos essenciais para a comunidade não se teriam feito. Parece-me pouco neo-liberal, para quem gosta deste epíteto como insulto. Disse mais: cuidado com a bolha, não é o que se escreve no Twitter que conta, mas a vontade expressa em votos do povo. Vontade essa que, num referendo com 72% de participação, resultou num Brexit que eu lamento, mas que, democraticamente, não poderia deixar de ser concretizado, muito menos após 2 ou 3 anos de impasse, onde tantos “democratas” quiseram reverter na secretaria a vontade popular. Boris fê-lo. Parece-me pouco populista, para quem gosta deste epíteto como insulto.
Não, Daniel, o problema político da direita democrática não é “ter-se rendido à forma da extrema-direita fazer política”, o problema da direita democrática é ter deixado – ou, mais correctamente, ter-se amedrontado ante as tentativas da esquerda a subjugar a isso – de poder expressar as suas opiniões sobre a vida dos cidadãos sem que um enorme ruído se lhe sobrepusesse, com mais insultos do que argumentos, com mais confusão do que razão.
Mas isso não tem que ser sempre assim, e há quem por cá não se deixe levar; ou, como diria Boris, hasta la vista, baby!
+ Opinião
Siga-nos

source

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.