'A cor está aqui, estampada no meu corpo': mulheres negras falam sobre racismo, identidade e valorização – Dia a Dia Notícia

*Victória Cavalcante – Dia a Dia Notícia
Dia 25 de julho é comemorado o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, essa data celebrada em 2022 representa 30 anos do 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, ocorrido em 1992, no intuito de dar visibilidade a uma das minorias mais oprimidas do mundo.
Neste primeiro encontro, grupos feministas negros de 32 países se reuniram na República Dominicana para debater temas como machismo e racismo dentro das sociedades latinas e caribenhas. Mesmo após 30 anos do evento, mulheres negras ainda são alvos de ataques racistas, sexualização e desrespeito.
O Portal Dia a Dia Notícia entrevistou duas mulheres negras que toparam falar sobre o processo de vencer o racismo, identidade e valorização da beleza negra.
 
Nossa primeira personagem é Elizangela Conceição Cavalcante, 49 anos, ela é professora da educação de jovens e adultos, extrativista e empreendedora. Morando na Comunidade São Francisco das Chagas do Caribí, no Rio Utumã, interior do Amazonas, a professora diz que sente orgulho de poder escolher sua profissão.
“Ser ribeirinha me dá muito orgulho, e como mulher negra, eu tenho mais orgulho ainda. Eu me sinto uma peça fundamental, de suma importância, não é a cor da minha pele que vai dizer nada sobre meu caráter, minha personalidade, meu potencial, o que vai dizer, sou eu mesma, minha pessoa. Lutamos sim contra o preconceito, há sempre um olhar estranho, um torcimento de nariz quando a gente chega, mas eu vejo que o nosso papel é fundamental, independente de cor. Eu me sinto é mulher, mulher para enfrentar os desafios que a vida nos proporciona, nós estamos aí, tentando superar esses desafios”, iniciou Elizangela.
Perguntei à ela, se por ser uma mulher negra, já foi alvo de comportamentos ou ataques que a fizeram sentir inferior por ter um tom de pele que não fosse bem visto pela sociedade na época em que era criança.
“Já me senti inferior por ser negra, não só quando criança, já me senti depois de adulta também. Quando criança, a gente passa por isso pela convivência com outras crianças, tem um pensamento que diz que ninguém nasce odiando ninguém e quem aprende odiar, também aprende a amar, as crianças refletem a vivência de casa, e eu sei que alguns pais são super preconceituosos, e as crianças levam isso para os ambientes que elas participam”, relatou a professora.
Elizangela destacou que na sua infância era comum receber comentários preconceituosos em forma de crítica ou ‘brincadeira’ entre crianças.
“Tinham muitas ‘brincadeiras’, tipo assim: ‘o cabelo dela é de bombril’, ‘o cabelo dela não molha’, ‘ela é preta’;  como se a palavra preta já fosse suja, e preto é apenas uma cor, como branco, como amarelo, como verde e roxo, é uma cor, que eu digo sempre, uma cor muito bonita, gosto do jeito que eu sou, gosto da minha cor, da cor dos meus olhos, do tamanho dos meus dentes, gosto da cor da palma da minha mão e de tudo em mim”.
A professora também disse que acredita que mesmo que os tempos sejam outros, o racismo ainda é muito presente na sociedade brasileira, que é composta por mestiços, negros, indígenas e brancos.
“Se eu acho que alguma coisa mudou da minha infância para hoje, acho que não, acho que ainda existem muitas crianças preconceituosas, muitos pais preconceituosos, nosso país ainda é muito preconceituoso, mas isso vai de cada um analisar a situação do preconceito. Quando encontro alguém preconceituoso, quem torce o nariz sou eu, eu não preciso provar nada para ninguém, eu não preciso querer ser melhor que ninguém. A cor está aqui, está estampada no meu corpo todinho, não tem como mudar, nem queria mudar, a cor é essa, com muito orgulho”.
Elizangela também afirmou que como educadora, cumpre seu papel de mostrar aos seus alunos que não existe diferença entre cores de pessoas e que todos devem ser tratados com igualdade.
“Como professora, na minha sala de aula, nas salas de aula onde atuo, sempre cito isso, ninguém é melhor que ninguém, somos iguais, independente da cor, nós somos iguais, somos seres humanos. Penso que Deus colocou pessoas de cores diferentes para não ficar todo mundo igual, seria muito estranho você olhar para uma pessoa ela ter as mesmas caraterísticas que você tem, a mesma cor da pele, a mesma cor dos olhos, os mesmos traços do rosto, o mesmo tipo de cor, Deus nos fez assim para sermos únicos”.
Um dos maiores desafios na carreira como professora de Elizangela, era sofrer julgamentos infundados relacionados a sua cor, e que sem precisar gritar, ou chamar atenção, conseguiu provar  seu valor e conquistar respeito.
“No meu trabalho, acho que já teve um período assim, que as pessoas olhavam meio estranho, porque pensam que por eu ser preta só tenho segundo grau, mas quando eu me apresentava e falava sobre minha formação: ‘sou formada em magistério, tenho normal superior e fiz minha especialização em educação de jovens e adultos’, então isso aí já dava um ‘opa, ela sabe alguma coisa’, parece até que por ser preta, a gente tem um menor QI, e sabemos muito bem que isso não é verdade”, relatou.
Para  a professora, as diferenças entre brancos e negros devem ser descartadas, para que todos possam ter as mesmas oportunidades e aconselha jovens negras a terem coragem para enfrentar desafios e abraçar as oportunidades.
“Meninas, mulheres negras, pretas, lindas, maravilhosas, que têm muita melanina, eu digo: coragem, força, vamos focar, as oportunidades estão aí, independente da sua cor, você tem o direito de lutar por igualdade, de ser igual, e para ser igual, você tem que se sentir igual. Eu sou mulher porque eu sou única, sou gente, tenho capacidade, porque eu sei o que quero, o que eu busco, se for sucesso, eu vou alcançar o sucesso, porque você busca aquilo que você acredita, então você consegue. Então meninas negras, meninas pretas, vamos lá, arregaçar as mangas, mostrar que cor não é tudo, que preto é apenas uma cor, que branco é apenas uma cor, e o que vale é pessoa que está por dentro da pele, que só nos recobre, no resto somos iguais”, destacou.
A segunda personagem da nossa reportagem é Mirian Victoria Okawa, que tem 20 anos, e apesar de ser brasileira, mora no Japão há três anos, e trabalha como funcionária de fábrica na cidade de Nagoya. Para ela, a sexualização é um tema recorrente para as mulheres negras.
“Um dos maiores desafios, é a luta. A mulher negra é vista de uma forma muito sexualizada, isso acontece muito aqui no Japão, é vista como a mulata ou aquela que tem um corpão e etc, sem analisar o resto da história da pessoa, a inteligência, o caráter”, destacou.
Para a jovem brasileira, um dos piores estereótipos sobre as mulheres negras, são relacionados à sexualização que sempre foi atribuída por outros povos.
“Que mulher negra e feita pro Sexo, ou que tem que aguentar tudo calada, ou que precisa ter corpão pra conseguir algo na vida! O que é muito errado”, afirmou Mirian.
A brasileira destacou ainda que mesmo em um país diversificado como o Japão, e com tantas propostas de animes com diferentes narrativas, a representatividade negra nos personagens ainda é limitada, porém tem ganhado força em outros ramos do entretenimento.
“São raros os animes onde tem personagens morenos, mas em questão de filmes e séries a cada vez eu sinto que vem aumentando mais nossa comunidade dentro, então eu me sinto representada nessa área”, pontuou.
Outra experiência que Mirian compartilhou, é que por ser negra e latina, muitos japoneses chegaram a propor sexo com ela de forma direta, sem respeito e tentando clarear sua pele para se encaixar nos padrões do país.
“Para eles o padrão bonito é sempre o mais branco, a maioria dos japoneses que eu conheci ou queriam algo comigo e era de uma forma muito direta sabe ? Tipo “- let’s have sex” (vamos fazer sexo), e eu sempre me senti bastante ruim, ou era comentários falando que eles queriam algo comigo, mas eu tinha que fazer uma depilação completa no corpo ou dar um jeito de clarear minha pele e não sair no sol”, disse.
 
O racismo é um tema recorrente para as pessoas negras, sejam elas homens ou mulheres, e com o uso das tecnologias, crimes de racismo e ataques racistas foram se propagando, permitindo que pessoas que nunca se viram possam espalhar ódio e afirmações falsas. De acordo com dados da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos (Safernet), que desenvolveu um sistema para receber denúncias para esse tipo de crime, de 2006 para 2015, o número de denúncias anual saltou de 25.690 para 55.369, mais do que o dobro na taxa de aumento (115%).
O que não foi diferente com a personagem dessa reportagem, que relatou já ter sofrido ataques ao seu tom de pele e características físicas com uma certa frequência no Instagram.
“Esse mês eu sofri um ataque racista pela internet, onde minha boca foi citada como ‘boca de gorila’, eu amo minha boca, mas confesso que isso me afetou bastante, ano passado eu sofri um ataque racista aqui no Japão, onde eu tive que ouvir vários comentários do tipo “you’re black, i’m disgusted with you” (você é negra, estou com nojo de você). Então foram palavras que me abalaram e eu não tive coragem de denunciar”, salientou.
Além de ser uma mulher negra, Mirian carrega não somente na pele, mas também no sangue, uma ancestralidade indígena, que afirma não se envergonhar das suas origens em qualquer lugar do mundo onde passe.
“Meus avós por parte de pai eram indígenas puros, e eu sou descendente, nunca estudei e cresci no meio, porque fui adotada, mas tenho muito orgulho disso e não deixo de citar que eu sou uma mulher negra com descendência indígena e morando no Japão”, enfatizou.
No final da entrevista, perguntei a ela o que ela diria para meninas negras e latinas mais jovens que ela, que tem seus sonhos, seus objetivos e que podem se inspirar nela.
“Cara eu vou ser sincera, é muito difícil, uma hora ou outra a gente passa por momentos difíceis relacionados ao racismo, mas eu quero que saiba que nós estamos aqui, que eles e elas não estão sozinhas e que não vamos desistir de tentar mudar o mundo. Estamos aí na luta!”, finalizou.
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