Bolsonaro é reação de elite que não precisou da lei para ser racista, diz historiadora – Folha

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Vinte cinco de maio de 2020. George Floyd, um homem negro, é morto por um policial branco nos Estados Unidos. A imprensa brasileira recebe a notícia e repercute o crime como se a barbárie em Minneapolis fosse alheia a nós. “Essa estranheza por boa parte da mídia me motivou a escrever”, diz Ynaê Lopes dos Santos, autora de “Racismo Brasileiro: Uma História da Formação do País”, publicado pela editora Todavia.
Segundo a professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, mal parecia que uma semana antes João Hélio, de 14 anos, havia morrido numa ação da Polícia Militar em São Gonçalo, na Baixada Fluminense.
É bem verdade que a segregação racial jurídica americana contrasta com o histórico brasileiro, que nunca adotou leis abertamente segregacionistas. No entanto, o Brasil nunca o fez porque nunca foi necessário. É sob essa perspectiva que a historiadora constrói seu texto.
“O Estado criou uma sistematização de exclusões sem as precisar racializar, embora a racialização estivesse na base dessa estrutura”, afirma. “No mito de origem da história brasileira, é reconhecida a existência de três raças, mas também é determinado o lugar de cada uma delas.”
A professora faz referência à tese vencedora do concurso promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1844. Von Martius explicou a formação do país a partir de três rios, que representariam as três raças, o grande rio branco e seus dois afluentes, o negro e o indígena.
Bebendo dessa fonte, a pretensa harmonia entre a casa-grande e a senzala foi aprimorada por Gilberto Freyre na década de 1930 e esteve nas bases da política durante a ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945.

O livro mostra que a história do racismo brasileiro é a própria história do Brasil —desde a colônia à República. “Somos uma sociedade que escolheu o racismo em todos os momentos agudos de nossa história política”, diz.
“Por mais que a escravidão tenha durado quase 400 anos, o racismo atual não é fruto só dela. Tivemos mais de 130 anos de uma experiência republicana abertamente racista”, argumenta. “Enquanto não tivermos um enfrentamento efetivo do racismo a nossa democracia vai estar sempre em perigo. A titubeação democrática é consequência do racismo que nos estrutura”.
A professora entende a guinada à extrema direita no Brasil como um regresso conservador, em resposta aos avanços conquistados pelas minorias desde a Constituição de 1988, como a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e a adoção da Lei de Cotas. Santos, contudo, afirma que esse movimento não é único na história brasileira.

“No século 19, o regresso conservador reabriu o tráfico negreiro na ilegalidade [após a proibição de 1831]. Essa forma da elite brasileira de atuar, bem conservadora, está aí desde que o Brasil é Brasil”, afirma. “Agora, as coisas estão mais escrachadas e o que temos é isto, uma parte da elite que não quer mudanças.”
Um dos primeiros atos que um governo verdadeiramente democrático deveria fazer ao assumir o Palácio do Planalto no ano que vem seria, segundo a historiadora, restaurar a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, extinta em 2015 e incorporada ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. “A luta pela igualdade racial precisa estar no pilar de todos os ministérios”, afirma.
A professora celebra os dez anos da Lei de Cotas, mas diz que a política é insuficiente para combater o racismo. “É característico do Brasil ter, ao mesmo tempo, um número expressivo de jovens negros entrando na universidade e de jovens negros sendo mortos pela polícia”, diz.
Quando a mãe de um menino negro se preocupa se o filho está saindo de casa com um capuz —algo banal, mas que pode pôr o jovem sob suspeição da polícia—, significa que ela não é livre. Nem a mãe nem o filho são cidadãos plenos, diz a professora.
“Na sociedade em que vivemos hoje, neoliberal e individualista, não existe a possibilidade de pensar ações de transformação efetiva do ponto de vista racial”, afirma. “Propor uma mudança racial é propor uma mudança de sociedade.”
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