Testagem obrigatória por etnia em Macau considerada racismo – Jornal de Notícias

Macau foi atingido no mês passado pelo pior surto enfrentado desde o início da pandemia
Foto: AFP
Um deputado e uma associação de Macau acusaram as autoridades de discriminação racial por terem decretado uma testagem diária à covid-19 a todos os cidadãos filipinos.
“É de salientar que não é científico e é racialmente discriminatório que as autoridades classifiquem os grupos de risco” para efetuarem um teste diário “por simples etnia, em vez de ser pelo seu contacto com grupos de alto risco ou pessoas que vivem com eles”, escreveram o deputado Ron Lam e a União Progressista dos Trabalhadores Domésticos, numa carta dirigida às autoridades sanitárias.
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As autoridades de saúde anunciaram na quinta-feira que todos os cidadãos filipinos, incluindo os residentes de Macau que possuem passaportes filipinos, foram designados como grupo de risco forçado a submeter-se diariamente a testes de ácido nucleico a partir de hoje.
Na carta, Ron Lam exigiu que as autoridades revertam a classificação por etnia dos grupos de risco para realização de testes diários.
O deputado afirmou que a decisão não só viola o princípio da prevenção e controlo, mas que se trata “simplesmente de uma restrição tão simples e brutal relativa à etnicidade que pode também violar a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que se aplica a Macau”.
A presidente da União Progressista dos Trabalhadores Domésticos também considerou a nova medida de racista e questionou a sua lógica.
“É racismo e discriminação (…) Se o Governo é sério, porquê apenas [ter como alvo] os passaportes filipinos? Será que isto significa apenas que espalhamos o vírus? Porque é que o vírus só se propaga através do titular do passaporte”, perguntou Jassy Santos.
Contudo, no próprio dia em que foi anunciada a decisão, o Consulado Geral Filipino em Macau apelou aos filipinos para que cooperassem face à determinação das autoridades de Macau e que evitassem fazer desta situação um caso político.
“Evitemos fazer desta ordem uma questão política. Devemos ver isto como uma questão de saúde nos objetivos gerais dos responsáveis para alcançar o objetivo dinâmico de ‘zero covid’”, pode ler-se numa nota do consulado assinada pelo responsável da missão diplomática, lembrando que, no passado, Macau já tinha feito o mesmo durante a pandemia a cidadãos do Vietname e do Nepal.
Esta sexta-feira, em conferência de imprensa, as autoridades também lembraram esse facto e negaram qualquer discriminação e voltaram a sublinhar que a decisão se justifica pela proporção de infetados de nacionalidade filipina no total de casos no atual surto e nos últimos dias.
Já na quinta-feira, as autoridades tinham explicado que, dos mais de 1700 infetados, 171 são filipinos, e que a definição deste grupo-alvo tinha em conta razões culturais, que se traduzem na realização de encontros e atividades regulares entre estes nacionais, apesar de Macau se encontrar em confinamento parcial há 11 dias, tendo detetado apenas 82 casos comunitários desde então.
Hoje, na conferência de imprensa, indicaram que, nos últimos dias, um em cada quatro casos são detetados entre cidadãos filipinos, que são cerca de 30 mil no território.
Pela primeira vez desde meados de junho, Macau anunciou esta sexta-feira que não foram detetados quaisquer casos na comunidade local.
Outros seis grupos classificados de risco estão obrigados a testes diários, como é o caso das empregadas domésticas, normalmente de origem filipina, indonésia ou vietnamita.
Macau foi atingido no mês passado pelo pior surto enfrentado desde o início da pandemia, que infetou mais de 1700 pessoas e provocou seis mortes, e que levou as autoridades a impor um confinamento parcial no território, que termina no sábado, seguindo-se um período de consolidação, ainda com restrições à mobilidade e encerramento forçado de serviços e de muitos estabelecimentos comerciais.
Macau continua a exigir uma quarentena a quem entra no território e várias zonas da cidade estão isoladas. Milhares de pessoas estão ainda a cumprir quarentena em hotéis designados pelo Governo.
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