Por que o assassinato de Moïse envolve racismo e xenofobia – UOL Notícias

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô
Colunista do UOL
04/02/2022 04h00
O brutal assassinato do imigrante congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, 24, em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, demonstra como o racismo, associado à xenofobia, gera práticas de violência inadmissíveis para um país que se quer civilizado.
O ódio contra imigrantes, problema enfrentado pelas nações em um mundo de deslocamentos constantes, no Brasil, conta com a conivência de uma sociedade acostumada à violência contra pessoas negras.

Além de exigir justiça e efetiva punição aos agressores é necessário encarar as dimensões da tragédia reveladas por esse assassinato: racismo, xenofobia e relações de trabalho regidas pela lógica da escravização.
Não se trata de um caso isolado. É preciso compreender como o Brasil tem possibilitado que crimes como esse, motivados pelo ódio contra negros, aconteçam constantemente.
O país que mais recebeu africanos sequestrados e escravizados pelo sistema colonial continua tratando os nascidos na África e seus descendentes, mesmo brasileiros, com desumanização.
A cantora Elza Soares, que faleceu em 20 de janeiro, aos 91 anos, fez de sua vida e sua arte um símbolo de resistência diante de tantas dores e negações.
A “Mulher do Fim do Mundo” cantou a liberdade, a rebeldia e a coragem de não aceitar as violências oferecidas pelo país a brasileiras nascidas como ela: mulher, preta, pobre e não submissa.
Nos últimos anos, de forma esperançosa, Elza alterou a letra de A Carne, canção composta por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti que, em 2002, foi responsável por mais um dos inúmeros renascimentos artísticos que ela experimentou ao longo da carreira.
A carne mais barata do mercado foi a carne negra (Agora não é mais).”
Quem dera que pudéssemos cantar no passado os dramas perpetuados cotidianamente pelo racismo. O espancamento até a morte de Moïse expressa como o ódio antinegros ainda opera ímpetos de crueldade contra os corpos pretos.
As imagens de três homens espancando o jovem amarrado até a morte remetem às cenas de tortura e castigos físicos realizados em praça pública no período colonial. Mas também repetem o comportamento diário dos agentes da segurança pública nas operações policiais em comunidades pretas e pobres.
O país que não reconhece o direito à cidadania dos brasileiros de pele escura faz a mesma diferenciação de tratamentos e direitos aos estrangeiros negros, independentemente das condições e motivações do deslocamento ao Brasil.
Levantamento do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), publicado pela Folha de S.Paulo, revela a disparidade entre imigrantes de países africanos e os de origem em países do norte global, como Estados Unidos, em relação à remuneração no mercado de trabalho formal do Brasil. Congoleses como Moïse estão entre os imigrantes mais mal remunerados no Brasil.

Em se tratando de relações informais de trabalho, com todas as precarizações e violações de direitos trabalhistas, a lógica colonial e racista prevalece.
Moïse fora dispensado do quiosque onde foi assassinado cinco dias antes do crime —ele trabalhava no local informalmente, sendo remunerado por comissões de vendas ou diárias de trabalho.
A força de trabalho é desvalorizada ao extremo com tratamentos análogos à escravidão. A exigência por seus direitos pode representar a sentença de morte do trabalhador. A família do congolês diz acreditar que ele fora ao quiosque Tropicália naquele 24 de janeiro cobrar R$ 200 relativos a diárias de trabalho devidas.

Moïse e seus familiares diziam crer que o Brasil seria um local de acolhimento, que possibilitaria condições de vida e de trabalho melhores do que as oferecidas no Congo, marcado por disputas políticas que tiveram origem na violenta colonização imposta pela Bélgica até 1960, quando o país conquistou a independência.
Acontece que o Brasil ainda é regido pela mesma mentalidade racista que motivou a invasão e colonização dos países africanos, o sequestro de seres humanos para o trabalho escravo e a violência como regra de convivência.
O racismo no Brasil é sequela desse passado que ensinou ao mundo a valorizar as práticas do colonizador e repudiar as heranças de resistência dos colonizados. Moïse viajou em busca de liberdade e dignidade, mas encontrou no litoral do Brasil a fúria que o colonizador plantou nestas terras.
O mercado de trabalho se transformou, a feira de mão de obra se aperfeiçoou com o capitalismo, mas a carne mais barata continua sendo a carne negra. Até quando?


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Por favor, tente novamente mais tarde.

Não é possivel enviar novos comentários.
Apenas assinantes podem ler e comentar
Ainda não é assinante? .
Se você já é assinante do UOL, .
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia os termos de uso

André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana
André Santana

source

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.