Deepfakes: uma ameaça também para as organizações – Diário de Notícias Madeira

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Imagine que recebia por WhatsApp um vídeo com uma alta figura da Região ou do Estado a alertar para uma situação de emergência que comprometesse a sua vida e a de todos os cidadãos. O vídeo parecia real, a voz e os gestos eram iguais à da personalidade em questão e, inclusive, as roupas eram semelhantes às já utilizadas anteriormente… Se nunca tivesse ouvido falar em deepfakes e não soubesse que hoje em dia é possível alterar vídeos ao ponto de estes parecerem (quase) verdadeiros, poderia mesmo acreditar no que via sem pestanejar. Contudo, atendendo à evolução da tecnologia, já não basta “ver para crer”.
Isto aconteceu recentemente quando, em pleno confronto entre a Rússia e a Ucrânia, circulou por todo o Mundo um deepfake do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a incitar os seus soldados a depor armas. O vídeo tornou-se imediatamente viral.
Os deepfakes são vídeos manipulados que conseguem enganar na medida em que apresentam pessoas a exprimirem palavras que nunca proferiram e a fazerem coisas que nunca fizeram. Surpreendente? Sem dúvida, mas não tanto como a forma como a tecnologia associada a esta nova forma de fake news evolui. É que por mais que os especialistas se esforcem, da mesma maneira que se desenvolvem técnicas para detetar deepfakes, surgem novos vídeos que não são detetados por essas técnicas. E assim sucessivamente.
Os deepfakes foram usados inicialmente para criar vídeos falsos de cariz pornográfico, mas depois começaram a ser utilizados em campanhas políticas difamatórias e em publicidades. Foram ganhando contornos distintos e cada vez mais criativos, sendo que têm surgido em diferentes contextos e de diversas formas. Usa-se igualmente o termo cheap fakes, também deepfakes, mas mais facilmente detetáveis por serem feitos com software acessível que não requer grandes conhecimentos tecnológicos ou de edição de vídeo.
Alguns deepfakes são feitos com intuito meramente lúdico ou cómico, mas outros geram preocupação porque se traduzem num desafio para o combate à desinformação. É que os deepfakes estão a ganhar contornos cada vez mais perigosos, podendo ser uma ameaça para as instituições, as empresas e as marcas.
É que, obviamente, a reputação corporativa pode ser facilmente afetada se um deepfake põe em risco, por exemplo, a qualidade de um produto ou serviço. E não é novidade que as fake news se difundem rapidamente, geram buzz e se podem disseminar de uma forma descontrolada, tornando-se muitas vezes virais em questão de segundos ou minutos. E por vezes pode ser impossível ou muito difícil desmentir a própria mentira.
Mas os deepfakes podem ser um perigo a outros níveis, como financeiro, por exemplo. Em março de 2019, o diretor executivo de uma empresa de energia britânica foi alvo de burla e, ao acreditar que tinha acabado de falar com o seu chefe, transferiu 240 mil dólares para uma conta na Hungria.
Os deepfakes representam também uma preocupação em termos de segurança cibernética, inclusive para altas autoridades policiais. O FBI tem deixado alertas para os perigos que podem constituir porque podem ser utilizados em operações de cibercrime, com roubo de identidade, nomeadamente para tentativas de candidaturas a vagas para trabalho remoto.
Também a Europol se mostra preocupada com o recurso à Inteligência Artificial, que pode aumentar a desconfiança nas instituições, intensificar as divisões sociais, fomentar a insegurança e difundir a discriminação e a xenofobia.
Atentos aos riscos, em vários países, começou-se de imediato a levantar problemas legais sobre a utilização de deepfakes. Nos Estados Unidos, vários Estados já aprovaram leis para os regular e outros preparam-se para o fazer. Na Europa, a utilização desta nova tecnologia não está explicitamente legislada, pelo que em Portugal não há legislação específica, embora a Lei n.º 27/2021 faça referência aos vídeos manipulados.

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