A excomunhão do Papa – AbrilAbril

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José Goulão
A figura principal da Igreja Católica, entidade associada a cruzadas e outras atrocidades cometidas ao longo de séculos, opõe-se às chacinas actuais, considerando que a vida de um ucraniano vale tanto como a de um sírio, um líbio, um iraquiano.
O Papa Francisco escreveu um pequeno livro intitulado Contra a Guerra – A Coragem de Fazer a Paz. Desconheço se o tão provocador ensaio já caiu no índex dos «intelectuais» do regime ou mesmo se foi adicionado aos 100 milhões de livros que o bom democrata Zelensky deu ordens para destruir em Junho passado, reeditando as práticas hitlerianas. Pelo menos a sua edição em russo será certamente para queimar.
O título da obra papal é um desafio à «ordem internacional baseada em regras» que nos governa sem apelo nem agravo. O conteúdo tem passagens nada menos que heréticas. Francisco testemunha que a Terceira Guerra Mundial está em curso na forma de «peças soltas», que são as guerras simultaneamente existentes no Iraque, na Líbia, na Síria, no Iémen, na Ucrânia, na Somália – no Afeganistão também, porque a fuga da NATO não significou o fim do conflito. O Vaticano, através do seu dirigente máximo, não aceita que haja guerras boas e más ou pesos e medidas diferentes para avaliar os conflitos armados.
O chefe da Igreja Católica transformou-se assim num marginal, um desalinhado da opinião única a que devemos respeito absoluto sob pena de sermos cúmplices das malfeitorias de Putin e, desde a recente cimeira da NATO, das insidiosas tramas chinesas.
«O que leva o Papa a defender como único remédio para estes flagelos a busca incessante da paz através de negociações, da diplomacia e do silenciamento das armas. O que parece humanista, lúcido, lógico e de bom senso.»

Como sabemos, e disso somos recordados frequentemente pelo zelo dos poligrafistas de todos os tipos, desde políticos a jornalistas com alma de censores, não é possível confundir a guerra na Ucrânia, criada a dois tempos pela NATO e a Rússia, com as outras lançadas pela Aliança Atlântica. Devemos todos acatar a ordem segundo a qual não é admissível qualquer comparação entre uma guerra inusitadamente decorrer na Europa, ao nosso lado e vitimando pessoas «como nós»; e outras guerras legitimadas por razões humanitárias e, sobretudo, civilizacionais, expressões de uma superioridade ainda e sempre de índole missionária para expansão da matriz «cristã». Não há que confundi-las, não é permitido assimilá-las. Nem ao Papa é possível tal atrevimento.
Por essa via vamos encontrar paradoxalmente a figura principal da Igreja Católica, entidade associada a cruzadas e outras atrocidades cometidas ao longo de séculos, do lado da oposição às chacinas actuais ao considerar que a vida de um ucraniano vale tanto como a de um sírio, um líbio, um iraquiano; e que um agressor é sempre um agressor seja qual for o seu «grau» de civilização. O que leva o Papa a defender como único remédio para estes flagelos a busca incessante da paz através de negociações, da diplomacia e do silenciamento das armas. O que parece humanista, lúcido, lógico e de bom senso.
Nada disso, argumentam as vozes que de Oeste a Leste do Ocidente comandam a formatura dos exércitos doutrinados, os desfiles das opiniões milimetricamente alinhadas pretendendo impor universalmente, na ponta dos mísseis pacificadores, uma democracia degenerada para conter no bojo um autoritarismo onde só a aparência e a embalagem são benignas.
Atentemos no comportamento do socialista e sinistro Borrell, chefe da «política externa» da União Europeia, que emana directamente do Departamento de Estado em Washington, ao garantir que a guerra na Ucrânia «só pode ter solução militar». Poder-se-ia chamar-lhe «anti-Papa», mas é melhor não o fazer porque nos tempos que correm iria soar a elogio.
«Para o “ministro dos Negócios Estrangeiros” da União Europeia a soberania das nações tornou-se um crime que lesa a NATO e a própria União Europeia.»

O mesmo alter ego do secretário de Estado Anthony Blinken voltou a evidenciar-se mais recentemente ao condenar dirigentes europeus que, segundo ele, estão mais preocupados em defender os «interesses nacionais», isto é, os dos cidadãos dos seus países, do que que em «atacar Putin». Para o «ministro dos Negócios Estrangeiros» da União Europeia a soberania das nações tornou-se um crime que lesa a NATO e a própria União Europeia. Já desconfiávamos, mas agora ficou confirmado preto no branco.
Quem não corre o risco de receber reprimendas do inquisidor Borrell é alguém mais próximo de nós, o primeiro-ministro e também socialista Costa, legítimo subproduto do clima de guerra que devasta todas as expressões sociais construtivas e criativas, contaminando com a agitprop do sangue, da morte e da violência toda a vida em sociedade.
Costa acha que a recente e alarmante cimeira da NATO foi um «acontecimento histórico». É «histórico», por conseguinte, dissolver Portugal numa organização que se reuniu essencialmente para definir os inimigos a combater, sem dúvida aplanando o caminho para a guerra cada vez mais integrada e generalizada. A NATO é «defensiva», sentenciam Costa e os demais confrades, acenando sob a batuta do diminuído chefe Biden. E todos devemos acreditar nesse desgastado mantra enquanto a própria NATO não esconde as intenções de funcionar como um exército expansionista global concentrando os mais apurados meios de guerra e de extermínio em redor da Rússia e na região da Ásia-Pacífico para «conter» – «cancelar» é como agora se diz – a China.
Nos idos de 1984 um ex-alto quadro da CIA, John Stockwell, escrevia que «a procura de inimigos é a história da CIA». Ora quem diz CIA diz NATO, são todos membros da imensa família mafiosa empenhada em que não haja alternativas à cultura de guerra.
Stockwell abandonou a CIA dizendo-se enojado com o que considerou ser o desvio da agência em relação aos seus alegados objectivos de segurança. «A CIA estava sempre à procura da próxima guerra, amoral, implacável, ansiosa por fazer o que queria», escreveu.
«Na óptica e na prática do governo português, para a guerra é sempre a somar centenas de milhões; enquanto isso, o Serviço Nacional de Saúde continua a ser paulatinamente desmantelado, os salários dos portugueses não sobem, os pensionistas são contemplados com um generoso «bónus» de 10 euros.»

Onde é que já vimos isto em forma de NATO? Confirmando o conteúdo do livro do dissidente Stockwell, o comboio da guerra prosseguiu viagem sem se deter, desde o sanguinário conflito Irão-Iraque, onde o «civilizado» (e a seguir «bárbaro») Saddam Hussein, utilizador de armas químicas, foi então extremosamente apoiado pelo Ocidente, até ao caso presente da Ucrânia. Passando pelos episódios atrás enumerados, sem esquecer o desmantelamento da Jugoslávia e a agressão da NATO contra a Sérvia, realizada à revelia da ONU e «justificada» por um massacre de civis comprovadamente encenado. Estratagema recorrente, utilizado pelo «mundo livre», principalmente na Líbia e na Síria e, como já se percebeu, também na Ucrânia.
Pois o primeiro-ministro Costa não só participa militantemente no culto de guerra por via de tratados nos quais o Portugal do salazarismo e depois do soarismo foi anexado pela NATO e a União Europeia sem que os portugueses tenham sido tidos e achados, como faz gala em pôr-se em bicos de pés perante as chefias. Depois do envio de materiais militares e tropas para a guerra da Ucrânia, diz-se que o chefe do governo da República Portuguesa manda 14 tanques com o mesmo destino. Gesto inútil no contexto do conflito, cometido para agradar aos senhores da guerra e revelando uma subserviência que só pode envergonhar ainda mais os portugueses. Quanto aos tanques, a viagem equivale a condená-los à sucata, o fim de grande parte dos armamentos remetidos pelos Estados Unidos e os países da União Europeia e da NATO para enfrentar o exército russo até ao último dos ucranianos.
Outra parte desses meios de guerra destinados ao regime nazi de Kiev, como tem vindo a perceber-se através da comunicação social corporativa, segue via mercado negro (florescente sobretudo na natíssima Albânia) com destino à imensa nebulosa de grupos terroristas transnacionais «radicais islâmicos», nazi-fascistas, milícias sectárias e bandos de mercenários de todos os tipos e origens. Nestas traficâncias, tais armas podem até regressar ao serviço da NATO, uma vez que muitos desses grupos acabam por ser utilizados pela aliança nas suas múltiplas guerras transnacionais por procuração.

Portugal, claro, não ficará com 14 tanques a menos. Costa irá provavelmente comprar os substitutos aos Estados Unidos, novinhos em folha, por mais alguns milhões de euros a somar às centenas de milhões necessárias para cumprir o recentemente prometido aumento dos donativos para a NATO e – até ver – aos 250 milhões ofertados a Zelensky, para quem os nazis com os quais governa são gente «fixe», assim como é lógico ter o bandido hitleriano Bandera como «herói nacional». Na óptica e na prática do governo português, para a guerra é sempre a somar centenas de milhões; enquanto isso, o Serviço Nacional de Saúde continua a ser paulatinamente desmantelado, os salários dos portugueses não sobem, os pensionistas são contemplados com um generoso «bónus» de 10 euros. Aliás um chorado esforço governamental que custa ao erário público menos umas dezenas de milhões de euros que a verba depositada na conta do ditador da Ucrânia Ocidental. Costa não incorre no crime condenado por Borrell, o do apego à independência do país: contra Putin tudo; e os portugueses podem continuar a esperar, a soberania nacional há muito que se esfumou ao sabor das trapaças dos chefes não-eleitos da União Europeia e da NATO.
A cultura de guerra profundamente entranhada no mundo ocidental, e que se manifesta cada vez mais como um poder coercivo caminhando para a repressão autoritária de direitos, corrói as liberdades de expressão e de opinião por via da inquisitorial perseguição intelectual e difamatória. Trata-se de uma exibição extrema da cultura colonialista e da suposta superioridade civilizacional do chamado «mundo livre». Hoje os mentores da «civilização ocidental» continuam a achar que podem tudo, que têm o direito de punir quem não obedece às suas «regras» feitas à medida, tal como durante séculos levaram o «bem» e a «luz» aos «povos primitivos» em troca do seu sangue e da rapina dos seus recursos. E a imagem de impunidade auto-cultivada por uma arrogância sem limites chega a provocar situações caricatas, cada vez mais anacrónicas, como a de se enfurecerem e vitimizarem quando os países e povos atingidos pelas suas sanções ilegais e arbitrárias decidem, finalmente, responder-lhes.
Nunca é demais, a propósito desta e outras situações, reler o filósofo e psiquiatra Frantz Fanon, originário da Martinica, resistente francês antifascista e depois herói argelino, autor, entre muitas obras, da Psicopatologia do Colonialismo.
As reflexões e investigações que deixou sobre as práticas e as aberrações coloniais continuam de uma actualidade gritante, apesar do seu desaparecimento prematuro, em 1961: «Quando procuro o Homem no desenvolvimento técnico e no estilo da Europa, encontro apenas uma sucessão de negações do homem e uma avalancha de assassínios».
«A guerra tornou-se banal, inerente à vida quotidiana; conviver com a imagem da morte em cada momento do dia-a-dia, até às refeições, tornou-se natural, como se não houvesse diferença entre o drama real, considerado indispensável para que o «bem» e a “ordem” prevaleçam, e a ficção da vitória sempre justa e certa desse mesmo “bem”.»

É, hoje como ontem, uma imagem crua da cultura de guerra instalada, da legitimidade da violência contra o «inimigo», tendendo o inimigo a ser cada vez mais aquele que simplesmente discorda da manutenção de uma ordem internacional injusta, cruel e mortífera para a esmagadora maioria da população mundial.
A guerra tornou-se banal, inerente à vida quotidiana; conviver com a imagem da morte em cada momento do dia-a-dia, até às refeições, tornou-se natural, como se não houvesse diferença entre o drama real, considerado indispensável para que o «bem» e a «ordem» prevaleçam, e a ficção da vitória sempre justa e certa desse mesmo «bem». Uma ficção replicada até à exaustão em formato de Hollywood, arma imprescindível e moralizadora da cultura de guerra, garantia de que os «bons» ganham sempre.
A guerra enraíza-se hoje desde tenra idade por efeito da enxurrada de produções de cinema e TV formatando as mentes dos jovens através da vulgarização da violência e da competição sem princípios – e também dos videojogos. Estes são mesmo encarados como peça básica e estratégica de entretenimento, de acordo com futurologistas do globalismo, isto é, da expansão da «civilização ocidental» a todo o planeta e sob um governo único.
O problema desta «evolução» em direcção ao futuro, na opinião do teorizador, escritor e «visionário» Yuval Noah Harari, é que nas próximas décadas, em que «nada teremos e seremos felizes», segundo o Great Reset (Grande Reinício do capitalismo) projectado pelo Fórum Económico Mundial (FEM, Davos), tenderá a emergir uma «classe inútil global», levantando a dúvida sobre «o que fazer com todas essas pessoas inúteis», afectadas por «tédio, sem o que fazer e sem encontrarem sentido na vida».
O mesmo Harari já pensou numa maneira de contornar a situação. «A minha previsão, no momento, é uma combinação de drogas e jogos de computador como solução».
Yuval Noah Harari não é um mero e anónimo sociopata, as suas opiniões têm receptividade entre os Gates, Bezos, Musks, Soros, Bransons deste mundo como um dos principais gurus do próprio Fórum Económico Mundial – entidade que reúne anualmente os gestores executivos do mundo e os expoentes do neoliberalismo global, seus patrões. Harari, historiador na Universidade Hebraica de Jerusalém, discursou nas sessões do FEM em 2018 e 2020, e nas suas teses antevê um futuro no qual «os organismos biológicos inteligentes serão superados pelas suas criações».
«A cultura de guerra preocupa-se, aliás, em desmontar e desacreditar tudo aquilo que se assemelhe a paz e possa resultar da diplomacia e de negociações entre partes em conflito.»

Nos cenários dominantes, reais e desumanizados uns, delirantes outros mas todos idolatrados pelos fazedores da opinião única, os defensores da paz, como o Papa Francisco – em contracorrente da própria «civilização» oficial que sustenta a rapina e a xenofobia invocando o cristianismo – são apresentados como lunáticos agarrados a utopias completamente desacreditadas.
A cultura de guerra preocupa-se, aliás, em desmontar e desacreditar tudo aquilo que se assemelhe a paz e possa resultar da diplomacia e de negociações entre partes em conflito. Todos ouvimos falar nos Acordos de Minsk, embora muitos não conheçam a sua letra por lhes ser sonegada pela comunicação doutrinária. O seu conteúdo, assinado em 2015 pelas partes ucranianas sob garantia da Rússia, da Alemanha e da França, inclui os elementos necessários para solucionar a questão dos antagonismos comunitários na Ucrânia. Uma vez aplicados, esses entendimentos evitariam a intervenção russa. Alemanha e França, porém, nada fizeram para que entrassem em vigor. Mais recentemente, o ex-presidente ucraniano Petro Porochenko, um dos signatários dos acordos, confessou que Kiev sempre os considerou uma «farsa» para não cumprir, apenas uma oportunidade de o regime ganhar tempo e preparar-se para a guerra.
Se a assinatura de tratados de paz se transformou assim em arma de guerra, é natural que os diplomatas sejam condenados ao desemprego, para gáudio dos fabricantes de armas, expansionistas, intelectuais do HIMARS e outras maravilhas da morte, militaristas e agentes de uma infinidade de tráficos associados.
É natural, portanto, que os inquisidores de opinião, agentes da cultura militarizada e missionários impiedosos da «civilização cristã e ocidental» olhem para os defensores da paz como alguém que se limita a encarar a guerra como um fenómeno «abstracto». Uma «abstracção», é certo, que continua a vitimar milhões e mais milhões de seres humanos concretos.
Assim vamos todos vivendo estes tempos em que o Papa foi excomungado.
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