Racismo, xenofobia e vulnerabilidades afetam saúde mental de mulheres imigrantes e refugiadas – Jornal da USP

Os fluxos migratórios têm aumentado consideravelmente no mundo inteiro e quem está nessas condições vive em estado de vulnerabilidade. Mas quando envolve mulheres, isso é potencializado por fatores como a desigualdade de gênero que, interligada a questões de raça, condições socioeconômicas e determinantes sociais de saúde, podem causar sofrimento. Uma pesquisa da USP analisou os efeitos desses processos migratórios na saúde mental de nove mulheres, (oito imigrantes e uma refugiada). Pelos depoimentos, foram identificadas inúmeras situações discriminatórias, racistas e xenofóbicas desferidas a elas e ou a alguém de suas famílias.  
O estudo constatou que elas vivenciavam diversas violações de direitos, além de estressores psicossociais. “A baixa condição socioeconômica das entrevistadas, que limita o acesso a elementos básicos de vida, como alimentação, moradia, serviços e recursos de saúde e saneamento, além da discriminação de gênero, do racismo, das dificuldades laborais e da falta de apoio social, são estressores psicossociais que podem impactar a saúde mental dessas mulheres”, explica a autora da pesquisa, a enfermeira Luana Carvalho de Oliveira. 

 
As entrevistadas eram da Bolívia, Venezuela, Haiti, Angola e República Democrática do Congo e buscavam atendimento em instituições não governamentais na cidade de São Paulo. Tinham entre 20 e 49 anos e moravam em bairros paulistanos como Mooca, Brás, Itaquera, Liberdade, Vila Buarque, Vila Industrial, Vila Matilde e Vila Maria Alta. 
“O brasileiro é seletivo quanto ao tratamento que dispensa aos estrangeiros no Brasil. Costuma ser cordial com o imigrante europeu, mas hostil com quem vem de países da África e da América Latina”, lamenta Luana. 
Os dados estão na dissertação de mestrado Os efeitos dos processos migratórios na saúde mental de mulheres imigrantes ou refugiadas a partir de uma análise interseccional, realizada sob orientação da professora Regina Célia Fiorati, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
“As pesquisas sobre refugiados (pessoas que precisam deixar seus países de origem devido a conflitos ou perseguições) e imigrantes (as que optam por mudar por questões de trabalho, educação e família) ignoravam o papel das mulheres nesses processos”, relata ao Jornal da USP a professora Regina Célia. 
“Ao contrário do que muitos estudos retrataram – mulheres coadjuvantes e dependentes dos homens para essas ações -, a pesquisa observou um papel de liderança e autonomia na maioria das participantes ao assumirem o processo de migração como uma decisão realizada por elas em busca de melhores condições de vida”, diz Luana.
O referencial teórico do trabalho foram os Determinantes Sociais da Saúde (DSS), um conceito da área de saúde pública que se refere a um conjunto de acontecimentos, fatos, situações e comportamentos (socioeconômicos, ambientais, raciais, de gênero, de política, governamental, cultural) que afetam positiva ou negativamente a saúde das pessoas.
Segundo Luana, “nem todas as mulheres demonstraram consciência dos abusos ou optaram por ignorar essas situações como modo de se adaptar a essa realidade, como foi o caso da angolana que disse ter sido destratada por uma médica em um hospital público por ser estrangeira”.  Ao relatar o episódio, a entrevistada disse que “não iria considerar isso”, justificando que preferia lembrar de situações em que foi acolhida por outras pessoas.
Quando foi perguntado se elas se sentiam estrangeiras morando no Brasil, embora a maioria tivesse respondido “não” (66%), muitas mencionaram situações contraditórias. “Eu posso morar aqui, mas sempre vou lembrar que sou de lá. Porque os mesmos brasileiros falam que a gente é boliviana, então a gente é estrangeiro aqui…”. Em outra ocasião, outra participante falou que ouviu desaforos de um vizinho quando estava se mudando de casa com sua família: “vá voltar para a sua terra, sua estrangeira”.
“O brasileiro é seletivo quanto ao tratamento que dispensa aos estrangeiros no Brasil. Costuma ser cordial com o imigrante europeu, mas hostil com quem vem de países da África e da América Latina”
Nas entrevistas, as mulheres falaram das rupturas que tiveram de fazer com amigos, familiares e a cultura do país de origem, da luta pelo pertencimento em um novo lugar, da dificuldade com o novo idioma e com a adaptação.
“… penso em mamãe e papai, se fosse a estar com eles, posso ter um apoio, mas não, lamentavelmente não, estou aqui. Então eu trato disso como posso aqui. Agora me acostumei, agora aceitei que estou sozinha, que minha família não está aqui, têm pessoas também que são minhas amigas, conhecidas, mais que tudo me apeguei a elas como uma família.”
“… porque antes eu tinha uma vida… eu trabalhava lá, né? Eu fazia assim uns… eu trabalhava por conta própria. Mas aí como meu filho ficou doente e eu vim pra aqui, eu parei. Eu parei de trabalhar… Mudou muito, mudou muito minha rotina.”
Elas também mencionaram a multiplicidade de papeis, os poucos momentos que tinham de distração, de descanso e lazer, e suas rotinas cansativas que envolviam trabalho em casa, a busca por empregos e cuidados com os filhos:
“…eu trabalho; quando eu não trabalho, fico com os meus filhos, dar alimentação, cuidado, às vezes também vou buscar outro escritório, às vezes vou buscar trabalho, mas não é fácil…”
Uma imigrante contou de seu sofrimento ao perceber que, depois que se mudou para o Brasil, o pai dos seus filhos não deu mais suporte para cuidar dos outros que permaneceram em Angola:
“… eu tenho seis filhos, e eu tava com dois aqui e tinha quatro lá em Angola. Aí o meu marido deixou de cuidar deles e eu tive que ir lá para pegar os outros meninos e juntar todos aqui…”

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Das mulheres que responderam à pesquisa, todas eram cisgêneros (pessoa que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu). Quatro eram solteiras, três casadas e duas, em união estável. Em relação à raça/cor, cinco se declararam pretas; três, pardas; e uma, indígena. Com relação ao país de origem, três participantes nasceram na Bolívia, três no Haiti,  uma em Angola, uma na República Democrática do Congo e uma na Venezuela. Sete responderam que já possuíam documentação brasileira e duas relataram que não. Cinco mulheres tinham o ensino médio e nenhuma havia concluído o ensino superior.
Das nove participantes, quatro declararam ter profissão de costureira; duas, ajudantes de cozinha; uma, cozinheira; uma, profissional de enfermagem; uma, artista; e uma, estudante. Três disseram estar desempregadas; três trabalhavam por conta própria; duas eram empregadas assalariadas, sem carteira de trabalho assinada; e uma tinha carteira assinada. Em relação à remuneração, três informaram que não recebiam salário (uma vivia de ajuda do governo e da igreja, outra apenas do governo e a terceira, do salário do esposo); duas recebiam até meio salário mínimo; uma relatou receber entre meio e um salário mínimo; e três delas responderam receber um a dois salários. Oito residiam em domicílio alugado e uma morava em residência cedida.
Das justificativas que as fizeram sair de seus países de origem, as mulheres mencionaram fatores econômicos, conflitos familiares, questões de saúde, acompanhar familiares e perseguição política, como relatou a única refugiada do grupo, que demonstrou ser a mais politizada e consciente de seus direitos: 
“Eu saí por causa da perseguição política. Eu tive que sair junto com a minha filha mais velha […] teve um conflito interno… Foi um monte de coisa, então cada um tentou se proteger, né? […]  … não, na perseguição ninguém fica de boa, quando é perseguição ninguém fica em casa assistindo televisão, tem que fugir. […] essa história, quando eu repito, me deixa emocionada, porque são coisas que mexem demais na minha emoção, por isso não gosto muito de falar […]”
Segundo a pesquisadora, embora a amostra tenha sido limitada por abranger apenas duas instituições e por ter sido feita durante a pandemia do coronavírus, o estudo contribui para compreensão de como as vulnerabilidades sociais, relacionada ao gênero, raça, condições socioeconômicas e de todos os outros determinantes sociais da saúde refletem e geram riscos de comprometimento da saúde mental de mulheres imigrantes e refugiadas na cidade de São Paulo, conclui.
Mais informações: Luana Carvalho de Oliveira, e-mail luanadeoliveira@alumini.usp.br, e Regina Célia Fiorati, e-mail reginacf@fmrp.usp.br

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