Eu é que sei como se combate o racismo! – Setenta e Quatro

Da mesma forma que as pessoas negras precisam de se libertar de séculos de subjugação e opressão – multiplicando vozes de afirmação positiva contra mentes colonizadas –, as pessoas brancas precisam de desapegar da ideia de superioridade civilizatória.
O assédio encontra-me de cada vez que saio do meu círculo de maior proximidade. Cheios e cheias de si, eles e elas começam por simular interesse em ouvir-me falar sobre os meus projectos, mas, na realidade, estão apenas à espera do momento certo para “vender” o seu profundo conhecimento e “acordar-me” para uma nova consciência. A sua, entenda-se.
Convidam-me, elas e eles, a repensar a minha luta anti-racista porque – explicam-me do alto da sua suprema sabedoria –, defender uma maior representatividade negra é defender uma forma diferente de excluir. O fantasma do “racismo reverso”, portanto.
Sugerem as mentes brilhantes que, em vez de criar histórias só com heróis negros – como faço com a Força Africana –, eu deveria era criar histórias com personagens de todas as pertenças.
As ‘lições’ dos “coachs de anti-racismo” têm em comum a mesma escola: a branquitude, entendida enquanto construção social que ‘corre solta’, independentemente de boas intenções.
Porque, da mesma forma que as pessoas negras precisam de se libertar de séculos de subjugação e opressão – multiplicando vozes de afirmação positiva contra mentes colonizadas –, as pessoas brancas precisam de desapegar da ideia de superioridade civilizatória que – ainda que inconscientemente – as leva a instruir pessoas negras (e todas as outras não brancas) sobre como pensar e agir.
Fazem-no tão automaticamente que ignoram o que não pode ser ignorado: o racismo, validado cientificamente por sistemas de classificação de seres humanos, foi criado pelos modos brancos de pensar e agir.
Reconhecer isso é assumir responsabilidade (não confundir com culpa), e perceber que, no tema racismo, o lugar das pessoas brancas é, antes de qualquer outra coisa, de escuta.
Escrito isto, um ano depois de assinar o meu primeiro texto nesta morada, renovo interpelações e, do meu lugar de fala, proponho a todas as pessoas brancas que por aqui passem o mesmo exercício de partida: como reagem quando perante relatos de discriminação racial? Desligam a escuta porque o assunto é desconfortável, e escudam-se num silêncio descomprometido? Do tipo: “É melhor não me meter, que ainda sobra para mim”.
Ou será que se apressam a sugerir explicações não racistas para o episódio? Do género: “Tens a certeza que foi racismo? Sabes que as pessoas brancas também têm dificuldades na vida…”.
Se calhar minimizam o impacto da experiência e aconselham comedimento, porque “sabemos bem”, “estar sempre a falar” sobre racismo agrava o problema, além de que “isso é dar demasiada importância a pessoas ignorantes”.
Talvez até concluam, do alto de quem se considera conhecedor de tudo, que a história está mal contada, levantando suspeitas sobre a credibilidade de quem denuncia. Afinal, alguma coisa a pessoa terá feito, e é preciso ouvir todos os lados.
Encontrei e encontro essas e outras expressões de resistência sempre que… “lá vem a história do racismo outra vez”.
Por isso, insisto na pergunta que considero estrutural: qual a vossa reacção, pessoas brancas, perante testemunhos de racismo?
Do meu lugar de fala para o vosso lugar de escuta (não, não estou a dizer que pessoas brancas não têm o direito de manifestar opinião sobre o assunto), questiono-me sobre que distâncias continuamos incapazes de encurtar.
Mas, mais do que levantar questões, procuro respostas, assumindo nessa busca o compromisso de construir pontes. E isso, caros “coachs de anti-racismo”, por vezes implica derrubar muros. Porque o combate ao racismo é um combate de vida e de morte. Não é um desfile de tendências que se veste de achismos.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.
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