Promoção como ‘cidade italiana’ é postura racista, diz pesquisadora – Jundiaí Agora

Simone Barboza de Carvalho defendeu, em março, a tese ‘Ou Você Resiste ou Desiste: Racismo e Trajetória de Professoras Negras em Jundiaí’. Atualmente morando em Maceió, Alagoas, a jundiaiense é graduada em Pedagogia pela USP, com mestrado em Educação pela Udesc(Santa Catarina) e doutorado pela PUC de São Paulo. Para ela, a promoção de Jundiaí como ‘cidade italiana’ é uma postura racista. A participação de negros e indígenas na historiografia oficial não é valorizada, afirma a pesquisadora. Sobre a tese, o Jundiaí Agora entrevistou Simone(foto):
Por que decidiu pesquisar o racismo e a trajetória de seis professoras negras da cidade?
Optei por esse tema porque me sentia inquieta sobre alguns acontecimentos do meu passado escolar como, por exemplo, o fato de ter tido pouquíssimas(os) professoras(es) negras(os) ao longo de minha formação escolar básica. Além disso, me incomodava a insistência da historiografia local em afirmar a cidade como “italiana”, ignorando o fato de que, na segunda metade do século XIX, metade da população era negra. E o fato de ocultar que a cidade abriga o Clube Recreativo Negro mais antigo do Estado, e o quarto mais antigo do país, com mais de 120 anos de existência.
Quando defendeu a tese?
Defendi no mês de março de 2022. Recebi, da banca, algumas considerações importantes. A  primeira é que a consciência a respeito do pertencimento racial não é uma unanimidade, o que ilustra o impacto do racismo e das políticas de branqueamento sobre a população negra. Também que a constatação sobre a existência do racismo se atrela ao reconhecimento de si como pessoa negra. Entraves relacionados a intersecção entre raça e classe às encaminhou para a escolha do magistério como profissão a ser seguida. Ou seja, se pudessem optar, teriam cursado outra carreira. O magistério representou, para as participantes da pesquisa, uma possibilidade de ascensão social, e de estabilidade empregatícia, já que todas elas são concursadas. Por fim, que as redes de apoio (família, amigos, professoras/es) foram fundamentais no que tange à formação educacional e mudança de patamar social das professoras entrevistadas. Os resultados da pesquisa estão sendo publicados em formato de artigo científico. Qualquer pessoa que desejar acessar a pesquisa completa, poderá fazê-lo por meio do repositório de teses e dissertações disponível no site da PUC-SP.
As suas entrevistadas ainda estão na ativa?
Apenas uma das professoras é aposentada há mais de 20 anos. O restante está na ativa. Suas identidades foram trocadas por pseudônimos que fazem referência a personalidades negras da luta antirracista.
Elas são da rede estadual, municipal ou trabalham em escolas particulares?
Atuam ou atuaram na rede municipal de Jundiaí.
A carreira de uma professora negra é mais difícil do que a de uma branca em Jundiaí?
Sem dúvida nenhuma. Isso fica evidente na fala das participantes da pesquisa, pois regularmente são colocadas em dúvida quanto sua capacidade profissional, sobretudo nos momentos em que atuaram em cargos de chefia.
Elas sofreram racismo?
Uma das entrevistadas sofreu racismo de forma direta, ao ser direcionada para o setor da limpeza quando se apresentou enquanto chefe de uma repartição pública. Mas, de maneira geral, são as insinuações que as alocam naquele espaço em que o racismo direciona as pessoas negras: de desqualificadas profissionalmente, ou de mulheres que têm como única capacidade o serviço braçal, operacional, de limpeza e cozinha. E, na fase da infância e adolescência, por piadas relacionadas ao cabelo e cor da pele.
Elas foram amparadas pelos superiores?
No caso citado de racismo direto, sim. E, conforme relata a professora, isso fez toda a diferença no sentido de ela continuar ali no cargo para o qual estava designada.
Algum caso foi parar na Polícia? Houve punição?
Não houve nenhum relato a respeito. Sabidamente sabemos que, embora exista uma lei específica de punição para atos racistas, não há real punição contra os agressores. Seja porque as delegacias têm enquadrado crimes de racismo como injúria racial, que prevê pena menor e possibilidade de pagamento de fiança. Seja porque não há andamento nas denúncias, geralmente com alegação de “falta de materialidade”.
Elas se orgulham do que conquistaram com a resistência?
Um dos resultados da pesquisa demonstra essa nuance de que, apesar do enfrentamento de opressões cotidianas, elas alcançaram seus objetivos, que as colocam num patamar profissional bem importante. Então sim, se sentem orgulhosas das conquistas que obtiveram.
O que você apurou em relação às infâncias das professoras, famílias, qualificação profissional e mercado de trabalho ?
A infância da maioria delas foi de bastante privação, como é comum a população negra em geral. Um dado importante é que as mães das entrevistadas tinham como traço comum o analfabetismo, o que acabou por conferir importância nessa busca de suas filhas por uma educação formal e qualificação profissional. Mercado de trabalho não foi um foco da pesquisa, mas pude apurar que, concernente às professoras deste estudo, o mercado de escolas privadas parece ser bem mais cruel e restritivo para com a entrada de professoras negras.
Se professoras sofreram racismo em Jundiaí é óbvio imaginar que o mesmo ocorra com outras profissionais?
Sem dúvida nenhuma temos um traço comum na trajetória profissional de mulheres negras no tocante ao racismo, que a credibilidade quanto a capacidade profissional regularmente questionada.
Dá para afirmar que Jundiaí é uma cidade racista? Ou o Brasil é um país racista, cujos governos querem vender a imagem de que todos são iguais?
O Brasil é um país racista e Jundiaí é uma cidade racista. O irônico é que o município promulgou lei de cotas própria para ingresso na Prefeitura, na carreira de professor(a), muito antes da maioria das cidades do país. No entanto, essa insistência da historiografia oficial em ignorar a consistente presença negra e indígena desde sua fundação enquanto vila, ao passo que se promove como “cidade italiana”, é uma postura racista. Ignorar os processos de resistência escrava, presença de quilombos e organizações negras, como o Clube Beneficente Cultural e Recreativo Jundiaiense 28 de Setembro, é racista. Por que tais temáticas não estão no currículo da cidade, sendo estudadas e aprofundadas nas escolas? Por que não há no calendário municipal uma grande festa de celebração negra, tal qual a Festa Italiana? Por que negros e indígenas são relegados a função de “contribuintes”, e não de componentes fundamentais da construção da cidade?
Como acabar com o racismo?
Como acadêmica e cidadã, credito o fim do racismo ao fim do capitalismo, pois um sistema de opressão está atrelado ao outro. Mas, enquanto esse momento não chega, podemos aderir a posturas de combate ao racismo. Acredito que a jurisprudência seja um caminho. Quanto mais tivermos ações na justiça favoráveis a punição de agressores, maior o impacto na diminuição de atos racistas. Creio também ser fundamental o papel da escola nesse sentido. Conhecer profundamente a história e cultura africana e afro-brasileira aproxima crianças e adolescentes da temática e amplia seu repertório sobre maneiras diversas de ser e estar no mundo, o que ensina respeito e acolhimento a diversidade. É fundamental o fortalecimento de políticas públicas de ação afirmativa, que visam promover acesso e permanência da população negra a universidade e concursos públicos, e também a saúde, moradia e qualificação profissional em geral.
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