O raríssimo momento em que o racismo foi enfraquecido no país – VEJA

“O que vemos atualmente é a ausência de pudor ético e moral em explicitar esse projeto. Essa postura tem uma série de consequências, sendo a mais nefasta o não reconhecimento do racismo como problema estrutural”. A crítica ao governo de Jair Bolsonaro (PL) é da doutora em história social pela USP Ynaê Lopes dos Santos, 40 anos, que acaba de lançar Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (ed. Todavia). Em conversa com VEJA, Ynaê aponta os raros momentos da história recente do país em que o racismo foi enfraquecido.
Ainda hoje acompanhamos o quanto é perversa a lógica da “democracia racial” no país. Como pesquisadores negros contribuem de forma substancial ao tema? O mito da democracia racial é um dos principais instrumentos de perpetuação desse nosso racismo à brasileira. A partir da construção de um pretenso passado pacífico e racialmente harmonioso, a exclusão racial segue se constituindo como espinha dorsal do país, que estrutura nossa experiência social à despeito de grandes transformações históricas, como a abolição da escravidão em 1888. O ponto central dessa ideologia está na aposta de que a mestiçagem brasileira seria contraprova da existência do racismo. Nesse sentido, o trabalho de pesquisadores e intelectuais negros é fundamental, são pioneiros, sublinham o caráter organizador do racismo brasileiro.
A senhora defende que o racismo no Brasil se faz presente desde que o país foi sendo construído ao longo dos séculos. Dá para apontar um momento “menos racista” em alguma fase da História? Ainda que nenhum governo brasileiro tenha tomado o racismo na sua dimensão estrutural, os governos de Lula e Dilma foram, sem dúvida, os momentos em que o poder central melhor dialogou com os movimentos sociais, sobretudo os movimentos negros, acolhendo reinvindicações históricas. Cito três exemplos: a criação da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) em março de 2003; a Lei 10639/03, que previa obrigatoriedade do ensino de História e Cultura da África e do Afro Brasil; e, em 2012, quando foi aprovada a lei de cotas nas instituições de ensino superior.
Em seu outro livro, História da África e do Brasil afrodescendente, há o resgate de histórias de sociedades do continente africano. Este segundo é desdobramento do primeiro? Sim, existe uma conversa entre os dois livros, na medida em que ambos representam movimentos que considero fundamentais na luta antirracista, como a necessidade de revisitar a história para reconhecer outros sujeitos sociais que foram silenciados. Isso significa conhecer mais e melhor os milhares de escravizados e seus descendentes, responsáveis pela construção de boa parte do que é Brasil. Mas também significa abandonar estereótipos sobre o continente africano e passar a compreendê-lo sob a pluralidade. O segundo livro tem a função de mergulhar na história da supremacia racial que, sob o manto da democracia racial, organiza o Brasil.
Como a luta antirracista foi enfraquecida no atual governo? Acredito que o racismo é um projeto de estado não-declarado de boa parte da história do Brasil, sobretudo da nossa experiência republicana. O que vemos atualmente é a ausência de pudor ético e moral em explicitar esse projeto. Essa postura tem uma série de consequências, sendo a mais nefasta o não reconhecimento do racismo como problema estrutural. Esse não-reconhecimento abre caminho para ampliação de atitudes racistas da sociedade civil, que se mantém travestidas de “normalidade”.
A senhora diz que “a história do racismo no país é a própria história do Brasil”. O que nossa mais recente história diz sobre o racismo? Diz que o racismo é uma escolha constante das elites que governam o país. Mesmo que tenhamos dito alguns ganhos no início dos anos 2000, estamos longe de uma mudança estrutural efetiva no combate ao racismo, haja vista a facilidade com a qual muitas das conquistas feitas foram desmontadas nos últimos anos. Outro aspecto é que o racismo não é um problema do negro brasileiro (ou dos indígenas). O racismo é um sistema de poder no qual negros e indígenas são sistematicamente discriminados e marginalizados, para que a população branca possa usufruir dos privilégios dessa estrutura.
O racismo contra negros é mais debatido do que contra indígenas. Em que esses problemas convergem e divergem? O racismo é um sistema de poder que define quem irá usufruir dos privilégios e quem irá arcar com o ônus do sistema a partir da pertença racial dos indivíduos. Nesse sentido, todos os não-brancos estão no mesmo barco, na medida em que sua própria humanidade é colocada à prova dentro deste sistema de poder. No entanto, o racismo é também um produto histórico, o que significa dizer que ele não é o mesmo no tempo, nem no espaço. Ainda que o racismo sempre esteja operante, ele não atua da mesma forma para negros e indígenas. Essa diversificação de atuação do racismo é também uma maneira de fragmentar possíveis alianças e lutas dentre essa imensa parcela da população brasileira que não experimenta a cidadania de forma plena.
Como avalia a velhice da população negra? Envelhecimentos tão díspares entre brancos e negros é mais uma demonstração do racismo estrutural? Assim como a infância de negros e brancos é experimentada de forma distinta e desigual, o envelhecimento também segue essa norma ditada pelo racismo. Em primeiro lugar, é importante pontuar que a violência contra a população negra mata, ou seja: muitos negros e negras não conseguem chegar à maior idade e envelhecer com dignidade. A combinação do racismo com a desigualdade socioeconômica, faz com que a velhice da população negra seja mais pobre, com menor acesso à qualidade de vida (alimentação balanceada, atividades físicas etc). Essa condição de pobreza faz com que idosos negros tenham que trabalhar na velhice (condição que não apenas da população negra). Mesmo vivendo mais, a população negra vive em piores condições se comparada à população branca.
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