Relatos reais de racismo se tornam livro: 'Senti na pele' – AnaMaria

A comunidade que deu visibilidade às vítimas de racismo atualmente virou audiolivro e traz relatos comoventes
Raquel Borges Publicado em 09/07/2022, às 14h30
Foi ouvindo histórias reais de negros que vivenciaram o preconceito que o jornalista e antropólogo Ernesto Xavier, 37 anos, criou o projeto Senti na Pele: Relatos. A ideia era que as pessoas pudessem denunciar o racismo sofrido por elas. 
O neto da saudosa atriz Chica Xavier e do ator Clementino Kelé escutou dolorosas denúncias que viraram um livro, distribuído pela Editora Malê. Neste ano, a obra homônima virou audiolivro, produzido em parceria com a Tocalivros e dublado pelos atores Leo Raoni e Thaís Cabral. 
Quando criou a página no Facebook, em 2015, Ernesto não imaginou em que lugar chegaria: “Queria que mais pessoas tivessem contato com essas histórias e entendessem como o racismo atinge os negros brasileiros. Queria que elas se sentissem à vontade para falar sobre nossas dores, e que um pudesse ajudar o outro. Transformar aqueles depoimentos em um livro foi especial, porque podia fazer chegar a mais gente nossas histórias. Em audiolivro ainda mais…”, revela.
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Para o jornalista, ainda falta bastante para mudar a sociedade com relação ao racismo: “Pelo menos durante quatro séculos foi tirado de nós o direito de falar, de sermos ouvidos. É uma questão tão profunda que está na base da sociedade brasileira e, para mudar, é necessário um debate contínuo, profundo, franco. É importante ainda que os outros lados estejam dispostos a ouvir, a aceitar o que temos para falar, pedir, exigir, especialmente para as pessoas mais marginalizadas – as que estão nas periferias em situação de vulnerabilidade. Isso vai levar tempo, mas a gente não vai recuar”, reflete o antropólogo.
A atriz Thais Cabral também foi tocada pelos textos: “ Infelizmente, não há uma só pessoa negra nesse país que não tenha passado por alguma situação de racismo, por isso a gente se identifica tanto. Lembro de um relato de uma psicóloga que chegou num evento em que seria a palestrante. A atendente não deu a devida atenção a ela e não anunciou sua chegada. As pessoas não a viam como pertencente daquele local.”
Thais continua: “Esse olhar de ‘aqui não é o seu lugar’ já sofri diversas vezes também. Lembro-me de um Carnaval que passei em Salvador. Tinha um par de convites em meu nome para um camarote. Fui com uma amiga branca e loira. Ao chegar na entrada, nenhum funcionário sequer olhou pra mim para me atender. Todos foram falar com minha amiga”, desabafa. 
De acordo com Thais, essa reflexão tem que começar a partir da valorização da cultura negra para as novas gerações. “A juventude e a criançada têm que ter acesso à cultura e à real história negra. Elas precisam conhecer e saber o valor que a cultura negra tem. Esse acesso deve ser permitido para crianças negras e não negras também. Acredito que assim podemos começar um bom debate”.
Ouvir as histórias foi muito difícil para Ernesto, pois o fez relembrar de questões particulares. Mas ele aprendeu a ter um olhar de fora para dentro. “Precisava tratar aquilo de maneira com que pudesse decodificar para outras pessoas. Não podia fazer isso de uma forma totalmente emocional”. 
O autor ficou bastante chocado com alguns relatos, porém sentiu-se acolhido. “Haviam outras pessoas que entendiam o que eu passava, e também se sentiam bem com o meu acolhimento ali. Era uma troca, isso foi praticamente um despertar da minha negritude. Com o projeto, podia falar sem achar que seria julgado. As pessoas entenderam o que eu estava dizendo”, conta. 
A importância de projetos como esse é jogar uma luz sobre o racismo. “Trazer essas histórias que estavam escondidas nas memórias das pessoas e inserir as novas gerações nesse debate é muito importante, por isso comecei pela internet, que é um espaço em que os jovens estão”, finaliza.
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