Relembrar Alcindo Monteiro e as vítimas do Racismo em Portugal – Diário de Notícias

Alcindo Monteiro foi barbaramente assassinado no dia 10 de Junho de 1995, quando um grupo de supremacistas brancos vindo de um jantar comemorativo do dia da Raça (branca) se cruzou com ele e o agrediu mortalmente. O corpo ainda com vida de Alcindo Monteiro foi encontrado abandonado no chão da Rua Garrett. Uma longa e dolorosa agonia. Na mesma noite, essa horda de supremacistas brancos agrediu gravemente mais nove outras pessoas que acabaram hospitalizadas. Toda esta horrível orgia de agressões racistas se passou sem que a Polícia interviesse. O famigerado Mário Machado foi um dos condenados por estes atos de selvajaria.
Um filme do jovem talentoso realizador Miguel Dores, que está a ter um acolhimento muito favorável, tem vindo a contribuir para reavivar a memória de Alcindo Monteiro, jovem português de 28 anos, morto sem qualquer motivo que não o injustificável ódio racial. Sem suficientes apoios oficiais o filme foi financiado por uma campanha de crowdfunding organizada pelo SOS Racismo e pelo seu Presidente Mamadou Bá. Depois de estrear a pelicula tem ganho vários prémios nacionais, incluindo o prestigioso prémio do público do Doc Lisboa. Acima de tudo o filme convoca-nos para recordar as vítimas do Racismo em Portugal e para a importância da luta antirracista. Um país historicamente de grande diversidade em que nenhum grupo se deve sentir dono do país.
Recentemente um jogador profissional português foi preso no Brasil por proferir insultos raciais. Em sua defesa alegou, com grande candura e verdade, que em Portugal esses insultos são normais e que não sabia que no Brasil seriam punidos. Além disso jurou não ser racista. Outro jogador português, esse de primeiro plano, Bernardo Silva, foi condenado no Reino Unidos igualmente por racismo. A sua defesa foi semelhante. Também jurou não ser racista. Obviamente não convenceu ninguém e foi condenado a multa, a trabalho comunitário e a curso de reabilitação. Em Portugal foi amplamente defendido pelos fazedores da opinião pública.
Estes exemplos mostram como o Racismo está espalhado entre a população branca e vai a par com uma negação que raia o ridículo. Estudos científicos de alcance plurinacional levados a cabo na União Europeia mostram a singularidade do nosso país na extensão das crenças racistas da supremacia da raça branca. Estas crenças não nascem com as pessoas, são aprendidas na Escola e em sociedade. Elas emergem dos sistemas sociais, dos modos de produção.
Estas crenças beneficiam uns e prejudicam outros. Entre os que beneficiam o grau e a extensão do seu benefício pode ser muito diverso. No seu grau mais baixo encontramos o branco menos qualificado que se apodera de um lugar de outro português mais qualificado, mas não branco, porque o patrão não dá oportunidades a Ciganos. No seu grau mais alto vemos um grande agricultor que paga salários muito baixos a migrantes não-brancos e ainda se apodera de parte desse salário sob o pretexto de facultar alojamento ou refeições. Do outro lado da moeda estão as vítimas que são muito prejudicadas mesmo quando o benefício branco é relativamente pequeno. Os membros da etnia Cigana, afastados do mercado formal de trabalho, sofrem e veem a fome e a miséria instalar-se nas famílias e comunidades, levando a mortes precoces. A esperança de vida de uma pessoa da comunidade Cigana é muito inferior à da média da população portuguesa.
Para que o nosso país possa progredir de forma harmoniosa é preciso acabar com este estado de coisas.
Por isso na manhã (11h) do próximo dia 10 de Junho na Rua Garrett, nº19 (ao Chiado), vou-me juntar a todos os que queiram recordar Alcindo Monteiro, Bruno Candé, Luís Giovani e as incontáveis vítimas do Racismo em Portugal e reafirmar a convicção de que o Racismo é uma forma de relação de poder e de exploração desumana que deve ser erradicada do nosso país. Um evento convocado por muitas organizações entre as quais o Consciência Negra e a Frente Antirracista.
É preciso que sejamos cada vez mais nesta missão.

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