O papel estratégico da Mostra de Cinema Israelense – Revista Fórum

Viajar sem sair do lugar, como é possível? Uma das respostas mais prováveis para essa pergunta é o universo do audiovisual, já que suas produções possibilitam que pessoas que nunca viajaram conheçam as realidades de outras regiões e países. Mesmo que uma produção de novela ou filme produza estereótipos socialmente construídos naquela realidade específica, ainda assim nós conseguimos encontrar indícios do que é de fato aquele ambiente. Portanto, consumir audiovisual não é simplesmente aceitar a realidade posta na tela, mas sim olhar com uma visão crítica para o que está sendo apresentado.
No caso da sétima arte, a democratização do acesso à população brasileira é muito recente. O cinema brasileiro, que atua com a arte, cultura, conhecimento e informação para a sociedade, após a pandemia da Covid-19, contabilizou 3.200 salas de cinema por todo o país, sendo uma a cada três salas no estado de São Paulo, de acordo com os dados da Folhapress.
Segundo o relatório anual da ANCINE, constam que das vinte maiores bilheterias espalhadas pelo mundo, três ficam localizadas em território nacional. Embora a presença dos telespectadores tenha aumentado nas cidades brasileiras, com o decorrer dos anos o número de salas de cinema distribuídas pelo Brasil ainda é baixo, estando presente somente em 10% dos municípios.
O cinema é uma forma dos artistas expressarem seus pensamentos e realidades, é uma forma de crítica social que faz com que as pessoas reflitam sobre suas atitudes e sobre o que acontece ao seu redor. Ele é uma forma transformadora que leva um pouco do cotidiano de outras regiões, religiões e culturas. Ele aproxima as pessoas de um jeito que quase ninguém consegue e leva a identificação cultural e as convergências sociais para as telonas, já que a arte é o reflexo da sociedade. O acesso a esses espaços é o diferencial. No Brasil é obrigatório passar para os alunos pelo menos duas horas de conteúdo do cinema nacional. É pouco, mas já abre caminhos para aqueles que não têm acesso a grandes telas do audiovisual.
Brasil e Israel, uma construção através do cinema
No que diz respeito à realidade da população brasileira, as viagens internacionais ainda são limitadas. De tal maneira, o que se sabe de outros países é o que se vê através das produções audiovisuais e dos noticiários. Segundo dados do IBGE, no Brasil, no período de 2019, aproximadamente 96,1% (20,6 milhões) das viagens analisadas foram feitas em território nacional, e apenas 3,9% (828,7 mil) foram para fora do país.
Há na sociedade brasileira o aumento da identificação com o Estado de Israel por alguns motivos, entre eles o religioso. Dentro da nossa sociedade, 42,2 milhões de pessoas são evangélicas, correspondendo a 22,2% dos brasileiros segundo o Censo 2010, IBGE. 
Para essa população, o chamado Velho Testamento, que corresponde aos livros, Gênesis, Êxodo, Levítico, entre outros, têm grande valor. Assim, a terra de Israel é considerada um território histórico e santo. Outro motivo que conecta Brasil e Israel são as relações em torno da pauta do Agro, artigo recentemente publicado na Revista Fórum de autoria de Ana Beatriz Prudente Alckmin trata desse assunto
A sociedade em geral tem uma grande curiosidade em conhecer a cultura e beleza deste país. Portanto, quando o circuito turístico Brasil e Israel ficar mais fortalecido, haverá um grande ganho para agências de turismo e economia criativa israelense. Porém, o turismo para esse destino ainda não está favorecido, pelo simples fato de que a informação passada para a população pelos noticiários transmite uma tensão política de Israel com os seus vizinhos.
No Brasil, há uma desinformação sobre como enxergar as relações sociais e a composição étnica do país. Dessa forma, a chegada dos filmes israelenses no Brasil terá o papel de começar a apresentar a cultura, estilo de vida e formatos israelenses.
Mostra de Cinema Israelense
Chega nesta sexta-feira (24) a primeira Mostra de Cinema Israelense, uma realização do Instituto Brasil-Israel e do SESC São Paulo, com o apoio da Embaixada de Israel no Brasil e do Consulado Geral de Israel em São Paulo.
Esse projeto tem como finalidade passar o magnetismo de Israel pelas telas do cinema e assim conectar os telespectadores com suas paisagens, dilemas, povos e cultura.
A abertura foi ontem (23  e contou com Amos Gitai, o mais renomado cineasta do país, para uma conversa em transmissão ao vivo no canal do Instituto Brasil-Israel no YouTube.
A Mostra oferece seis títulos, entre longas e curta-metragem, que refletem uma sociedade multicultural e diversa. Segundo David Diesendruck, presidente do Instituto Brasil-Israel (IBI), os filmes propõem trazer “visibilidade às contradições, camadas e dilemas de um país permeado por conflitos, e estimular o público a imaginar mundos alternativos”. São eles:
— “Laila em Haifa” (2020), que traz as histórias entrelaçadas de cinco mulheres em uma casa noturna frequentada por israelenses e palestinos na cidade portuária de Haifa.
— “Sublocação” (2020), onde um escritor de viagens do New York Times chega a Tel Aviv e tem sua vida de volta ao se relacionar com um jovem israelense.
— “Olho Branco” (2019), uma ficção sobre um homem que, ao tentar recuperar uma bicicleta, sofre racismo, abuso policial e xenofobia. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2021. 
— “Miami” (2019) um musical que conta a história de uma jovem que após se casar com o vizinho, logo depois ele é ferido na guerra e fica em estado vegetativo.
— “O Dia Seguinte Em Que Me Fui” (2019), traz questões familiares e autoconhecimento durante a trajetória de um veterinário de Tel Aviv que embarca numa viagem com a filha adolescente em busca da mãe dela.
— E por fim, “Baba Joon” (2015) que retrata três gerações da família Morgian, imigrantes persas do Irã a Israel, enquanto sobreviviam numa pequena fazenda de perus, na década de 1980.
Os filmes começam a ser disponibilizados a partir de sexta-feira, 24/06, na plataforma SESC Digital, com exibições online e gratuitas para todo o Brasil: https://sesc.digital
*Ana Beatriz Prudente Alckmin é colunista da Revista Fórum sobre judaísmo e sustentabilidade.
*Letícia Patú é analista de cinema do Oriente Médio.
*Lívia Passoni Fontes é jornalista da TV Record.
*Rúbia Russi é jornalista da TV Cultura.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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