Jacqueline Muniz: racismo policial é fortalecido por autonomia de sistema repressivo – Opera Mundi

São Paulo (Brasil)
2022-06-20T20:33:00.000Z
Em conversa com o jornalista Breno Altman no programa 20 MINUTOS ENTREVISTA desta segunda-feira (20/06), a antropóloga e doutora em segurança pública Jacqueline Muniz explicou como as práticas do racismo estrutural na segurança pública ajudam a mover a engrenagem neoliberal e autoritária no Brasil. 
“O racismo tem rentabilidade, serve maravilhosamente bem às práticas neoliberais”, afirmou, constatando que o poder de polícia não é objeto de discussão no país e que governos policiais autônomos gerenciam a segurança pública brasileira.
O racismo e a desigualdade geram e empregam mão de obra barata para o neoliberalismo, seja do lado da sociedade ou das próprias polícias. Sua manutenção exige “sujeitos avulsos, uberizados, precários, gerentes de seu miserê, vulnerabilizados e assustados”, diz. 

“Quanto mais medo, maior a insegurança. E quanto maior a insegurança, mais você não percebe que tem direitos e mais fica vulnerável a fortão de ocasião, a gritos catárticos”, completou a pesquisadora.
Para Muniz, o “explicitamento” do racismo é passo essencial para desmontar esse mecanismo, já que o ocultamento é sua primeira dimensão. “Aqui, a gente não pode revelar o racismo, a misoginia, a homofobia, e por isso odiamos lugares de fala: porque somos liberais autoritários”, defende.
“O caldo autoritário não está na boca do [Jair] Bolsonaro. O bolsonarismo é anterior a Bolsonaro, como o malufismo foi anterior ao bolsonarismo. Aqui, cidadania é um artigo que você não pode gastar. Como cidadão você está sempre devendo, porque ganhou de alguém o direito”, disse.
Muniz relaciona a lógica da guerra às drogas sustentada pelo racismo estrutural e a política armamentista difundida pelo bolsonarismo: “a guerra contra o crime associada à presença das armas é uma ferramenta de trabalho. Se na cadeia só se vê preto e pardo, você conclui, numa lógica lombrosiana e racista, que os pobres, pretos e pardos são mais criminosos e merecem mais vigilância e contenção”. 
No receituário neoliberal dominante, misturam-se infantilização da sociedade pelo poder policial e baixa adesão das corporações aos protocolos de transparência, publicidade e responsabilização. O resultado é um “pode tudo” da força policial contra a cidadania, e não em seu favor. 
“Os casos no Sergipe e no Rio de Janeiro demonstram total impropriedade tática. E se põe culpa no indivíduo para ocultar os processos institucionais. O discurso da falta de preparo é desesperante, porque é fake, é falso. O que mais temos é preparação”, critica.
Sobre a morte de Genivaldo Santos, trancado no porta-malas de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal e asfixiado com gás em Umbaúba, em 25 de maio, a especialista afirma: “uma política não escrita é uma política. Deixa-se na informalidade decisória para produzir indigência policial. Claramente aquilo é tortura. A gente põe na conta do indivíduo e desaparecem as dinâmicas estruturais do racismo. Não se pode esperar a vida inteira que um sujeito deixe de ser racista”.
Nesse contexto, segundo a antropóloga, os mandatos policiais se tornam cheques em branco, e não por falta de capacidade ou ignorância política, mas por intenção deliberada. 
“A polícia é uma ferramenta contra o outro e faz o outro perder a eleição. É uma ótima captadora de votos, o aparelhamento partidário das polícias no Brasil vem desde o Império. Aqui se confunde politização dos policiais, que como cidadãos precisam sim ser politizados, com partidarização, que é apropriação privatista para atender a interesses partidários”, declarou Muniz.
Tal informalidade conduz à clandestinidade da ação da polícia, empurrada assim para a ilegalidade. “A polícia se torna capangagem para uns e indigente e indulgente para outros, um bando de zumbi de patrulhamento. A gente não quer bandido de estimação, não, a gente quer polícia de estimação”, conclui.
Integram a engrenagem do racismo estrutural a criminalização da favela e de movimentos culturais periféricos, como o funk ou o hip-hop, em oposição a valores supostamente positivos, sempre brancos. “Se as pessoas começarem a vestir a moda crente, parecem cidadãos de bem, porque é o embranquecimento, o projeto Omo total, o embranquecimento moral e político sob tutela. Você quer o menino da favela na favela, não quer dar a ele mobilidade social”, afirma a professora.
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São Paulo (Brasil)
2022-06-22T14:10:00.000Z
Em 22 de junho de 1941, mais de 3 milhões de soldados da Alemanha invadem a União Soviética em três ofensivas paralelas, no que seria a maior e a mais poderosa força militar de invasão da história. Dezenove divisões blindadas, 3 mil tanques pesados, 2,5 mil aviões e 7 mil peças de artilharia distribuíram-se num front de 1,5 mil quilômetros assim que Hitler decidiu abrir seu segundo front na guerra.

A despeito de a Alemanha e a União Soviética terem assinado um pacto de não agressão em 1939, garantindo uma nação a outra uma específica região de influência sem que uma interferisse na outra, as suspeitas permaneceram elevadas. 
Quando o Exército Vermelho avançou sobre a Romênia em 1940 para eventualmente defender o suprimento de petróleo, Hitler viu uma ameaça a seu pretenso controle sobre os poços petrolíferos dos Bálcãs. Berlim respondeu imediatamente mobilizando para a região duas divisões blindadas e 10 divisões de infantaria na Polônia, a fim de para ameaçar diretamente as linhas fronteiriças soviéticas. Mas o que parecia ser apenas um movimento tático transformou-se num plano global de ataque à União Soviética.

Na verdade, a ideia básica do assalto à URSS remontava a 15 anos antes. Hitler escrevera em seu livro Mein Kampf (Minha Luta): “Nós, nacional-socialistas, recomeçamos onde interrompemos há 600 anos. Vamos deter o interminável movimento ao sul e a oeste da Europa e voltar nossas vistas para os países do Leste… Quando hoje falamos em novo território na Europa (Drang nach östen), devemos pensar principalmente na Rússia e nos seus Estados vassalos limítrofes. O próprio destino parece assinalar-nos o caminho nesse ponto… Esse colossal império no leste está amadurecido para a dissolução, e o fim do domínio judaico na Rússia será também o fim da Rússia como Estado.”

Apesar das advertências de seus conselheiros de que a Alemanha não deveria lutar em dois fronts, como a experiência da Primeira Guerra Mundial havia demonstrado, Hitler convenceu-se de que a Inglaterra iria resistir aos ataques alemães, recusando-se a se render, porque Londres tinha firmado um acordo secreto com Moscou. Temendo ser ‘estrangulado’ a leste e a oeste, firmou em dezembro de 1940 a “Diretiva 21: Operação Barbarossa”, um plano para invadir e ocupar a imensa nação que ele imaginava poder articular-se com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
Hitler traçou o objetivo geral da Operação Barbarossa: “A massa do exército russo, na Rússia ocidental, deverá ser destruída em operações ousadas, por meio da penetração de profundas cunhas couraçadas, e a retirada de unidades intatas e capazes de batalhar na imensidão do território soviético deverá ser impedida. O objetivo final da operação é estabelecer uma linha de defesa contra a Rússia Asiática, a partir de uma linha que corra do rio Volga a Arkhangelsk.”

Em 22 de junho de 1941, após ter adiado a invasão da Rússia para poder tirar a Itália, seu aliado, dos apuros em que se meteu na invasão da Grécia e assim evitar que os Aliados pudessem colocar um pé nos Bálcãs, três grupos de exércitos alemães atacaram pesadamente a União Soviética de surpresa. O Exército Vermelho era mais numeroso do que a inteligência germânica havia antecipado mas estavam aparentemente desmobilizado no momento do assalto inicial. Stalin, segundo se informou, havia dado de ombros às advertências de seus próprios conselheiros e até do próprio primeiro-ministro britânico Winston Churchill, de que o ataque nazista era iminente.

Segundo diretrizes emanadas do próprio Hitler aos comandantes supremos das três armas “a guerra contra a Rússia será tal que não poderá ser conduzida de maneira cavalheiresca. É uma luta de ideologias e de diferenças raciais e terá de ser conduzida com uma dureza sem precedentes, sem misericórdia e sem descanso… Insisto que minhas ordens sejam executadas sem oposição. Os comissários do povo são os portadores de ideologias que se contrapõem diretamente ao nazismo. Por conseguinte, serão liquidados os comissários. Os soldados alemães acusados de quebrar as leis internacionais serão desculpados… A Rússia não faz parte da Convenção de Haia, não tendo, portanto, direito a ela.”

No final do primeiro dia da invasão, a força aérea alemã tinha destruído mais de mil aviões soviéticos. E a despeito da resistência e obstinação das tropas do Exército Vermelho e do armamento a sua disposição em tanques e artilharia, havia certa desorganização defensiva, o que permitiu a penetração da Wehrmacht em território russo em poucas semanas em cerca de 500 quilômetros.

O exército alemão avançou ainda mais nos meses subsequentes, cercou Leningrado, chegou às portas de Moscou e investiu para conquistar o sul do país. Até que se defrontou com Stalingrado — a batalha que virou a guerra.

Também nesta data:
1929 – Guerra dos Cristeros opõe camponeses católicos a governo mexicano
1940 – França assina armistício com Alemanha na floresta de Compiegne
1950 – Dossiê anticomunista Canais Vermelhos coloca celebridades norte-americanas em lista negra
1987 – Morre Fred Astaire, bailarino, ator e cantor de Hollywood

(*) A série Hoje na História foi concebida e escrita pelo advogado e jornalista Max Altman, falecido em 2016.
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