"Isso pode fazer maravilhas às suas notas" ou assédio nas universidades portuguesas(Parte 1) – O POVO

Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.
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O professor abaixa-se para ver as pernas e a calcinha da aluna, por debaixo da mesa. O professor olha descaradamente para o decote da aluna. O professor faz um convite para sair com a aluna e, quando ela recusa, é tratada de cabra arrogante. O professor envia mensagens pelo WhatsApp à aluna às 3 horas da madrugada, com oferta de ajuda para explicar matérias e perguntas pessoais. O professor propõe vantagens acadêmicas em troca de favores sexuais. Um ajudante de professor aproxima-se de uma aluna durante a prova e insinua-se, dizendo baixinho: “isso pode fazer maravilhas à sua nota”. 
Não sei quanto a vocês, mas ao saber de tais relatos pelos jornais e redes sociais, tenho um súbito embrulhar no estômago. Porque não são cenas de ficção na televisão. São cenas reais que acontecem todos os dias em algumas universidades e institutos politécnicos, em Portugal. Tudo debaixo de panos mornos. Na surdina. Vítimas silenciadas e intimidadas, vivendo o cotidiano acadêmico na fragilidade do clima de medo e sentimento de impunidade. “Falta de provas” bloqueiam esboços de reclamações. E teria continuado tudo assim, tudo em águas de bacalhau, como se diz por aqui. 
Mas a panela de pressão apitou alto e alguém teve a ideia de abrir um canal aberto e anônimo para queixas de assédios na faculdade de direito da Universidade de Lisboa. Em apenas 11 dias choveram 70 queixas. Na plataforma, eram tantos os nomes de professores envolvidos em casos de denúncia de assédio moral e sexual que, feitas as contas, só nesta faculdade, somavam 10% dos docentes. A bola de neve engordou montanha abaixo. Os estudantes amordaçados pelo “falta de provas”, aproveitam o momento. Outros casos vêm à tona. Em outros cursos. Em outras cidades portuguesas. Universidades do Porto e do Minho na lista. 
Comentários e piadas racistas, xenófobas e machistas em plena sala de aula. E, às vezes, vindo de colegas. Humilhações e insultos que se estendem também a festas acadêmicas e calouradas. Inclusive, violações em festas de final se semestre. Centenas de casos que mostram que o espaço acadêmico, nem de longe, parece ser um terreno neutro e inclusivo que se poderia esperar. Com tudo isso em cima da mesa, as universidades portuguesas começam (só agora) a pensar e instalar mecanismos para receber e investigar as queixas das alunas. Tem professor que, em sua defesa, diz que foi mal interpretado. Seu mal é ser “carinhoso”. 
Os professores “carinhosos”, os “carentes de atenção e de sexo”, os “voyeurs e os brecheiros” estiveram por um longo tempo (e até agora) protegidos pelo velho manto do corporativismo. Sem muita renovação no plantel, foram tornando-se ases em tirar vantagens desse jogo de poder entre quem ensina e quem aprende. Entre quem dá notas aos exames escritos e orais e quem se treme de nervoso na hora da prova. Entre quem determina quem passa de nível e quem expecta avançar no curso universitário e ter uma profissão, no futuro. Eu todo-poderoso, o futuro dela nas minhas mãos, e a cabra arrogante não quer sair comigo? Como assim? 
Para estes agressores perversos, é claro, todas as jovens mulheres são potenciais presas. Mas, ao que parece, as alunas brasileiras têm sido alvos de preferência dessa estrutura racista, misógina e machista que sobrevive na sociedade portuguesa. E que se sentou bem sentada também nos bancos universitários. Uma professora disse à aluna que ela deveria reduzir o volume dos seios porque tiravam a atenção dos rapazes em sala de aula. E na Universidade do Porto um professor defendia nas aulas que as brasileiras são “mercadorias”. Primeiro foi suspenso por assédio, depois demitido pelo último comentário. Ainda bem. 
Brasileiras Não Se Calam”, anuncia o movimento (e o site) lançado pelas nossas conterrâneas que vivem, trabalham e estudam em Portugal. Porque, como eu já disse, o problema é geral. Nas universidades e escolas, mas também nos locais de trabalho, nos hospitais, nos transportes públicos, nas ruas. Na crônica da próxima semana vamos saber mais desse movimento que diz não à xenofobia e ao machismo – aqui e alhures. Espaço para denúncias, também de apoio, esclarecimento e orientação para brasileiras que, por décadas, engoliram em silêncio a discriminação pela nacionalidade. 
Nem putas nem ladras de marido, como já se ouviu muito por estes lados. Mas, sim “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite”, como bem dizia Simone de Beauvoir.
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