E os portugueses? – Diário de Notícias

A Ucrânia tem condições para ser um membro da UE? Quanto tempo levaria a reunir essas dezenas de exigências? Caso galgassem etapas, como ficaria então a posição geoestratégica da União Europeia, nomeadamente face à Turquia (que tenta pertencer há meio século e cumpre quase todos os requisitos) e face aos Balcãs? Portugal levou 7 anos para ter selo de aprovação. Montenegro é candidato há 12, a Estónia aguardou 13, etc.
O que ganhariam os europeus com esta integração? Toda a propaganda em torno desta putativa candidatura ajuda a Ucrânia neste momento de guerra? Em que medida contribui para a paz? Eis algumas das perguntas básicas a colocar antes de desatarem a agitar as bandeirinhas e entrar em modo cheerleader. Ou ainda não enjoaram de tanta demagogia?
Segundo todos os relatórios internacionais (eg UNICEF ou Human Rights Watch), antes do actual conflito, a Ucrânia padecia de pobreza extrema e apresentava indicadores sociais e económicos ao nível de muitas nações africanas. Narco-Estado, chão de trabalho infantil, covil de pedofilia, barrigas de aluguer, tráfico de seres humanos, enfim, o horizonte era negro. A corrupção medrava e a discriminação de minorias raciais ou outras era tremenda. Tomada pela extrema da extrema direita, golpeada pela violência, a Ucrânia sangrava muito antes da invasão de Putin. Agora, é hemorrágico. Como se pode desenrolar em via verde a pertença à UE de um território que está parcialmente ocupado por uma potência nuclear que controla grande parte dos seus recursos, sendo que outra parte, designadamente as suas infraestruturas, está quase toda destruída? Como declaravam os auditores da União Europeia no Outono passado, nem sequer está garantida a independência do sistema judicial perante os portentos oligárquicos. Ucrânia na Europa? Isso era anedota para os eurocratas de Bruxelas até há pouco tempo.
Kiev cumprirá a médio prazo o Acordo de Copenhaga? Parece que nem sequer consegue corresponder ao artigo 2.° do Tratado: “A União funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem.” Razão tem Macron quando diz que este processo de entrada levará anos, ou mesmo décadas. Se tivesse seguido o protocolo Minsk… Depois, além de já estarem na lista de espera outros países, considerando os 44 milhões de ucranianos, terá a Europa capacidade de absorção sem cortar ajudas a países já membros? O erário europeu estica até que ponto? Que fundos e apoios cessarão? É que a adesão pressupõe a unanimidade. Posto isto, não será que Von der Leyen & companhia estarão a mentir aos ucranianos, acenando-lhes com um oásis inatingível? Ou seja, a iludir todos nós?
Há quem advogue um plano Marshall Express para a mutilada Ucrânia, ajudando à reconstrução posteriormente. Mas casos como a Hungria ou a Polónia já deviam ter deixado claro que mudanças após pertença são bem mais complexas. A questão central é uma solução digna (como a que já se avistava com neutralidade e desmilitarização parcial do país), concomitante a um acordo consistente que proteja os interesses europeus. Independentemente dos interesses dos EUA. Ou não?

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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