O Covid-19 aumentou o racismo??! – Dinheiro Vivo

Na semana passada teve ampla cobertura mediática, e bem, o relatório anual da ECRI – Comissão do Conselho da Europa contra o Racismo e a Intolerância (aqui). Nos títulos sínteses, todos muito semelhantes, podia ler-se que “O Covid-19 reforçou o Racismo”.
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Ora o Covid-19 é uma doença infecciosa provocada pelo vírus denominado coronavírus da síndrome respiratória grave 2 (SARS-CoV-2), uma doença que afeta as vias respiratórias e pode causar a morte. Até agora morreram mais de 6 milhões de pessoas de Covid-19. As lesões que provoca são exclusivamente físicas não se conhecendo lesões psicológicas ou emocionais que pudessem levar a um aumento do racismo. Uma pessoa que teve Covid-19 não acorda nem mais nem menos racista do que antes de contrair a infeção.
Assim, não é correto dizer-se que o Covid-19 aumentou o Racismo. O que aconteceu então? Estará alguém a mentir? Não necessariamente.
Imaginemos um aumento de inflação que leva ao aumento substancial dos preços dos bens alimentares. Uma pessoa rica paga o novo preço e o seu consumo não baixa. Uma pessoa que ganha a pensão mínima portuguesa (cerca de 200€), se não for ajudada, morrerá de fome. A mesma causa tem repercussões diferentes nas duas pessoas. Não por causa da inflação em si mesma, que é igual para as duas, mas por causa das condições de partida diferentes. Na verdade a verdadeira causa é a desigualdade, a riqueza de um e a pobreza do outro, e não a inflação. Por isso uma pessoa resiste bem e a outra sucumbe.
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Com o Covid-19 o mesmo se passa. Não é o Covid-19 que provoca o aumento do Racismo e da discriminação. São as desiguais condições de partida em termos de discriminação económica, social, educacional, ocupacional e a segregação habitacional, isto é o Racismo estrutural das sociedades que fazem com que um mesmo choque externo, o Civid-19, se abata com mais violência sobre as pessoas racializadas. Isto por um lado.
Mas esta situação foi ainda agravada pela natureza das medidas de combate à doença adotadas. Uns grupos foram protegidos com quarentenas, vacinas prioritárias, acesso aos hospitais, enquanto outros foram considerados “essenciais” e obrigados a continuar a trabalhar, a utilizar transportes apinhados, a viver em casas sobrelotadas, isto é a continuar expostos à epidemia. Tudo isto é, aliás, o que o Relatório da ECRI nos diz.
Vemos, então, que não foi o Covid-19 o responsável pelo aprofundamento do Racismo e da discriminação mas que as verdadeiras responsabilidades recaem sobre o Racismo estrutural prevalecente na sociedade e sobre os Governos que tomaram medidas que protegem uns e expõem outros à epidemia.
Pode parecer um preciosismo de linguagem, mas é bom que se percebam as realidades e não se diabolize um vírus pelos erros e crimes humanos.
Isto é particularmente importante se quisermos, enquanto sociedade, preparar-nos para outras pandemias ou catástrofes naturais. Essa preparação passa essencialmente pelo erradicar do Racismo estrutural. Perceber as causas é essencial para resolver os problemas. Atribuir culpas a um vírus é a melhor desculpa para não fazer nada.

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