Angola: Medo da islamização ou pura xenofobia? – DW África

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Crescimento do Islão é visto por setores da sociedade civil como ameaça à segurança de Angola. Em entrevista à DW, presidente do Conselho Islâmico diz que receios são infundados. Jurista aponta tendências xenófobas.

As denúncias de tentativas de raptos de crianças por supostas cidadãs, alegadamente fiéis da religião islâmica, em Luanda, reacenderam em Angola uma velha polémica sobre o Islão e o terrorismo.
Num áudio que circulou recentemente nas redes sociais, ouvem-se vozes de cidadãs que se comunicavam em árabe e que supostamente tentavam atrair com doces e gelados os menores. Desconfia-se que o propósito seria transportar as crianças para um lugar um lugar incerto.
Uma das vozes mais críticas ao crescimento do Islão no país é o nacionalista e embaixador angolano Luís Neto Kiambata. Para ele, o Estado deve tomar medidas de segurança para que não aconteça Angola o que se passa na região de Cabo Delgado, norte de Moçambique.
Ouvido pela DW África, o presidente do Conselho Islâmico de Angola (CONSIA), Altino Miguel da Conceição “sheikh Oumar”, lamenta as declarações que associam o Islão ao terrorismo e recorda que Angola teve sempre boas relações com países que professam a religião, mesmo na fase da luta pela independência.
“A história contemporânea de Angola está cheia de exemplos de boas relações com países islâmicos, assumidamente islâmicos. Eu acredito que mesmo o nosso embaixador Neto Kiambata já passou por países muçulmanos, como Marrocos, Argélia e Tunísia”, sublinha.
Para “sheik Oumar”, não tem qualquer cabimento comparar a situação vigente na região de Cabo Delgado, em Moçambique, com a presença do Islão em Angola. “Cada realidade é uma realidade, não podemos aqui fazer uma comparação entre a realidade angolana e a realidade moçambicana”, afirma.
David Já, jurista e membro de direção do Conselho Islâmico, considera que os pronunciamentos que associam o Islão a práticas que visam a subversão da ordem e segurança são descabidos e com tendências xenófobas. “O Islão não existe só em Angola, Angola não é extraterrestre. Angola é membro das Nações Unidas e da União Africana e a religião islâmica é uma religião secular, a religião não é sinónimo de terrorismo”, frisa.
David Já defende que o Islão é uma religião de paz e considera um erro associá-la ao terrorismo: “A religião islâmica é uma religião de bem, que apregoa o bem fazer”.
Em Angola, estima-se que existam cerca de 800 mil pessoas que professam o Islão e 119 mesquitas em todo o país.
As autoridades moçambicanas detêm arbitrariamente pessoas por parecerem muçulmanas, no âmbito da luta contra o terrorismo em Cabo Delgado, alerta o Governo norte-americano, citando organizações no terreno e ‘media’.  
Líderes religiosos da província de Cabo Delgado voltam a distanciar-se das ações dos grupos armados que semeiam terror na região, supostamente em nome do Islão. Lembram que ser crente pressupõe amar e promover a paz.  
Posse da direção do Conselho Islâmico de Angola e nova designação permitem o reconhecimento do Islão pelo Estado. Cumprimento de critérios legais ocorre depois de anos de marginalização da comunidade muçulmana.  
Muitos países atenuaram as restrições da Covid-19, porém, o aumento dos preços e a escassez de alimentos devido à guerra na Ucrânia estão a ter repercussões sobre o mês sagrado do Ramadão.  
Templos da IURD Angola voltam a ser encerrados e serão entregues à direção “legitimada pelo Governo angolano”, diz fonte oficial. IURD Angola reage e pede às autoridades que acabem com perseguições.
Posse da direção do Conselho Islâmico de Angola e nova designação permitem o reconhecimento do Islão pelo Estado. Cumprimento de critérios legais ocorre depois de anos de marginalização da comunidade muçulmana.
Ministério das Relações Exteriores do Brasil convoca embaixador de Angola no país para saber detalhes sobre as deportações no âmbito do conflito na IURD. Governo brasileiro quer esclarecimentos legais sobre o caso.
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Associação acusa Kalil de capacitismo por chamar Zema de "débil mental" – O Tempo

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A Aliança Brasileira de Associações e Grupos de Apoio às Pessoas com Doenças Raras acusou o pré-candidato ao governo de Minas Gerais  Alexandre Kalil de discriminação contra pessoas com deficiência. Motivo: Kalil chamou o governador do Estado, Romeu Zema, de “débil mental” em entrevista ao Flow Podcast divulgada na quinta-feira (2).
Em nota, a entidade diz que a expressão usada por Kalil é  “atrasada, desrespeitosa e assume tons capacitistas”. 
Leia abaixo a íntegra da nota:
“O ex-prefeito de BH, Alexandre Kalil, se referiu ao Governador Romeu Zema como “débil mental” em uma entrevista concedida ao Flow Podcast. Essa expressão escancara, paradoxalmente, as limitações de quem a profere e evidencia a importância da luta contra o desrespeito, o preconceito e a violência em forma de discurso. A ofensa, empregada em um contexto de disputa política, foi dita pelo ex-chefe do Executivo de uma das maiores cidades do país, o que nos impele a agir de forma ainda mais veemente contra a legitimação do preconceito e do ódio.
Para além do contexto da fala, a expressão utilizada pelo ex-prefeito é atrasada, desrespeitosa e assume tons capacitistas. Ela afronta as convenções criadas para proteger as pessoas com deficiência e não pode ser tolerada — em hipótese alguma. Kalil, infelizmente, é mais conhecido pelas suas declarações polêmicas — especialmente contra minorias — como ocorreu novamente durante entrevista mencionada, onde ele usou um termo capacitista para ofender e agredir seu oponente.
As pessoas com deficiência merecem respeito! Que o ex-prefeito se retrate por esse triste e revoltante comentário.”
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Procon-SP notifica Shopping JK Iguatemi após denúncia de racismo – Jovem Pan

Consumidor relatou ter sido perseguido por seguranças ao tentar realizar uma compra no local; empresa tem até 1º de junho para se manifestar
O Procon de São Paulo notificou o Shopping JK Iguatemi, um dos mais luxuosos da capital paulista, após uma denúncia de racismo. Um consumidor, que é negro, registrou reclamação nos canais de atendimento do órgão e relatou ter sido seguido e constrangido por seguranças no dia 27 de março, ao circular e tentar efetuar uma compra no local. O Procon pediu que o shopping esclareça quais providências foram tomadas em relação ao episódio, além de informar os critérios de seleção e contratação de funcionários. A empresa também deve apresentar a política de treinamento aplicada aos trabalhadores, esclarecendo se a participação é obrigatória ou facultativa.
O Procon pediu ainda que a administração do shopping demonstre, por meio de documentos, as medidas específicas adotadas no complexo comercial nos últimos 12 meses, abordando a conscientização, prevenção, programas de diversidade, inclusão e combate ao racismo e a discriminação de qualquer gênero. A empresa tem até o dia 1º de junho para responder aos questionamentos. A Jovem Pan tenta contato com o Shopping JK Iguatemi. A reportagem será atualizada se houver manifestação.

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ConJur – Opinião: A capoeira e a educação patrimonial – Consultor Jurídico

Por José Olímpio Ferreira Neto e Robson Carlos da Silva
Para a proteção dos bens culturais, a Constituição elenca alguns instrumentos, tais como os inventários, registros, tombamento, vigilância, desapropriação e a possibilidade de serem criados outros, que possam albergar as peculiaridades locais espalhadas pelo Estado brasileiro. O uso desses instrumentos de proteção deve seguir um processo administrativo no qual a participação efetiva da comunidade deve ser considerada.
No entanto, é preciso pensar como se dá essa participação sem o desenvolvimento de uma educação patrimonial mais ampla, aliada ao significativo descaso com a educação crítica de nossa gente, em especial das comunidades ditas periféricas, territórios em que se percebe um maior cuidado e manutenção com significativa parcela destes bens culturais.
A Educação Patrimonial se relaciona ao desenvolvimento do sentimento de pertencimento e apropriação dos bens culturais que formam o patrimônio cultural de uma comunidade. Permite uma alfabetização cultural que media a compreensão do mundo.
Deve ser estimulada na escola formal, assim como em outros espaços de educação, tais como o terreiro e a roda de capoeira, concebidos enquanto escolas, territórios de uma autêntica educação popular. É uma forma de exercício dos direitos culturais, de cidadania.
Os direitos culturais são aqueles relacionados ao tripé artes, fluxo de saberes e memória coletiva. Albergam os bens materiais e imateriais, tendo como fulcro a dignidade da pessoa humana. Entre os seus princípios estão o da participação popular e o da atuação estatal como suporte logístico.
O primeiro refere-se à participação da comunidade na tomada das decisões que atingem o bem cultural; o segundo, à limitação do Estado em atuar apenas oferecendo o suporte para a manutenção do bem, sem interferir na autonomia do processo de desenvolvimento de manifestações culturais, por exemplo.
Em nossas vivências no universo da capoeira, foi possível perceber que esse meio é propício ao desenvolvimento de uma participação popular mais ampla e efetiva, pois é um espaço de formação, nascida da luta contra opressão, que se atualiza para combater novas/antigas práticas arbitrárias, tais como racismo, xenofobia, homofobia, machismo, entre outras.
Contraditoriamente, o reconhecimento da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres, assim como de outros bens, não parecem acontecer com ampla participação, pois esses movimentos processuais ainda são demasiadamente representativos. Não é fácil promover a escuta dos articuladores dos bens culturais, pois as manifestações culturais, dado os conflitos e tensões, escapam à lógica das instituições burocráticas, ainda que existam técnicos "sensíveis" a essas questões.
O tempo/forma do Estado para promover, fomentar ou resolver questões não é o mesmo da cultura popular. É mais fácil dialogar com os articuladores que gozam da linguagem institucional, deixando o pensamento subversivo de fora ou em segundo plano. Mesmo na oportunidade de escuta, percebe-se que a "máscara de Anastácia" ainda silencia vozes. A estrutura desenvolvida para silenciar ou mascarar opressões que age de forma velada ou descarada, perpetua o silêncio de quem deveria ter o seu canto ecoado pelos ares.
"Camugerê, Como tá, como tá?  Camugerê, como vai vosmecê? Eu vou bem de saúde, Camugerê…". Camugerê era um quilombo que existiu no Brasil no período escravocrata. Os quilombos eram comunidades nas quais se vivia uma realidade diferente da imposta pelo branco-europeu-colonizador. O significado de uma cantiga é múltiplo e ao mesmo tempo inalcançável para muitos, exigindo imersão e sentimento para captar e compreender.
Os versos acima podem remeter à ideia de preocupação com a saúde, bem-estar ou mesmo com a existência dentro de um país que promove uma necropolítica que ameaça a vida biológica, social, psicológica e cultural de minorias, tais como os afro-brasileiros e povos originários, e seus descendentes, criminalizando e condenando, sobremaneira, os corpos negros e jovens.
Espaços comunitários de diálogo devem ser fomentados pelos próprios articuladores de bens culturais, mas nada obsta os entes públicos de promoverem formações de educação patrimonial pedagógicas e andragógicas para que os sujeitos históricos possam se apropriar das ferramentas de luta por direitos, assim como de entendimento de instrumentos acautelatórios, de vigilância e de fiscalização.
No caso da capoeira, é nítida a ampliação da participação que ocorre durante o processo de reconhecimento dos seus bens culturais. Os capoeiristas passaram a dialogar mais em Fóruns, participar de conselhos e a promover ações e aproximações com os entes para fortalecer sua presença nas tomadas de decisões para o setor cultural.
Está presente em políticas culturais de fomento, podendo concorrer para obter o suporte logístico que proporciona a manutenção dos bens para que possa manter o fluxo dos saberes e a memória coletiva entre as gerações. Educação patrimonial se faz na escola, na capoeira, no terreiro, nas comunidades, no cotidiano, com luta por direitos assegurando a participação ampla e efetiva para que as cantigas ancestrais possam ser ouvidas no tempo que vem, ecoando o axé…
 é mestre em Ensino e Formação Docente, advogado, professor de Educação Física, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Direitos Culturais da Universidade de Fortaleza (GEPDC/Unifor) e secretário executivo do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult).
 é mestre de Capoeira, pós-doutor em Educação, Professor da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), docente do PPG Sociedade e Cultura/Uespi e coordenador do Núcleo de Pesquisas em História Cultural, Sociedade e História da Educação Brasileira (NUPHEB).
Revista Consultor Jurídico, 1 de junho de 2022, 7h09
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Lucas Pereira: Da tutela do patrimônio histórico-cultural
Fortuna e Nogueira: O peso tributário da pensão alimentícia
Lucas Maciel: Competência jurisdicional na RJ
Opinião: A comunidade afro-cearense

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Câmara tem pacote de projetos que quer aumentar pena em casos de discriminação racial – Terra

Câmara tem pacote de projetos que quer aumentar pena em casos de discriminação racial  Terra
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Após denúncia de racismo contra criança fantasiada de macaco, escola se pronuncia pelas redes sociais – G1

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Rizek questiona omissão de entidades sobre racismo: 'Está virando uma espécie de troféu' – ISTOÉ

Esportes
Parceria Lance & IstoÉ
Em meio a mais um caso de racismo na Libertadores, o jornalista André Rizek criticou a omissão das autoridades do futebol diante dos atos de preconceito racial. Segundo ele, as organizações estão sendo coniventes com os crimes cometidos dentro dos estádios.
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– As entidades que comandam o futebol são tão permissivas com manifestações racistas (ainda mais com as homofóbicas) que está virando uma espécie de troféu, para o racista, imitar macaco no estádio. Nem o risco de ser detido (real mesmo, só no Brasil) contém essa “gente” – escreveu o apresentador do ‘Seleção Sportv’, no Twitter.
As entidades que comandam o futebol são tão permissivas com manifestações racistas (ainda mais com as homofóbicas) que está virando uma espécie de troféu, para o racista, imitar macaco no estádio. Nem o risco de ser detido (real mesmo, só no Brasil) contém essa "gente". 🧶
Antes de a bola rolar entre Boca Juniors e Corinthians, na Bombonera (ARG), pela fase de grupos da Libertadores, um torcedor do time argentino foi flagrado fazendo gestos racistas em direção à torcida corintiana.

Este não é o primeiro caso de racismo na competição, e a Conmebol, há menos de um mês, oficializou mudanças no Código Disciplinar com punições mais severas para casos de injúria racial em seus torneios.
Rizek continua sua explicação e afirma que medidas mais severas deveriam ser impostas aos criminosos e que os clubes sejam responsabilizados por seus torcedores.
– Quero ver quando clubes começarem a perder pontos – é só isso o que pega com esses boçais. Ao que parece, só assim para causar indignação no estádio inteiro – e os próprios torcedores coibirem esse nojo. Futebol não vai consertar a sociedade. Mas pode fazer a sua parte – finalizou.

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Depois da repercussão pelos seguidos episódios de racismo em jogos da Libertadores, a Conmebol oficializou as mudanças no Código Disciplinar. Agora, estão previstas punições mais duras contra atletas e clubes “cujos torcedores insultem ou atentem contra a dignidade humana de outra pessoa ou grupo de pessoas por motivos de cor de pele, raça, sexo ou orientação sexual, etnia, idioma, credo ou origem”.
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Por que a eventual cassação de Renato Freitas não poderá ser atribuída ao racismo – Gazeta do Povo

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.
O caso ocorreu em 5 de fevereiro deste ano: o padre Luiz Haas estava conduzindo a missa de sábado na Igreja do Rosário, no Centro de Curitiba, enquanto um grupo de manifestantes liderados pelo vereador Renato Freitas (PT) ocupava a escadaria do templo e gritava palavras de ordem, prejudicando a celebração religiosa. “Isso é de propósito, para atrapalhar a nossa missa. Não sei que grupo é. Mas na hora da missa não precisa fazer isso”, disse o padre. O sacerdote chegou a ir à escadaria para conversar com os militantes, sem sucesso. Pouco tempo depois, o grupo invadiu a igreja (defesa nega a entrada forçada). Os manifestantes levaram bandeiras e faixas até o altar enquanto gritavam palavras de ordem. Renato Freitas discursou e disse que os católicos tinham apoiado um “policial que está no poder”.
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O protesto fazia menção à morte do congolês Moïse Kabagambe. O crime aconteceu no Rio de Janeiro cerca de dez dias antes. Alguns agressores eram negros, e – ao que se sabe – nenhum deles tinha qualquer ligação com a Igreja Católica. Segundo a polícia, o assassinato foi motivado por desavença entre Kabagambe e os responsáveis por um quiosque onde o congolês havia trabalhado. O racismo não foi considerado causa determinante no crime. Ainda assim, Renato Freitas e seus companheiros de militância acharam que seria uma boa ideia invadir o espaço sagrado dos católicos – ainda, que para eles, não foi invasão, “porque a porta estava aberta”. Não houve arrependimento: o vereador publicou uma imagem em sua página no Instagram celebrando o protesto, que havia sido planejado e divulgado com antecedência.
Menos de quatro meses depois, o parlamentar se vê diante de um processo de cassação. O parecer pela perda do mandato foi aprovado pelo Conselho de Ética da Câmara Municipal de Curitiba, e agora depende da palavra final do plenário. A votação inicial estava marcada para 19 de maio, mas foi suspensa em meio a um episódio ainda obscuro: Freitas recebeu um e-mail com ameaças e termos racistas atribuído ao vereador Sidnei Toaldo (Patriota), relator do caso. Alegando falta de isenção do colega, o petista foi à Justiça e conseguiu que o processo de cassação fosse suspenso até que o episódio seja esclarecido. Toaldo nega veementemente ter enviado a mensagem. Uma investigação da própria Câmara de Vereadores apontou que a mensagem foi forjada e partiu de um servidor baseado na República Checa.
Antes disso, o vereador já havia se afastado alegando razões de saúde. Ele tem dito que dificilmente escapará da cassação — e culpa o racismo e o viés anti-esquerdista de seus colegas. Nesta semana, em entrevista a militantes de esquerda em um canal no YouTube, o parlamentar não fez qualquer tipo de mea culpa. Pelo contrário: disse que apenas negros podem julgar se os métodos de manifestação adotados por outros negros (como a invasão de igrejas) são adequados. “Quem tem de fato o termômetro para saber exatamente a gravidade da nossa causa, das nossas dores, dessa violência racista que ceifa vidas cotidianamente? (…) Ninguém se não nós. Então, por que as pessoas que não vivem a nossa realidade, porque brancas e ricas e poderosas, arvoram-se no direito de conferir legitimidade a nossa manifestação? Já que não conseguem discutir o conteúdo daquilo que nós trouxemos ao debate público (…), preferiram se ater ao método que utilizamos”, disse ele. Como no caso da morte do congolês no Rio de Janeiro, Renato Freitas parece ter dificuldades em conectar causa e efeito.
Para a advogada Isabela Bueno, o caso de Freitas é mais grave do que o de Arthur do Val, deputado estadual paulista que foi cassado recentemente depois de dar declarações ofensivas sobre as mulheres ucranianas. “Aquele comentário – ridículo – foi feito no privado. No caso do vereador, houve um ataque direto, físico: ele invadiu o espaço religioso. Há mais motivos para a cassação dele do que a de Arthur do Val”, diz ela, que é presidente da Associação Nacional de Proteção da Advocacia e Cidadania (ANPAC). O artigo 208 do Código Penal brasileiro estabelece o crime de ultraje a culto. O tipo penal inclui “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.
“A conduta do referido vereador se enquadra perfeitamente no tipo penal descrito no artigo 208 do Código Penal, especialmente quanto ao ato de impedir ou perturbar cerimônia ou ato de culto religioso”, afirma o advogado Pedro Affonseca, presidente do Centro Dom Bosco. Ele acrescenta que o caso também pode configurar intolerância religiosa, contrariando o artigo 5º da Constituição.
O advogado Daniel Fich, que também é pastor evangélico, concorda: “A Constituição assegura a liberdade de culto, de crença, e a proteção ao local de culto. O ato do vereador não apenas desrespeitou a liberdade de culto como desrespeitou o local de culto, que é protegido pela Constituição, configurando claramente o crime que é previsto no Código Penal”. Para ele, as alegações do vereador não passam de um discurso “vitimista”.
O petista, aliás, parece ter uma predileção por atacar as igrejas cristãs, frequentemente com generalizações infundadas do tipo: “O grande erro da Igreja no Brasil foi dizer que os negros e os índios não tinham alma e que por isso poderiam ser trucidados, exterminados, escravizados”. Os missionários se dedicavam a catequizar negros e índios precisamente por acreditar que tinham alma. A declaração foi dada por ele em entrevista ao portal Ponte em março neste ano. Na mesma entrevista, ele também definiu como “fascismo” o fato de que “80% dos religiosos cristãos e evangélicos declararam voto no Bolsonaro na época da eleição”. Diversas entidades condenaram o ato de Freitas, e até mesmo alas do PT tentaram se afastar do vereador, que foi membro do PSOL até 2016.
Embora esteja no primeiro mandato, Renato Freitas já acumula problemas com as autoridades. Em junho do ano passado, ele foi detido por suspeita de agredir um homem de 57 anos durante um ato contra o presidente Bolsonaro. No mês anterior, ele também foi levado à delegacia por perturbação sonora. Antes mesmo de se eleger, ele cometeu um ato de vandalismo ao pichar um toldo durante uma manifestação contra o racismo. Ele também havia sido detido pelo menos três outras vezes desde 2016. E, para piorar, foi condenado a indenizar um policial militar a quem ofendeu em 2018.
De acordo com a advogada Isabela Bueno, o histórico agrava a situação dele no processo de cassação. “Se ele já tem antecedente criminal, isso também pesa. Uma das motivações para a quebra de decoro é a idoneidade”, afirma a advogada.
Renato Freitas diz que o avanço de seu processo de cassação é fruto do racismo. A acusação dele insinua que há um tratamento diferenciado em função da raça. Mas não é isso que se vê. Embora a Câmara Municipal – como a própria população da cidade – seja majoritariamente branca, Freitas está longe de ser o primeiro parlamentar negro da Casa. É razoável considerar que o título cabe a Sydnei Lima Santos, que chegou ao posto em 1968. Ele foi seguido por nomes como Hasiel Pereira, eleito em 1982, Carol Dartora (PT) e Herivelto da Silva (Cidadania), os dois últimos atualmente no exercício do mandato. Nenhum deles foi cassado. Aliás, o Legislativo municipal jamais havia cassado um de seus membros. Mas isso mudou na semana passada, quando a Mesa da Câmara decidiu pela cassação do mandato do vereador Éder Borges (PP) após condenação pelo crime de difamação. Borges não é negro.
Na Assembleia Legislativa do Paraná, dois parlamentares foram cassados na atual legislatura – ambos por decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE): Fernando Francischini (PSL) e Subtenente Everton (PSL). Ambos são brancos.
Na Câmara dos Deputados, o único paranaense na história cassado pelo voto dos colegas, André Vargas (PT), é branco. Assim como Onaireves Moura, Boca Aberta, que perderam o mandato na Câmara por causa de decisões da Justiça Eleitoral.
Renato Freitas tem grandes chances de ser cassado pela Câmara Municipal. E, se isso se confirmar, a explicação é uma só: ele foi o primeiro vereador na história de Curitiba a atrapalhar uma missa e invadir uma igreja.
O advogado de defesa do vereador, Guilherme Gonçalves, não acredita que se possa falar de invasão na igreja, já que a porta estava aberta e a missa já tinha terminado. Apesar de o vídeo feito durante a missa registrar que o barulho da manifestação estava atrapalhando a cerimônia, o que inclusive foi apontado pelo padre várias vezes durante a missa, Gonçalves nega também que os manifestantes teriam perturbado o ato religioso.
Apesar de o vereador aparecer nas imagens discursando dentro do templo, Gonçalves frisa ainda que ele teria sido um dos últimos a entrar no local. “Não é verdade que ele comandou o ato ou que o Renato atrapalhou a missa, ou que estava entre as pessoas que discutiram com o padre”, afirma.
Segundo ele, a desproporcionalidade como algumas pessoas estão avaliando o fato seria a prova de que, caso o vereador seja cassado, o motivo seria a existência de um “racismo estrutural”. “Da forma como o assunto foi conduzido, é evidente que vai legitimar um discurso de racismo estrutural, é a minha convicção”, afirma. Para o advogado, caso ele seja punido, não será pelo ato na igreja, mas por ser negro, pobre, da oposição e de esquerda.
A versão inicial deste texto informava incorretamente que Evandro Roman foi cassado pela Câmara dos Deputados. O ex-deputado teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas a decisão não chegou a ser cumprida pela Casa. Ele era suplente e deixou a Câmara quando o titular – Ney Leprevost – reassumiu o mandato. Com isso, Roman saiu do Parlamento sem ser cassado. A matéria foi corrigida.
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O futebol brasileiro está embranquecendo? – BBC News Brasil

Crédito, CBF
Jogadores brasileiros que disputaram a Copa de 2018 e membros da comissão técnica.
Pelé, Garrincha, Leônidas da Silva, Romário, Neymar… é longa a lista de atletas negros que fizeram do Brasil o país mais vitorioso no futebol mundial.
Porém, para a filósofa Sueli Carneiro, os tempos são outros.
"Você pega o campeonato francês: é uma profusão de gente preta como você não vê mais aqui no Brasil, que é o tal do futebol pentacampeão, e que foi pentacampeão graças aos jogadores negros", disse a filósofa no podcast Mano a Mano, apresentado pelo rapper Mano Brown, em 26 de maio.
Segundo Carneiro, que é um dos principais nomes do movimento negro brasileiro e raramente concede entrevistas, jovens negros vêm sendo substituídos no futebol por meninos brancos de classe média.
Mano Brown perguntou então à filósofa se o futebol teria deixado de ser "o sonho de consumo da molecada negra", ao que Carneiro rebateu: "eles não deixaram de desejar futebol, eles têm sido gradativamente excluídos".
Fim do Matérias recomendadas
A fala de Carneiro, doutora em Filosofia pela USP e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, ecoou nas redes sociais.
Mas o que pessoas do universo futebolístico pensam sobre a opinião? O futebol brasileiro está embranquecendo?
A BBC fez a pergunta a quatro pessoas que trabalham com futebol dentro ou fora dos campos.
A resposta unânime foi que sim, os negros estão perdendo espaço no esporte símbolo nacional.
As divergências se deram quanto ao grau do fenômeno: enquanto alguns avaliam que ele se restringe a estádios e categorias de base, um ex-jogador já vê efeitos desse processo na seleção brasileira atual (leia mais abaixo).
Crédito, Getty Images
Seleção brasileira que venceu a Copa de 1970, no México, teve Pelé como destaque.
A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens
Episódios
Fim do Podcast
Quando chegou ao Brasil, em 1895, o futebol era um esporte praticado principalmente por brancos. Na primeira metade do século 20, vários jogadores da seleção eram filhos de imigrantes europeus.
Com o tempo, no entanto, o futebol e a seleção se tornaram multirraciais.
Desde a Copa de 1950, em maior ou menor grau, atletas negros vestiram a camisa brasileira em todos os Mundiais. Alguns, como Pelé, Garrincha e Romário, foram os destaques de equipes que se sagraram campeãs.
É possível, porém, que negros percam o protagonismo no futebol brasileiro no futuro, segundo comentaristas entrevistados pela BBC News Brasil.
Eles disseram que a mudança na forma com que meninos são selecionados pelos clubes têm deixado as equipes juvenis mais elitizadas e, consequentemente, mais brancas.
No passado, muitos jovens jogadores vinham de campos nas periferias das cidades, onde eram identificados por olheiros a serviço dos clubes. Foi assim que muitos meninos negros de famílias pobres conseguiram chegar a grandes times e se destacar no esporte.
Hoje, no entanto, os entrevistados afirmam que cada vez mais clubes têm buscado atletas em escolas de futebol particulares, que cobram mensalidades dos alunos. A mudança, segundo os analistas, tem favorecido meninos de classe média, cujas famílias têm condições de pagar as escolas e são majoritariamente brancas.
Crédito, CBF
Jogadores da seleção brasileira em 1914, ano em que equipe realizou as primeiras partidas oficiais
O ex-jogador Edinaldo Batista Libânio, o Grafite, cita à BBC outro fator que estaria excluindo do esporte muitos meninos negros pobres: a má qualidade da alimentação.
Hoje comentarista de futebol, Grafite diz que jovens que não comem direito na infância chegam em piores condições físicas às "peneiras", os processos de seleção dos clubes. E hoje, segundo ele, as equipes consideram a forma física mais importante do que a habilidade ao escolher jovens atletas.
O ex-jogador diz ter notado um sinal "gritante" do desequilíbrio na formação física dos atletas na última Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal competição nacional para jogadores com até 20 anos de idade.
Segundo ele, o desempenho físico de equipes do Sul e Sudeste no torneio foi muito superior ao dos times do Nordeste, cujos atletas tinham origens mais pobres.
Grafite se tornou um símbolo do combate ao racismo no futebol em 2005, quando acusou o zagueiro argentino Leandro Desábato de chamá-lo de "negrito de mierda" durante uma partida em São Paulo.
O zagueiro, que negou a ofensa, chegou a ficar dois dias preso no Brasil antes de voltar à Argentina.
Crédito, Getty Images
Torcedores do Flamengo no Maracanã; para analistas, reforma do estádio para a Copa de 2014 elitizou o público que frequenta os jogos.
O comentarista de futebol Paulo Cesar Vasconcellos menciona outro público do futebol que estaria vivendo um "processo de embranquecimento": as torcidas nos estádios.
Ele afirma que muitos campos reformados para receber a Copa de 2014 deixaram de receber pessoas mais pobres, muitas delas negras.
Foi o caso do Maracanã: as obras eliminaram a chamada "geral", setor da arquibancada com ingressos mais baratos e que costumava abrigar grande número de negros.
"Veja como a modernização do futebol é perversa: a partir do momento em que os estádios foram repaginados e se tornaram mais bem cuidados, entendeu-se que eles não podiam mais ter o pobre", diz Vasconcellos.
Se há concordância entre os entrevistados quanto ao embranquecimento dos estádios e categorias de base, há divergências quanto ao alcance desse fenômeno entre as equipes profissionais.
Para Marcelo Medeiros Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, jovens negros de baixa renda continuam chegando aos clubes de futebol graças aos olheiros.
Ele diz que esses profissionais podem ter perdido espaço com o avanço das escolinhas de futebol, mas não desapareceram. "O olheiro, talvez inconscientemente, ainda olha para esse menino negro e acha que vai descobrir um novo Pelé, um novo Romário", afirma.
Crédito, Fifa
Seleção da França, citada pela filósofa Sueli Carneiro por abrigar grande número de atletas negros.
Paulo Cesar Vasconcellos também acha que a elitização nas categorias de base ainda não produz efeitos visíveis no futebol brasileiro profissional.
"Tanto é que o maior nome do futebol no mundo no momento é um jovem negro de família humilde chamado Vinicius Jr.", afirma o comentarista, referindo-se ao jogador brasileiro que se tornou um dos destaques do Real Madrid, da Espanha, e deverá estar na seleção brasileira na próxima Copa.
Vasconcellos avalia ainda que "por ora não há um processo de embranquecimento da seleção". "A maioria dos jogadores ainda vem de classes mais baixas e tem na profissão de jogador a salvação da família".
A possibilidade de ascender socialmente pelo futebol, aliás, é um elemento que distingue o futebol masculino do futebol feminino no quesito racial, diz Renata Mendonça, comentarista de futebol e cofundadora do Dibradoras, veículo que enfoca as mulheres do esporte.
Ex-jornalista da BBC, Mendonça diz que, como o futebol feminino nunca ofereceu boas perspectivas de carreira no Brasil, muitas atletas profissionais dependeram do apoio financeiro da família para permanecer no esporte.
E como negros são maioria entre os mais pobres, diz a comentarista, "é possível que muitas meninas negras tenham tido que abandonar o esporte por não terem condições de seguir bancando seu sonho".
Crédito, CBF
Seleção brasileira de futebol feminino; muitas atletas dependem do apoio financeiro da família para perseverar na carreira, diz comentarista
Já para o ex-jogador Grafite, a elitização das categorias de base já produz efeitos no futebol profissional e na própria seleção brasileira.
Presente na Copa de 2010, ele afirma que, "considerando o plantel geral, o número de negros vem diminuindo" na seleção, e "jogadores de pele clara vêm sendo predominantes".
O ex-jogador diz ainda que o tom de pele dos jogadores negros da seleção tem clareado ao longo das última décadas, algo que ele atribui à "miscigenação" da população brasileira no período.
Na seleção que venceu a Copa de 1970, por exemplo, havia vários negros retintos (de pele mais escura) – caso de Pelé, Zé Maria, Joel e Everaldo.
Hoje, negros com esse tom de pele se tornaram mais raros na seleção principal e na olímpica. Esta última, por abrigar em sua maioria jogadores com até 23 anos de idade, tende a indicar qual será a cara da seleção principal no futuro.
Crédito, AFP
Jogadores que representaram o Brasil nos últimos Jogos Olímpicos, em Tóquio, em 2021.
Para o jornalista esportivo Marcos Luca Valentim, um dos membros do Ubuntu Esporte Clube, podcast que busca trazer uma "visão afrocentrada" do esporte, quanto mais escuro é o tom da pele de uma pessoa no Brasil, "mais chances ela tem de sofrer racismo e de ter oportunidades negadas".
O fenômeno é conhecido entre pesquisadores e ativistas do movimento negro como "colorismo".
"Pessoas pretas retintas têm menos possibilidade de entrar nas categorias de base não porque os clubes não as queiram, mas porque, por este ser um problema estrutural, terão menos acesso ao transporte e a outras condições para chegar às peneiras", diz Valentim.
Mesmo que consigam entrar no esporte, essas pessoas tendem a ser mais discriminadas ao longo da carreira e receber apelidos pejorativos, segundo o jornalista.
Mas não só pretos retintos sofrem tratamento discriminatório no futebol brasileiro.
Já em 1964, o jornalista Mário Filho escreveu em seu clássico O Negro no Futebol Brasileiro que as duras críticas que três jogadores negros (Barbosa, Juvenal e Bigode) receberam após a derrota do Brasil na Copa de 1950 eram um sinal do racismo entre os brasileiros.
Marcelo Carvalho, do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, diz que é comum se atribuir o fracasso de um jogador negro "à questão da noite, da malandragem, das mulheres". Já a derrocada de jogadores brancos raramente é associada a essas causas, diz Carvalho.
E num momento em que há cada vez mais jogadores estrangeiros nos clubes brasileiros, Carvalho questiona por que há tão poucos atletas africanos no Brasil, ainda que eles tenham grande espaço nos clubes europeus. "A África manda jogadores para o mundo inteiro, menos para o Brasil", diz Carvalho.
Crédito, Getty Images
Jogador do Liverpool, o senegalês Sadio Mané (primeiro à esq.) é um dos vários atletas africanos que têm se destacado na Premier League, na Inglaterra.
Para Marcos Luca Valentim, do Ubuntu Esporte Clube, uma esfera do futebol brasileiro em que negros jamais entraram é a dos dirigentes de clubes e federações. Essa falta de negros no topo, segundo ele, tende a desencorajar atletas negros a protestar contra o racismo.
"Clubes que se comportem como empresas podem achar problemático ter atletas com atitudes contestatórias", diz o apresentador.
"Os negros proporcionam o show, mas quem gere o show são os brancos", afirma Valentim.
Paulo Cesar Vasconcellos também critica a ausência de negros na estrutura de comando do futebol brasileiro.
"Temos vários técnicos estrangeiros no futebol brasileiro, mas quantos técnicos negros temos na série A? Só um. E dirigentes? E médicos negros entrando em campo?", questiona.
"A estrutura é toda branca, e aos negros sempre restaram os postos de massagista, cozinheiro, faxineiro, roupeiro", afirma o comentarista.
"O futebol é um território no qual o negro é só pé de obra, nada mais."
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Nota de solidariedade à professora da rede municipal de Campo Bom após ataques racistas de alunos – CPERS

CPERS – Sindicato
CPERS – Sindicato dos Professores e Funcionários de escola do Estado do Rio Grande do Sul
3 de junho de 20223 de junho de 2022
O CPERS solidariza-se à educadora da rede municipal de Campo Bom, vítima de ataques racistas deferidos por alunos(as) em sala de aula
Após atos contínuos de racismo vindos de estudantes, a professora registrou um Boletim de Ocorrência denunciando o crime de injúria racial.
Um dos últimos atos praticados pelos estudantes consistia em imitar o som de macaco quando a educadora virava de costas.
Em entrevista ao Portal Geledés, a professora desabafou e disse já ter chegado ao seu limite. “Estou tentando me manter calma, mas como se a sociedade nos coloca para baixo? Sou educadora há 24 anos. Fiz concurso para professora e estou apta a trabalhar, mas não me permitem. Vivo isso. Estou muito acuada, no meu limite”.
É preciso que a escola busque, urgentemente, as providências necessárias em reparação ao ocorrido para que situações inadmissíveis como essa não se propaguem.
Torna-se imprescindível lembrar que a injúria racial está prevista no artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal, que estabelece a pena de reclusão de um a três anos e multa, além da pena correspondente à violência para quem cometê-la.
Em geral, o crime de injúria está associado ao uso de palavras depreciativas referentes à raça ou cor com a intenção de ofender a honra da vítima, que foi o que ocorreu diretamente com a professora.
O CPERS, através do Coletivo Estadual de Igualdade Racial e Combate ao Racismo, atua fortemente para impedir situações como a vivenciada pela professora.
“Repudiamos as atitudes racistas manifestadas contra a professora e reforçamos a importância da luta contra qualquer tipo de preconceito, principalmente o racial. Nas escolas públicas estaduais, o que mais se apresenta é a diversidade racial, de credo ou de gênero. Exigimos respeito às diferenças e ao papel do professor em sala de aula”, destaca o 2º vice-presidente do CPERS e diretor do Coletivo Estadual de Igualdade Racial e Combate ao Racismo, Edson Garcia.
A escola possui papel fundamental para a desconstrução do racismo, que além de ser criminoso, não pode ser tratado como uma pauta identitária, mas sim social. Somente assim, será possível enfrentarmos e assimilarmos este tão importante debate.
A luta de todas e todos deve ser por igualdade de oportunidades e de ponto de partida, fortalecendo o combate ao racismo e o exercício da democracia de fato e de direito.
Imagem destaque: CUT Goias

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