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Amamos este país que o governo envergonha: somos portugueses, escolhemos viver aqui, e um dia pensamos que errámos: devíamos ter saído logo ao início da idade adulta, imigrado sem regressar. E perguntamo-nos se será tarde de mais. Invocamos, o infelizmente clássico, «quem se mete com o PS, leva» para verificarmos que andamos a levar todos e andamos a levar muito e a troika já não está cá há tempo, e ao que parece, a austeridade também não – acabou há anos, dizem. Acabou? Quando?
O salário médio bruto de um português em 2021 foi, se incluirmos subsídios de férias e de Natal, de 1.361 euros. Repito, bruto. Se folhearmos as páginas de emprego dos jornais, vemos que as ofertas de trabalho para licenciados, rondam, infelizmente, estes valores ou menos. No restante, o salário mínimo, ou mais 100 euros, por exemplo, no turismo, são uma maioria dessas ofertas. A par, os portugueses têm a carga fiscal mais elevada dos últimos quase trinta anos.
Portugal tem o quarto salário médio mais baixo da União Europeia. Atrás de nós só a Eslováquia, a Hungria e a Grécia. Mas a nossa capital, Lisboa, é a terceira cidade mais cara do mundo para se viver, com uma renda média de habitação de 1.622 euros. Logo atrás de Roma e de Londres.
Ao que parece, no país dos salários mínimos, ou de 1.361 euros mensais quando tudo corre medianamente bem, é razoável que peçam por um T2 no concelho de Lisboa qualquer coisa entre os 350 mil e 1 milhão euros, numa média de 5.500 euros o metro quadrado. Dependendo, claro, da freguesia e do grau de adesão à realidade, da área, do estado de degradação da casa, e da desfaçatez, da ausência ou presença de elevadores, e sabe Deus do que mais. Porque a construção deficiente e os custos energéticos nem são levados em linha de conta. Muito menos questões já legisladas e tabeladas em cidades mais distantes deste pódio infernal, como Berlim, que interferem directa e automaticamente no valor do arrendamento, diminuindo-o, como por exemplo, obras no prédio ou construções adjacentes.
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Na terceira cidade mais cara do mundo para se viver, há apartamentos com marquises ilegais que passam por salas, e apartamentos «amplos» com dois quartos, sala e cozinha com 50 metros quadrados de área bruta. É razoável, parece, que a renda de um T1 atinja os 2000 euros. Ou pedir 19 euros por metro quadrado em Campo de Ourique e 24 na Misericórdia. Também parece que é razoável e legal a discriminação positiva de qualquer pensionista estrangeiro residente em Lisboa, ou em qualquer ponto do país: pagará apenas 10% de impostos sobre o rendimento. Um trabalhador estrangeiro residente pagará 20% sobre o rendimento. Em tudo com os mesmos direitos do que nós. Torna-se, portanto, mesmo muito razoável que decidam comprar ou alugar as casas que escapam aos fundos chineses e outros, para nelas viverem ou para as revenderem, depois de pintadas e remodeladas a toque de IKEA mas a preços de luxo.
O mercado imobiliário destinado à classe média portuguesa que ganha como se fora pobre e paga impostos como se fora ricaé, em Lisboa, todo um eufemismo de «penthouses» a caírem de podres, em quintos andares sem placa nem elevadores, em prédios húmidos, de escadas íngremes e paredes sujas. Mesmo assim, torna-se impossível a competição com, por exemplo, os mais pobres de entre os pensionistas franceses aqui residentes, com um salário mínimo de 1.600 euros mensais e a referida carga fiscal de 10%. Disse 1600 euros de salário mínimo, não de salário médio.
É insustentável. Vemos os amigos, os colegas, a saírem da cidade, um a um. Com amor e com desgosto. Equacionamos. Vale a pena tanto sacrifício? Uma amiga, doutorada, especialista respeitada na sua área, com mais de 20 anos de profissão, mora com o filho num T2, com 84 metros quadrados de área bruta, num quarto andar de um prédio dos anos 50, um forno no Verão e um gelo no Inverno, pelo qual paga 1400 euros mensais sem sequer ter direito ao uso do elevador cuja manutenção não é feita desde 2012. Também não consegue contactar o senhorio pois o prédio tem uma gestora/porteira que se encarrega ela mesma de «ir consertando» o elevador à espera de uma tragédia, ainda que limpar as escadas esteja abaixo da sua dignidade profissional. Esta amiga, que entregou um Atestado Multiusos à Segurança Social, por doença grave, sobe quatro andares a pé, com compras e sacos, miúdo a dormir ao colo, e tudo o mais que todos levamos para a casa que nos consome os rendimentos quase por inteiro. A Associação de Inquilinos não responde; para notificar a Câmara e pedir uma vistoria ao elevador é preciso que quem faz a denúncia pague; para contratar um advogado seria preciso que a renda da casa fosse, pelo menos, metade da que é. Mas ela paga impostos. Azar, como é portuguesa, não paga nem 10% nem 20%. Mesmo pagando tudo e mais alguma coisa, directa e indirectamente entre taxas e taxinhas, quando adoeceu, teve de se tratar no privado: entre as poupanças e o seguro de saúde, pôde fazê-lo para não esperar o tempo que a deixaria numa situação de ainda maior risco. Mas empréstimo para habitação, com a idade, a saúde, e o rendimento que tem, para mais divorciada e portuguesa, é que não. Ou melhor, sim, mas terá de ser para fora de Lisboa. Sugiro Penacova, no distrito de Coimbra, onde o metro quadrado ronda os 500 euros.
A autora escreve segundo a antiga ortografia
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