Origem social: um fator decisivo para a carreira na Alemanha – DW (Brasil)

Ascensão profissional é realidade distante no país europeu para quem vem de família carente e sem background acadêmico. No Dia da Diversidade, Alemanha se confronta com preconceitos invisíveis que moldam a sociedade.
Para quem trabalha duro, na Alemanha todas as portas estão abertas. Soa bem, mas infelizmente não corresponde à realidade. Seria preciso acrescentar “se vier da classe social certa”.
Com frequência, talento e disposição não bastam: é preciso também compreender os códigos ocultos das elites, saber como se comportar, vestir as roupas certas, ter os hobbies e o jeito de falar corretos, para que as portas dos andares da chefia se abram.
Em outras palavras: a origem socioeconômica é decisiva para determinar que chances acadêmicas e profissionais alguém tem e até que ponto é alvo de discriminação – e esta já começa cedo na Alemanha, em que o 31 de maio marca o Dia da Diversidade.
“Mais de 80% das crianças de famílias de background acadêmico vão para o gymnasium [escola de ensino médio que prepara para a universidade]. Entre as crianças de famílias de nível educacional mais baixo, a porcentagem não chega nem à metade”, relata a jornalista Konstantina Vassiliou-Enz, fundadora da firma de consultoria Diversity Kartell, que se engaja por mais diversidade nos meios de comunicação de massa.
Também a formação subsequente costuma estar relacionada ao grau de educação formal dos pais: assim, de 100 adolescentes nascido em meios acadêmicos, 79 entram para um curso universitário, contra apenas 27 de cada 100 das demais famílias.
Além do nível educacional dos pais, outros aspectos definem a origem social. Relevante é também o status socioeconômico – por exemplo, de que recursos financeiros a família dispõe, ou se tem emprego. No caso dos provenientes de classes sociais mais baixas, ser descendente de imigrantes, por exemplo, pode ser também um fator de discriminação.
“Para o êxito educacional na Alemanha, a renda e o nível de formação dos pais são especialmente decisivos, e é comum crianças descendentes de imigrantes virem de famílias de renda mais baixa”, explica Vassiliou-Enz. Ela própria cresceu numa família pobre e conseguiu subir na escala social, mas para muitos outros até a decisão de investir na própria formação já não é fácil.
É comum jovens de meios precários não contarem com o apoio dos pais quando têm problemas financeiros, sendo muitas vezes ainda obrigados a ajudar a família. Assim, não são todos que podem se permitir fazer um estágio não remunerado, diz a jornalista.
Os que vêm de classes sociais privilegiados muitas vezes contam com uma rede de contatos melhor para conseguir vagas de estágio cobiçadas. Além disso, decidir-se por um estudo universitário pode implicar assumir empréstimos para custeá-lo, o que representa mais um obstáculo para os menos abastados.
Em suma: “Quem vem de uma família pobre tem que correr riscos desproporcionalmente mais altos e se empenhar muito mais para subir na vida do que aqueles que nasceram na classe média ou na burguesia culta.” Vassiliou-Enz recorda que “não queria me dar ao luxo de fazer um curso superior”: pertencendo a uma família sem recursos, ela desejava primeiro ganhar seu próprio dinheiro, em vez de estudar e fazer dívidas.
A empreendedora Natalya Nepomnyashcha, cujos pais emigraram de Kiev para a Alemanha apresenta um quadro ainda menos promissor: “O meu caso é que os meus pais eram desempregados há muitos anos, para ser mais exata, desde meados dos anos 90. Assim, é óbvio que eles não tinham mais a menor autoconfiança. E isso se transmite aos filhos, que também têm a sensação de talvez não serem capazes de ir muito longe.”
Ela própria conseguiu subir na carreira, embora não em linha reta: ao crescer num foco de tensão social na Baviera, ela não foi admitida no gymnasium, apesar de ter boas notas, tendo que frequentar a realschule, que prepara para a formação profissional. Esta, ela obteve no Reino Unido, seguida por um mestrado.
Hoje, Nepomnyashcha trabalha para uma conceituada firma de consultoria de empresas. Paralelamente, fundou a organização Netzwerk Chancen, voltada a assistir gratuitamente jovens de classes mais baixas em sua ascensão social, através de coaching, mentoring, oficinas e ajuda na procura de emprego.
“É absolutamente elementar, em primeiro lugar, se libertar da ideia incutida de que não se é bom o suficiente, que nunca se vai ter um bom emprego”, comenta, com base em sua experiência pessoal. “É importante se conscientizar dos próprios talentos, dos próprios pontos fortes, de que empregos lhe dariam prazer.”
Para combater a discriminação devido à proveniência social, porém, não basta apoiar os afetados: também o outro lado precisa tirar certas pedras do caminho. Embora a maioria dificilmente admitiria que coloca em desvantagem os que vêm de outro meio social, estudos atestam uma tendência generalizada de dar preferência aos semelhantes, devido a preconceitos inconscientes.
Uma dificuldade adicional é o fato de essa discriminação socioeconômica ser menos visível do que a baseada na idade, cor da pele ou nacionalidade. Daí a importância de que os funcionários de instituições de ensino e de recursos humanos recebam treinamento nesse aspecto e questionem de maneira crítica o próprio modo de agir.
Isso já começa em ofertas de emprego, relata Nepomnyashcha. Sua organização recomenda que os responsáveis pelas escolhas atentem menos para o currículo dos candidatos do que para sua competência de fato. Pois quem almeja à ascensão social, em geral, não frequentou as universidades mais consagradas nem apresenta as notas mais altas, mas pode ser altamente talentoso.
Também o setor da mídia é considerado relativamente homogêneo e pouco diverso: em sua maioria, as redações são ocupadas por portadores de grau universitário. “Mas agora isso está mudando em algumas casas”, ressalva Vassiliou-Enz: para seus programas de trainee, as emissoras alemãs HR e SWR já não exigem nível universitário, aceitando também certificados de formação profissional.
Embora sendo incômodo, apostar na diversidade vale a pena para as empresas. Um estudo da consultora McKinsey – em que foram consultadas mais mil empresas de 15 países – mostrou que os prognósticos de escassez de mão de obra especializada na Alemanha poderiam se reduzir à metade através de uma maior variedade de pessoal. E, entre as firmas cuja presidência é etnicamente diversa, 36% apresentam lucros acima da média.

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