Com séculos de história, a comunidade negra no Iraque se sente excluída – Extra

Adnan Abdelrahman mostra os tambores que aprendeu a tocar aos 12 anos. No mosaico de comunidades e etnias que é o Iraque, sua minoria negra acumula séculos de história como guardiã da tradição musical, mas permanece excluída da sociedade. Localizada na região de Zubair, perto da cidade de Basra, no sul, a comunidade tem suas origens na África Oriental. Aqui, como em todas as aldeias remotas do Iraque, a pobreza e o atraso nos serviços públicos são evidentes em cada esquina, com ruas empoeiradas ladeadas por casas precárias de cimento.
Enquanto ativistas denunciam a marginalização da comunidade, falar de racismo ou discriminação ofende os moradores de Zubair, que preferem o eufemismo árabe "pele escura" à palavra negro. Aos 56 anos, Abdelrahman faz parte dos grupos de música popular que tornaram Zubair famoso em todo o Iraque e até na fronteira com o Kuwait, a apenas trinta quilômetros de distância.
"Em Zubair, não contamos mais o número de bandas", diz o músico, instalado em um colchão no chão de sua sala. "É uma profissão que herdamos. Se alguém morre, o filho toma o lugar para que a arte não desapareça", explica Abdelrahman, com pai percussionista e tio cantor.
Com darbukas, tambores e o daf (um grande tambor) feito de pele de cabra, os músicos animam os casamentos liderando a "zaffa", uma procissão que consiste em celebrar os noivos dançando e cantando.
Abdelrahman, que atua há quatro anos em uma "Associação Patrimonial" patrocinada pelo Ministério da Cultura, reconhece que a "maioria" dos artistas é negra, mas diz não ter percebido o racismo.
Mas há vários ativistas que formulam outro discurso. "Aqueles de pele escura são cidadãos de quinta classe, nem mesmo de segunda classe", lamenta Mayed al Khalidy, funcionário de uma companhia petrolífera em Basra.
O jovem de 30 anos clama por oportunidades de trabalho e moradia digna e denuncia a perda de escolaridade entre os jovens.
Também critica abusos verbais, generalizados até mesmo entre líderes religiosos, como o fato de a palavra "escravo" em árabe continuar sendo usada para designar os negros.
Historicamente, a minoria negra, de 250.000 a dois milhões de habitantes, segundo estimativas informais, tem ancestrais do Quênia, Etiópia ou Sudão, disse à AFP o historiador Ibrahim al Marashi.
Vieram como escravos para a região de Basra para realizar "o trabalho exaustivo de drenar as salinas". "Nos escritos históricos, a primeira menção à comunidade remonta a 869, quando se levantaram" na "rebelião Zanj".
Essa rebelião contra a dinastia árabe dos abássidas permitiu que os ex-escravos estabelecessem sua própria cidade por quinze anos, antes de serem derrotados.
Atualmente, Mayed al Khalidy está comprometido com a "discriminação positiva" aplicada neste país multiconfessional e multiétnico e pede a inclusão de sua comunidade no sistema de cotas que permite que minorias como cristãos ou yazidis escolham um representante no Parlamento.
"Para reivindicar direitos, é preciso estar perto de quem decide", justifica.
Embora se declare antissistema, é realista em um país onde um terço de seus 41 milhões de habitantes vive na pobreza e que é governado por partidos clientelistas, cujos deputados podem garantir empregos públicos.
Em um sinal de mudança tímida, a primeira rede de informação estatal tem há mais de um ano uma jovem apresentadora negra, Randa Abdel Aziz, que agora recusa entrevistas para fugir dos holofotes que atraiu com sua nomeação.
Em seu site, a ONG internacional Minority Rights Group evoca "taxas desproporcionalmente altas de analfabetismo e desemprego" em uma comunidade principalmente dedicada ao trabalho doméstico e operários.
"A discriminação é vista em todos os níveis", diz Saad Salloum, especialista em questões de diversidade religiosa e étnica no Iraque.
"Politicamente, eles não têm representação. Socialmente, alguns estereótipos permanecem enraizados na cultura dominante. Economicamente, a maioria vive abaixo da linha da pobreza", resume.
Em 2013, Yalal Ziyab, fundador da primeira associação para a defesa dos direitos desta minoria, foi assassinado logo após as eleições locais em Basra.
"Há um longo caminho a percorrer para alcançar a igualdade para esta minoria e todas as outras", diz Salloum.

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