Cinema: O desejo feminino no banco dos réus – Outras Palavras

Com sarcasmo e crítica feroz ao neoliberalismo, Má sorte no sexo é um mosaico dos absurdos do mundo contemporâneo. No centro, uma professora em julgamento kafkiano. O crime: ter feito sexo livre e subversivo, cujo vídeo vazou na internet
Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles
Pode um único filme condensar em si toda a loucura e o absurdo do mundo contemporâneo? Provavelmente não, mas o romeno Má sorte no sexo ou Pornô acidental, de Radu Jude, chega bem perto disso. O filme chega aos cinemas brasileiros depois de ter vencido uma porção de prêmios, entre eles o Urso de Ouro no festival de Berlim do ano passado.
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A combinação de invasão de privacidade, superexposição na internet e moralismo retrógrado está no centro desse turbilhão, mas ele envolve também fake news, xenofobia, racismo, violência de gênero, antissemitismo, desigualdade social, individualismo exacerbado, confusão entre público e privado, negacionismo científico e caos urbano.
Tudo isso vem à tona na trajetória acidentada (e acidental) de Emilia Colibiu (Katia Pascariu), professora de história em Bucareste, depois que um vídeo em que ela aparece fazendo sexo selvagem com o marido vaza na internet e chega aos olhos e ouvidos de professores e pais de alunos do colégio onde leciona.
Essa situação inicial, potencialmente trágica, potencialmente cômica, é desenvolvida com criatividade e ousadia pelo diretor Radu Jude. Seu mérito maior, a meu ver, é o de incorporar na própria forma, na textura mesma de seu filme, o aparente caos de nossa época, mas sem perder a coerência e a visada crítica. O que cimenta o conjunto é o sarcasmo, que perpassa toda a narrativa e explode sem freios em seus três finais alternativos.
As primeiras imagens – cenas de sexo explícito e palavreado obsceno de um casal na intimidade – já colocam o espectador em posição de espanto e atenção. Em seguida acompanhamos Emilia em seu périplo pela cidade, na tentativa de impedir ou minimizar o desastre produzido pelo vazamento das mesmas imagens na internet.
O modo como Jude filma esse deslocamento da protagonista pelas ruas da metrópole é de uma sagacidade especificamente cinematográfica. Emilia é mostrada sempre a uma distância média, com uma porção de coisas e objetos entre ela e a câmera. Esta, por vezes, parece ocasionalmente perder a personagem de vista, detendo-se em fachadas de lojas, outdoors e pequenos incidentes urbanos, antes de reencontrá-la um pouco adiante. É como se a protagonista fosse tragada pelo mundo ao seu redor.
O percurso de Emilia, filmado assim, é revelador das tensões e fraturas de nossa época. Brigas de trânsito, conflitos de classe, manifestações de racismo, manipulação midiática, deterioração urbana, tudo isso é mostrado como que por acaso. No aparente naturalismo documental dessas sequências está embutida toda uma visão crítica da sociedade ferozmente neoliberal da Europa contemporânea.
Mas a ousadia maior de Radu Jude vem em seguida, num bloco intermediário que, em princípio, parece não ter nada a ver com o drama pessoal da professora. Antes de voltar à história dela, na assembleia de pais e professores que selará seu destino no colégio, o filme nos lança uma colagem frenética de materiais díspares, de trechos de cinejornais a desenhos animados, de home movies a memes de internet, abordando de forma irônica e anárquica os temas mais variados: nacionalismo, pornografia, racismo, sexismo, poluição, violência, consumo, guerras.
Esse procedimento, digamos, caleidoscópico mimetiza o modo de apreensão da realidade propiciado pela internet e pelas redes sociais, com sua algaravia de vozes, assuntos e abordagens.
É devidamente aturdido e desconcertado por uma saturação de informações e estímulos sensoriais que o espectador entra na última parte do filme, dedicada à inquisição da protagonista, transformada numa espécie de Joseph K. de nosso tempo. O crime imperdoável de Emilia é ter feito sexo livre e prazeroso com seu homem. É o desejo feminino, no fim das contas, que está no banco dos réus.
Está em cartaz no IMS Paulista e no IMS Rio uma bela obra “renascida das cinzas”: Amigos de risco, longa-metragem de estreia do pernambucano Daniel Bandeira. Realizada em 2007 e exibida em alguns festivais, a fita teve em seguida sua única cópia em 35 milímetros extraviada por uma companhia aérea e desde então seus realizadores se empenharam numa batalha ao mesmo tempo jurídica e técnica para salvar o filme, que só agora, quinze anos depois, chega aos cinemas.
O enredo é simples, mas com um desenvolvimento surpreendente: o malandro Joca (Irandhir Santos) está de volta ao Recife depois de uma temporada “na moita”, fugindo da lei e de credores. Para comemorar o retorno, ele chama dois velhos amigos: o garçom Nelsão (Paulo Dias) e o balconista de gráfica Benito (Rodrigo Riszla). Juntos, os três viverão uma longa noite de gandaia, bebedeira e conversas, culminando numa overdose de cocaína de um deles. A farra se converte então numa acidentada odisseia pela cidade para buscar socorro e, ao mesmo tempo, driblar a polícia.
É admirável o equilíbrio encontrado por Daniel Bandeira entre o desenho psicológico dos personagens e o contexto urbano em que estão inseridos. É ao mesmo tempo um conto moral e uma crônica social, em que a cidade do Recife entra por todos os lados. De quebra, traz a primeira grande atuação do fabuloso Irandhir Santos, que até então só tinha feito alguns pequenos papéis.
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