Onde anda o dicionário da deputada Rita Matias? – Observador

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Dizer que a licença menstrual não deve existir é o mesmo que acreditar que não deve haver licença de maternidade porque faz com que as mulheres ganhem menos ou vejam os seus contratos não renovados.
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Mais uma vez a deputada do Chega, Rita Matias, mostrou ao país que não percebe os conceitos de feminismo e de desigualdade entre homens e mulheres, apesar de o seu partido e ela mesma a apresentarem como defensora e representante das mulheres por ser a deputada feminina mais nova no Parlamento.
A proposta da criação de uma licença menstrual de três dias foi criticada por Rita Matias como “mais um fator de discriminação” para as mulheres, contudo, além de não saber o conceito de feminismo, a deputada parece também não entender o conceito de discriminação. Segunda ela, tal proposta iria discriminar ainda mais as mulheres e provocaria o aumento da diferença salarial entre homens e mulheres. Honestamente, não sei o que me choca mais: ignorar o facto do quão incapacitante conseguem ser as dores menstruais, ou achar que reconhecer diferenças biológicas é discriminatório.
Rita Matias continua a fazer aquilo que fez quando foi eleita para o Parlamento. Escolhe conceitos-chave e depois dá-lhes o significado que bem entende. Começando pela definição de feminismo, que parece ser o conceito base em falta nas suas notas, ao contrário daquilo que ela acredita ser o feminismo (mulheres que atacam homens ou algo do género), segundo o Infopédia, dicionário online da Porto Editora, o feminismo é definido como “doutrina que advoga a defesa dos direitos das mulheres, com base no princípio da igualdade de direitos e de oportunidades entre sexos”. E, ao longo das décadas, o feminismo tem estendido a sua luta por igualdade para lá das diferenças sociais entre homens e mulheres e lutado por igualdade para outras identidades que também sofrem discriminações com base no preconceito. Por outras palavras, o feminismo defende que o homem e a mulher são diferentes e possuem diversas características que o outro sexo não possui, contudo, essas diferenças não são suficientes para criar diferenças sociais. Somos todos diferentes, mas essas diferenças não são razões lógicas ou suficientes para criar distinções em termos de acesso e vida em sociedade. Se uma pessoa disser que acredita na igualdade (em geral, ou mais especificamente na igualdade de género) essa pessoa é automaticamente feminista. É como dizer que se acredita em Deus, mas dizer que não é crente. Um automaticamente força o outro.
Portanto, uma licença menstrual não cria desigualdades como a deputada acha. Inversamente, uma licença menstrual reconhece que certas pessoas passam por uma condição física que muitas vezes obriga pessoas a abandonar aulas, a ter de ir a uma urgência hospitalar, entre muitas outras situações e efeitos secundários. Agora imaginem o desconforto de se ser forçado a permanecer numa secretária, ou outro local, o resto do dia enquanto se sofre. Reconhecer que alguém sofre disto não é discriminar quem não sofre. Isso é o mesmo que dizer: como os homens não podem engravidar e dar à luz, então vamos proibir as mulheres de o poderem fazer; ou, vamos proibir baixas médicas por uma específica doença ou condição porque quem não sofre dessa doença ou condição não pode usufruir da baixa.
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Rita Matias também mencionou que uma licença menstrual vai “apenas aumentar o fosso salarial entre as mulheres”. Contudo, o problema da diferença salarial persiste, não por causa de uma licença menstrual, mas porque a sociedade continua a ignorar que o machismo é um problema que tem de ser resolvido de raiz. Dizer que a licença menstrual não deve existir é o mesmo que acreditar que, nesse caso, não deve haver licença de maternidade porque faz com que as mulheres ganhem menos ou vejam os seus contratos não renovados. É defender que as mulheres devem continuar a sofrer independentemente das injustiças que caem sobre elas e deixar impunes todos aqueles que continuam a alimentar um sistema e uma sociedade machista e discriminatória.
Gostava também de acrescentar que a deputada claramente não consegue sentir empatia com a ideia de uma licença menstrual porque provavelmente não sofre como algumas de nós sofremos. Uma pessoa que sofra de fortes dores menstruais nunca usaria este tipo de argumentos contra a ideia de uma licença menstrual. Mas fico genuinamente feliz que não saiba o que estas dores são, porque, por experiência pessoal, ninguém merece sentir que tem um buraco negro dentro do ventre, e sentir a culpa de não conseguir sequer estar sentada para, por exemplo, jantar em família, porque não tem uma única posição em que se sinta confortável.
Querida Rita Matias, temos a praticamente a mesma idade por isso espero que não te importes que te trate por tu. Escolhe outra luta. Como uma jovem mulher feminista que integrou movimentos e grupos feministas, ouvir-te a falar de feminismo é como ver um peixe a tentar andar. Genuinamente dói, porque manchas o trabalho que muitos de nós fazemos diariamente para tornar a sociedade mais justa. Adorava dizer que este artigo é apenas a minha opinião, mas é mesmo aquilo que são considerados os factos e as bases da luta feminista.
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