Assembleia Mundial da Saúde propõe novo modelo à OMS – Combate Racismo Ambiental

Encerrado neste final de semana, evento debateu modelo de financiamento para uma Organização Mundial da Saúde (OMS) mais robusta, o nó central de uma rede intercontinental – onde a nossa Fiocruz construiu papel de destaque
Paula Reges em entrevista a Gabriela Leite, em Outra Saúde
Realizada anualmente pela OMS, terminou no último sábado (28/05) a 75ª Assembleia Mundial de Saúde. Teve lugar em Genebra, na Suíça, e trouxe propostas ousadas: a OMS pretende articular um modelo mais ágil e distribuído do que o atual, uma rede intercontinental de saúde que permitirá maior colaboração entre órgãos nacionais e sociedade civil. A Fiocruz já tem lugar de destaque nesta rede, principalmente no combate a doenças emergentes.
A proposta de financiamento da empreitada é ousada e depende de um consórcio de vários países – que agora precisam caminhar para além do campo das promessas. 
Paula Reges, infectologista no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI-Fiocruz), foi delegada brasileira no evento e fez um balanço da assembleia em entrevista ao Outra Saúde.
Na visão de Paula, o debate mais importante é sobre o financiamento. Com a pandemia, o mundo teve uma demonstração histórica da importância de ações coordenadas para a contenção de doenças – amplamente protagonizada pela OMS. Está evidente a necessidade de financiar projetos encabeçados pela organização, resta saber quais promessas serão cumpridas. “A proposta de expansão da colaboração dos países para o seu financiamento foi aprovada – o que é um passo importante para a independência da organização. Tedros Adhanom, seu diretor, declarou que se os países querem essa OMS mais robusta, têm que ajudar a construí-la”, afirmou a infectologista.
Paula também refletiu sobre os rumos da Covax, a iniciativa da OMS para organizar a doação de países do norte global e farmacêuticas a países do sul. Elencou alguns projetos futuros que foram acordados durante o evento. E celebrou o papel global sustentado pela Fiocruz – não apenas para os países do continente, mas como um parceiro estratégico da OMS. A ideia, segundo ela, é que a parceria continue a se expandir ainda mais.
Você poderia fazer um balanço geral da Assembleia?
Foi uma boa Assembleia, no geral. Foi muito importante podermos retornar ao encontro pessoal. Criou-se novamente um espaço maior de diplomacia, de discussão, de contato, que facilita firmar acordos, conversas bilaterais, propostas de trabalho, de inovação. Acho que esse é sempre o ponto mais importante: conseguir reunir não só os representantes dos países, mas as organizações da sociedade civil. É um espaço de confluência de ideias e de propostas. 
A covid continua ocupando um papel central, sobretudo quando se fala sobre movimentações financeiras. Um dos questionamentos que sempre são trazidos é como vai se dar um financiamento sustentável da OMS. A proposta de expansão da colaboração dos países para o seu financiamento foi aprovada – o que é um passo importante para dar maior independência e mais recursos para a organização. O próprio diretor, Tedros Adhanom, declarou que se os países querem essa OMS mais robusta, têm que ajudar a construí-la. 
As discussões sobre financiamento sustentável, sobretudo no preparo e respostas a situações de emergência de saúde, é uma pauta que mostrou-se muito mais importante que em assembleias anteriores à covid. Os países perceberam a real necessidade de investimento em recursos humanos e materiais. Acredito que tudo isso passe pelo financiamento à pesquisa e desenvolvimento de soluções sustentáveis.
No evento, foi apresentada uma nova proposta de mecanismo de financiamento para projetos de pesquisa e desenvolvimento dentro das mais diferentes áreas. É também algo que surge com vistas ao contexto da covid, já se ampliando para situações emergentes, reemergentes, doenças epidêmicas ou com potencial pandêmico. Isso também é algo que vai continuar chamando a atenção nos próximos anos. Porque o futuro da organização depende da forma com que esses financiamentos são acordados. 
Durante a Assembleia, discutiu-se a situação da Covax, iniciativa da OMS para distribuir vacinas a países de renda baixa e média? Qual a avaliação da organização sobre ela?
Isso costuma ser mais debatido em acordos bilaterais e conjuntos menores do que propriamente na Assembleia em si. Levantaram-se muitas vezes esse questionamento: a Covax funcionou ou não? Ainda estão sendo estudados os seus reais impactos e dos outros mecanismos de compartilhamento de tecnologia e vacinas. 
Em uma reunião no Mercosul, por exemplo, em que estavam presentes Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil, tratou-se muito do atraso para a entrega das vacinas pela Covax e o quanto isso impactou direta ou indiretamente cada país. O Brasil é um produtor de vacinas, com dependência menor da OMS, diferente de Uruguai e Argentina, por exemplo, onde a relevância da Covax foi maior.
Apesar de muitos questionarem, ainda não foi feita uma análise ampla que responda o quanto a Covax funcionou. A ideia dos mecanismos de financiamento propostos no encontro é financiar iniciativas semelhantes à Covax, mas também incentivar e financiar iniciativas como Gavi (The Vaccine Alliance) e a Cepi (Coalition for Epidemic Preparedness Innovations), organizações que fornecem insumos imunobiológicos e tecnologia na ponta. 
Quais as novas iniciativas da OMS para possíveis futuras pandemias?
A OMS já trabalha com a ideia da doença X, com a preocupação em relação ao que é necessário ser feito. Isso também foi discutido durante a Assembleia. E, de fato, bato nessa tecla porque o financiamento é realmente a chave para tudo. Não é possível haver pesquisa e desenvolvimento se não houver financiamento. 
A Assembleia também reforçou a importância dos mecanismos de vigilância – e aqui vigilância sobretudo no aspecto de one health. A necessidade de compartilhamento dos dados em redes intercontinentais de saúde. 
O maior esforço para conter outras doenças emergentes deve ser a criação de uma articulação maior entre as diferentes organizações de saúde ao redor do mundo. 
Essa rede poderia estar articulada em torno da vigilância, do preparo e da resposta eficiente. Com a produção de medicamentos, de vacinas, de testes diagnósticos, sobretudo de qualificação profissional. 
Qual foi o papel da Fiocruz na Assembleia? Que novos acordos internacionais podem ser firmados, daqui para frente?
É muito bacana ver o quanto a Fiocruz é respeitada e bem posicionada. Justamente por essa nossa atuação tão holística, com preocupação social, atuação direta na assistência, produção de pesquisa, produção de medicamento, de vacina. Tudo isso abre muitas possibilidades de diálogo. A Fiocruz é realmente um ator global. 
Dos pontos principais que vemos tendo destaque na Fiocruz é o hub de produção de vacinas de mRNA e a possibilidade que se abre de desenvolvimento não só de componentes vacinais como também de componentes para tratamento de outras doenças – por exemplo, doenças e terapias oncológicas – e tudo isso parece ser muito promissor.
Mas sempre há uma colaboração muito grande em trabalho, não só com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), mas também diretamente com a OMS. É muito bacana ver o quanto a Fiocruz é importante também para essas articulações, nas Américas e no mundo. Sempre se reforça a possibilidade de cooperação com a África de língua portuguesa – a Fiocruz tem um escritório em Moçambique. 
A ideia é que essas parcerias sejam exploradas ainda mais, para que a Fiocruz consiga se tornar um centro de colaboração diretamente da OMS, sobretudo na resposta a doenças emergentes. Acredito que, neste momento de fragilidade, é uma das coisas mais importantes.



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