Como os Estados Unidos normalizam o racismo através do estereótipo da melancia – Meon

Escrito por Mariana Pera de Almeida
30 MAI 2022 – 16H58
Na Europa, jogar bananas em jogadores pretos de futebol tem sido um hábito cada vez mais comum, uma vez que isso se tornou uma forma de racistas demonstrarem seu desprezo ao inferiorizá-los e tratá-los como macacos. Já nos Estados Unidos, outra fruta é utilizada para demonstrar uma mensagem semelhante aos afro-estadunidenses: a melancia. Mas, afinal, quando e como essa ligação racista entre os pretos e a melancia começou a existir?

A melancia é uma fruta rasteira, originária do sul da África, e, por isso, não existia na América antes do período de escravidão, sendo trazida pelos pretos escravizados, que usufruiam do fruto. Após a abolição da escravatura, a melancia passou a ser uma das poucas frutas que lhes eram permitidas cultivar, podendo, assim, ter algum sustento através da venda.

Logo, ela se tornou um símbolo de liberdade para os pretos, e, claro, isso não agradou aos brancos, que, como resposta, destruíram o simbolismo invertendo o que representava emancipação e liberdade em imundice e preguiça. Assim, o hábito de comer melancia foi associado com a negritude, dando ênfase no modo como comiam o fruto, que, de acordo com a elite, se caracterizava por “comer com as mãos, se lambuzando e deixando a cara cheia de caldo”. 

Essa ênfase era usada para desqualificar os modos dos pretos e colocá-los como animais incivilizados, além de destratá-los como seres humanos, afinal, “se eles tinham suas melancias e seu sossego, não precisariam de mais nada e de nenhum direito”.

Assim, a melancia foi amplamente usada no repertório estereotipado e racista, de modo que surgiram produtos, caricaturas e representações em que o preto era aquele “maluco por melancia e que seria capaz de abandonar qualquer coisa caso jogasse uma na frente dele”.

A polêmica com a Walt Disney Studios

Somente a partir de 1980 se tornou senso comum que colocar pretos comendo melancia na mídia era algo politicamente incorreto, e, em caso de insistência, a empresa seria alvo de processos e até mesmo boicotes.

Portanto, a Disney sempre foi alvo de críticas pela ausência de personagens pretos em suas animações, situação que só foi mudar em 2009, quando o estúdio lançou o filme “A Princesa e o Sapo”, contando com a primeira princesa preta de suas franquias: Tiana. O filme foi um sucesso de bilheteria, contabilizando 271 milhões de dólares arrecadados, e foge do esquema de princesa em perigo, mostrando uma mulher trabalhadora e que corre atrás de seus sonhos — apesar de, em 70% do filme, ela estar em formato de sapo, “mascarando” sua cor.

Mas, afinal, todo sucesso tem uma polêmica evidente. Para sua campanha de marketing, a empresa decidiu lançar uma linha de doces em que cada fruta representaria uma “Princesa Disney”, franquia de mídia que pertence à Walt Disney Company. O grande problema teria sido a distribuição de sabores por cada princesa, visto que Tiana representou justamente o sabor de melancia, enquanto Aurora (Bela Adormecida) recebeu o sabor de baunilha, condimento extremamente caro e acessível durante muito tempo somente à realeza, que era branca. 

Outro caso polêmico envolvendo a questão foi uma caricatura editorial do Boston Herald destinada a satirizar o lapso de segurança da Casa Branca no governo de Obama. Ela desencadeou uma tempestade de protestos e acusações de racismo que levaram a um pedido de desculpas imediato do jornal.

A ilustração mostra o presidente Barack Obama em um banheiro escovando os dentes enquanto um homem na banheira pergunta “Você já experimentou o novo creme dental com sabor de melancia?”. 

Obama também foi alvo de diversos ataques na internet durante sua candidatura, em que surgiram inúmeros “memes” para ofendê-lo com o estereótipo da melancia.
 

Além da melancia, alguns outros alimentos são ligados de modo pejorativo aos pretos e à sua cultura e, basicamente, todos eles têm uma origem parecida. Vamos conferir dois deles:

1- Refrigerante de uva

O refrigerante de uva era uma bebida consumida nos guetos dos Estados Unidos, por ser uma bebida bem mais barata que todos os outros refrigerantes e bem mais simples, como um Dolly de uva com o triplo de açúcar e custando 25 centavos. Por ser barata e muito açucarada, sua popularidade cresceu especialmente entre as crianças e, assim, se tornou um estereótipo racial ofensivo muito rápido.

2- Frango Frito

O frango frito é um prato típico do sul dos EUA, caracterizado pela região mais racista dos Estados Unidos, na qual as mammies eram especialistas em fazer pratos com frango, carne abundante na região, e todos admiravam suas receitas secretas.

A conotação ofensiva se popularizou com o filme The Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação) de D. W. Griffith . Em uma cena do filme é mostrada a Assembleia Legislativa após os pretos terem conseguido os direitos para serem eleitos. Todas as pessoas brancas se comportam conforme o protocolo que o local exige, porém os homens pretos não:  eles bebem durante a sessão, colocam o pé descalço na mesa, comportam-se sem etiqueta alguma.

É nessa cena com fins cômicos que um dos legisladores pretos puxa um balde e começa a devorar um frango frito de um modo extremamente rude e caricato. O objetivo da cena seria destacar como os pretos “não têm modos para lidar com a política” e que terem permitido que eles adentrassem naquele espaço foi um total equívoco. 

Daí para frente, o estereótipo se fortaleceu e ainda deu brecha para que eventos de caráter extremamente ofensivo à comunidade preta continuassem sendo feitas  —  como por exemplo, a inauguração, em 1925, de um restaurante especializado em frango frito: o Coon Chicken Inn. O restaurante foi alvo de protestos de grupos como o histórico NAACP (The National Association for the Advancement of Colored People, ou A Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor) desde os anos 1930, até ter sua última unidade finalmente ser fechada em 1957.

Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.  

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