Chega de não dizer não ao Chega – Diário de Notícias

O novo líder do PSD recusou responder à pergunta da repórter da SIC sobre o relacionamento futuro do PSD com o partido de André Ventura, alegando que o Chega não foi tema de campanha. A verdade é que foi, não só porque o seu adversário excluiu liminarmente qualquer negociação com “forças populistas, racistas e xenófobas”, mas também porque Luís Montenegro, em defesa do partido como “casa-mãe do espaço não-socialista”, referindo-se especificamente ao Chega, avisou que “não será cúmplice da perpetuação do PS no poder”.
O PSD parece não ter reparado que, nas últimas legislativas, perante a mesma ambiguidade, os eleitores não quiseram arriscar ter a extrema-direita numa solução governativa e deram uma maioria absoluta ao Partido Socialista. Isto significa que, para lá da questão dos princípios, existe uma questão tática que, sendo mal gerida, prejudica a recuperação eleitoral do PSD.
Sendo que a questão da xenofobia e racismo é uma questão de princípio que nenhum social-democrata deveria admitir como tolerável, não deixa de ser impressionante que um líder político não consiga perceber a dimensão da rejeição eleitoral que existe no eleitorado moderado em relação a partidos que vendem a alma ao diabo. A ambiguidade de Rui Rio é uma herança que o futuro líder deveria recusar, mais que não seja para evitar que o Partido Socialista vá de maioria absoluta em maioria absoluta.
A ambiguidade de Rui Rio é uma herança que o futuro líder deveria recusar, mais que não seja para evitar que o Partido Socialista vá de maioria absoluta em maioria absoluta.
Custa assim tanto a acreditar que há imensos eleitores disponíveis para votar PSD, mas que não o farão se souberem que daí pode resultar uma maioria para governar com o apoio do Chega? E que, de igual forma, não há um só eleitor que esteja desejoso de votar no PSD, mas que só o fará se souber que a extrema-direita fará parte dessa aliança?
Nesta mudança de liderança há, no entanto, alterações que serão positivas para a clarificação da vida política. Com o PS a gerir uma maioria absoluta que pretende colecionar pins para pôr na lapela, é bom que a oposição passe a ser feita sem salamaleques. Mas a oposição tem de ser igualmente uma alternativa credível, feita com uma ideia para o país que vá para lá do combate ao empobrecimento – frase feita sem sentido nenhum, num momento em que o país cresce acima da média europeia.
Há um problema de dívida pública para resolver, uma economia de salários baixos que não é viável, um Estado de cobrança máxima e eficácia mínima, um país que precisa de aproveitar ao máximo a geração mais bem preparada da sua história. Nada disto se consegue em aliança com o Chega, tudo isto só será possível com um cordão sanitário à volta do partido de André Ventura.

Jornalista

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