Contra a discriminação e o ódio – Sete Margens

| 30 Jan 2022
Martin Luther King a discursar. Foto © Direitos Reservados
 
A 30 de Janeiro, há 66 anos, uma bomba destruía uma parte da casa de uma das mais influentes personalidades do século XX. “Explosão abala residência do líder do boicote aos autocarros”, dizia o título principal do jornal The Montgomery Advertiser de 31 de Janeiro de 1956. A notícia referia que, no dia anterior, a casa de Martin Luther King em Montgomery, no Alabama, tinha sido atacada à bomba. Dentro de casa, estavam a mulher de Martin Luther King, Coretta Scott, e a filha de sete semanas, Yolanda. A fachada foi danificada, mas ninguém ficou ferido.
As notícias, que circularam rapidamente por todos os Estados Unidos da América, deram conta de que, quando soube do ataque, após ter falado a uma vasta plateia congregada num templo, Martin Luther King, pastor da Igreja Baptista de Montgomery, correu para casa apreensivo. Temia pela vida da família. Quando chegou, na rua já o aguardava uma multidão, havendo gente de armas na mão, preparada para o defender. Depois de abraçar a mulher e a filha, Martin Luther King dirigiu-se às pessoas que continuavam a acorrer para o apoiar. Do que disse, sobressaiu o apelo: “Se têm armas, levem-nas para casa; se não as tiverem, por favor, não as procurem. Não podemos resolver este problema com violência. Devemos enfrentar a violência com a não-violência”.
A bomba não era um incidente isolado. Outros episódios de intimidação tinham já visado o reverendo Martin Luther King por causa do papel que desempenhava então na luta contra a discriminação racial, particularmente a que ocorria nos autocarros. O racismo ditava que, neles, os negros apenas pudessem ocupar alguns lugares traseiros e, mesmo assim, teriam de os ceder se os brancos não tivessem onde se sentar.
No dia 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma mulher negra, havia sido intimada a levantar-se e dar o assento a um branco. Mas ela não se levantou. A recusa alvoroçaria a cidade e o país. O condutor parou e chamou a polícia, que a deteve. Rosa Parks não ficou na prisão a aguardar o julgamento porque outro negro, Edgar Nixon, pagou a fiança. Poucos dias depois, começava o boicote aos autocarros, que Martin Luther King foi instado a liderar. O boicote duraria quase um ano. Findou quando, por decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, terminou oficialmente a segregação racial nos autocarros de Montgomery.
Em Força para amar, Martin Luther King legou um inesquecível testemunho do que representaram esses dias que o colocaram na primeira linha do combate contra a discriminação racial: “O telefone tocou e disse uma voz encolerizada: ‘Escuta, negro, estamos fartos de ti. Antes da próxima semana, estarás arrependido de teres vindo a Montgomery…’ Tinha atingido o ponto de saturação… Estava quase a abandonar… Havia decidido entregar o problema a Deus… Mas nesse momento tive consciência da presença divina como nunca. Era como se pudesse ouvir a tranquilidade e segurança de uma voz interior: ‘De pé para a justiça. De pé para a verdade! Deus estará sempre a teu lado’. A minha incerteza desapareceu e estarei pronto para a luta.”
Martin Luther King foi um admirável líder espiritual, defensor dos direitos cívicos, um activista adepto da não-violência, reconhecido com o Prémio Nobel da Paz em 1964. No dia 4 de Abril de 1968, foi assassinado por um segregacionista branco em Memphis, no Tennessee. Também o Mahatma Gandhi, em cujo exemplo Martin Luther King se inspirou, foi assassinado. Um fanático hindu matou-o no dia 30 de janeiro de 1948. Passam neste domingo 74 anos. Os que sonharam e lutam por um mundo mais fraterno, mais justo e mais livre tiveram contra si fanáticos perigosos, mas deixaram um poderoso incentivo a que o combate contra a discriminação e o ódio não enfraqueça.
A última palavra não pertence aos violentos.
 
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