75º Festival de Cannes | 'RMN': A Vida dos Outros | MHD – Magazine.HD

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O realizador romeno Cristian Mungiu regressou à Competição com ‘R.M.N.’ um ‘filme-radiografia’ que evoca a aceitação ou não dos outros, dos estrangeiros-imigrantes num microcosmos, altamente codificado e desafiante de uma pequena aldeia da Transilvânia. 
Seis anos depois de ganhar o Prémio de Realização por O Exame (2016) e quinze depois da Palma de Ouro, por ‘4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias’ (2007) — o tempo passa muito rápido — o cineasta romeno Cristian Mungiu, regressou à Competição de Cannes com ‘R.M.N.’. A sua nova obra é até agora um dos filmes mais marcantes a concurso e mostra-nos a forma como os membros de uma comunidade nacional, se relacionam com outra comunidade estrangeira, numa pequena aldeia da Transilvânia, onde vivem romenos, húngaros e alemães. Usando este microcosmo, o filme tenta espelhar e generalizar para o mundo de hoje e para muitos países europeus, esse permanente sufoco de acontecimentos e notícias marcadas pela intolerância, xenofobia, mas ora também pela hipocrisia do politicamente correcto. ‘R.M.N.’ é um filme que nos mostra igualmente como os seres humanos são vulneráveis e apenas um elemento no meio deste mundo complexo e por vezes efémero.

O filme, confronta efectivamente o quanto está a tornar-se sombria e perigosa, essa regressão  civilizacional e populista e o aumento da intolerância, no coração da Europa. E tudo começa com uma cabeçada que Matthias (Marin Grigore), — um trabalhador romeno, de uma linha de abate de ovelhas, imigrado na Alemanha — dá a um colega. Matias é um tipo grande e seu tamanho e forma de rosto faz lembrar, um pouco um urso pardo, uma espécie animal, também em extinção nas florestas da Europa e que simbolicamente aparece, no final do filme. Mattias é chamado de ‘cigano sujo’ pelo um colega e ‘espeta-lhe’ uma cabeçada, que atira o insultador ao chão e contra uma porta quebrando o vidro. Matthias ‘pira-se’, atravessa a fronteira e volta para sua aldeia na Transilvânia, a região talvez mais multi-étnica da Roménia, onde romenos, húngaros, alemães, ciganos e alguns trabalhadores imigrantes não-europeus convivem, não sem conflitos ou brigas mesmo.
A base do filme leva-nos efectivamente a uma região desfavorecida, onde a competição entre nacionalidades, significa igualmente empobrecimento da economia e desemprego. Mas Matthias tem também os seus problemas familiares, que resultam dessa situação. O filme, entrelaça assim duas linhas narrativas, — uma individual e outra mais geral — para tecer um trama complexa e mais abrangente, mas muito eficaz, tanto do ponto de vista da realização, como do interesse do espectador pelo que se está a passar: por uma lado temos Matthias, lutando contra a perda de amor pela sua esposa legítima; tentando entender o silêncio do seu filho pequeno Radu, que uma manhã, a caminho da escola, voltou mudo da floresta, tomado por uma visão de terror inexplicável, típica das crianças; pela a doença terminal do seu pai idoso; bem como a recuperação de uma paixão antiga, com uma ex-amante agora divorciada, a bela, elegante, independente e bem-sucedida Csilla (Judith State), que se tornou entretanto, a gerente de uma padaria industrial. Talvez este seja o único negócio dinâmico e rentável da aldeia, mas que vive em boa parte à custa dos apoios, fundos comunitários e da política de migração da UE e, que mesmo assim paga baixos salários ou que subtilmente, prefere os imigrantes.
E esse e o ponto de partida para o segundo tópico do filme, que nos mostra uma forte vaga racista da comunidade, causada pela contratação exterior de três padeiros originários do Sri Lanka, ainda por cima católicos — para justificar os apoios comunitários e ter mão-de-obra mais barata — porque os locais não estão dispostos a aceitar as condições salariais e de trabalho e preferem imigrar como Matthias. Particularmente alimentada pela comunidade de origem magiar ou melhor — sabemos da particular posição da Hungria e do seu líder em relação à imigração, no contexto da UE — com a bênção do padre da aldeia, vamos assistir a uma acesa vaga de intolerância e xenofobia, vista primeiro num pequeno episódio ao estilo Ku Klux Klan, mas sobretudo por extraordinária sequência, de cerca de vinte minutos filmada pelo realizador, onde assistimos a um agitado conselho municipal da população, para discutir esta questão dos imigrantes. Enquanto outros, como Csilla, procuram a todo o custo, proteger e defender os trabalhadores-imigrantes. ‘R.M.N’ — que significa ou melhor é um termo técnico para designar, uma radiografia médica — é efectivamente um filme duro e angustiante, marcadamente realista, que procura dar-nos uma total e profunda compreensão, não só dos processos sócio-económicos da aldeia, mas também da alma humana desse microcosmo de pessoas que pode ser transposto para a ‘comunidade europeia’.
A floresta circundante da aldeia, os ursos pardos rondando, as armadilhas para as raposas e frio e gelo e a massa escuras das casas, parecem levar-nos a um maior entendimento dessa regressão civilizacional, da nossa espécie humana para as suas origens, para os seus medos mais profundos, para os seus instintos mais primitivos e guerreiros, a que estamos progressivamente a assistir, juntamente com a ascensão dos extremismos. Efectivamente ‘R.M.N.’, de Cristian Mungiu é uma inteligente e profunda radiografia da natureza humana, mas sobretudo do estado do mundo actual, que vivemos nas sociedades ocidentais e europeias. É um filme que não vai sair daqui de mãos abanar e sem um dos prémios mais importantes desta competição. Para já é um dos fortes candidatos à Palma de Ouro 2022.
JVM, em Cannes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e ‘Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), ‘Vamos fazer Rir a Europa’, (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.
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