Vitória contra o racismo e o samba como protagonista! – Por Claudinho de Oliveira e Fellipe Chueco – Revista Fórum

Quando criamos o movimento #PagodeConsciente, entendíamos que o momento precisava de posicionamento frente ao ataque à cultura e às minorias e ao aumento gritante do fascismo no Brasil e no mundo. Não dava mais para ficarmos calados. Nunca ficamos. Porém, era hora de demonstrar posicionamento e força como movimento. Fazer samba sempre foi e sempre será um ato político, de resistência e de sobrevivência. O samba coloca comida no prato e nos permite o sonhar o sonho proibido.
Desde então, estamos nos sambas, bares e esquinas a conversar, a debater a política sob todas as formas com os nossos parceiros e parceiras de sonhos e de lida, com a consciência sobre a importância de, sempre que estivermos com um microfone nas mãos, contribuirmos também para as mudanças de que o nosso povo necessita. 
Não podemos perder nunca mais a oportunidade de nos posicionar enquanto sambistas, porque o samba é parte integrante de uma cultura preta e periférica, diaspórica e militante que em muito identifica o povo brasileiro.
Propomo-nos sambar, alegrar e fazer da “festa” o lugar também da cultura, do pertencimento, da identidade, da informação e da denúncia, da resistência e da luta ancestral contra o preconceito e a discriminação ao povo preto.
E foi isso que fizemos.
No último dia 3 de maio, durante a CPI dos Aplicativos, uma falha da tecnologia ou desatenção deixou transbordar o que o vereador Camilo Cristófaro costuma ser fora das câmeras e de microfone fechado: racista. Com a fala “Não lavaram a calçada (…), coisa de preto, né”, ele nem imaginava que batizava os atos que estão mudando a história da Câmara Municipal de São Paulo e da luta antirracista. O Movimento Pagode Consciente, junto com o Sindicato dos Músicos de São Paulo e o Instituto Braços Dados, além do apoio de muitos outros movimentos sociais, sindicais e culturais, resolveram ir às ruas e convocar toda a população para dizer: Até quando? Até quando aguentaremos falas como essa de braços cruzados? Até quando acreditaremos que foi apenas uma fala infeliz ou algo dito fora de contexto? E a resposta é NUNCA MAIS! Fomos às ruas, ocupamos a frente do Palácio Anchieta e mostramos que “Coisa de Preto” é resistir, lutar e exigir a cassação de um vereador racista! 
No dia 19, no primeiro ato, o processo foi à Corregedoria da Câmara de Vereadores de São Paulo, e a nossa pressão surtiu efeito: por 6 votos a 0, o relatório foi aceito e encaminhado ao plenário. No último dia 24, em votação histórica, o plenário também aceitou por unanimidade o parecer. Uma vitória parcial, porém com gosto, cheiro e cara de mudança. O povo não vai mais aceitar falas e atitudes racistas, e a cassação de um vereador será um marco nessa história. Ainda temos mais duas fases e seguiremos nas ruas até que a cadeira desse vereador, que ao povo pertence, não seja mais ocupada por um racista.
Por aqui, agradecemos a todos e todas que estão conosco nessa luta e convidamos geral para ir às ruas nos nossos próximos atos “Coisa de Preto” e fazer parte dessa história.
Tantas são as lições ancestrais que nos incitam à luta antirracista e decolonial. Ao samba, enquanto cultura de resistência negra e agregadora, cabe se posicionar e impor ações práticas e, se preciso, tomar as ruas, onde ele mesmo floresce todos os dias quase que espontaneamente, e impedir que ideias, falas e atos racistas prosperem. 
E assim seguimos na luta com “Oya” de Carica, “Humaitá” de Claudinho de Oliveira, “No Morro o Cavaco Chora” de Ademir Fogaça, “Brasileiro” de Chiquinho dos Santos, “Filhos da América” de Leandro Lehart, “Segundo Ato” de Marrom do Samba lá de Casa. Seguimos engrossando o coro com as comunidades de samba, os coletivos culturais, seguimos cantando forte, entonando a voz em bom tom, para que fascistas de plantão não tenham dúvidas: 
Perseguição nunca mais! Não toleraremos.
*Claudinho de Oliveira é cantor, compositor, sociólogo e fundador do movimento #PagodeConsciente; Fellipe Chueco é músico e produtor cultural
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum 

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