Recusa ao identitarismo é o novo racismo à brasileira – UOL Notícias

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de Estela sem Deus (2018). O avesso da pele (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras.
Colunista do UOL
23/05/2022 04h00
Frequentemente sou perguntando se continuarei trazendo discussões identitárias em meus romances, se continuarei abordando as questões sobre o racismo, ou se me sinto obrigado a abordá-las em minha produção literária. Ou ainda: se eu escreveria um romance cujas personagens sejam todas brancas, sem que eu tenha compromisso com a representatividade.
Esta última pergunta me faz pensar na ansiedade da branquitude em tratar esta discussão de forma rápida e superficial, como se mudar a cor das personagens fosse a grande preocupação de escritores e escritoras negras. Ainda me surpreendo com a necessidade de sugerir que nossas escritas estão encerradas numa prisão identitária, reduzindo nossa força criativa à simples ideia de representatividade. É estranho porque ninguém acha que os escritores brancos estão numa prisão identitária branca.

Acho interessante tais questionamentos porque revelam o quanto a discussão em torno do identitarismo ainda precisa ser debatida para não acabar caindo no senso comum. É preciso dizer que essas pautas são, antes de tudo, pautas da ordem da vida. Porque as experiências humanas são atravessadas por essas questões.
O que quero dizer é que quando faço literatura não parto de um identitarismo. Os autores negros e negras não acordam num belo dia e pensam: vou escrever um livro sobre racismo. Nós acordamos um belo dia e pensamos: vou escrever um livro sobre a vida, sobre a morte, sobre a perda, sobre o luto, sobre a beleza, mas ao mesmo tempo somos afetados pelas pautas identitárias, porque existir em coletivo é uma eterna negociação com as identidades.
Se o identitarismo é percebido em minhas personagens e em meus enredos é porque há nelas uma urgência básica pelo direito a uma vida digna e plena. Uma literatura que não contesta a vida e a sociedade me parece uma literatura pouco profunda. O identitarismo é importante, mas não tem um fim em si mesmo. É claro que a representatividade importa, é claro que o tipo de representação negra que fuja da degradação e da violência importa, mas não essas questões que definem ou norteiam a qualidade literária.
A verdade é que toda vez que se procura mexer nas estruturas de poder há uma reação violenta e que busca a manutenção dessas mesmas estruturas. Neste sentido, o complexo discurso identitário que traz à tona as lutas de grupos que experienciaram opressões e desigualdades, como as lutas de mulheres, negros, indígenas e LGBTQI+, é simplificado com o “lá vem esse pessoal das pautas identitárias” ou “agora tudo é identitário”, “o identitarismo vai acabar com a arte e com a literatura”. Para essas pessoas eu costumo dizer: fiquem tranquilos, a literatura não vai acabar só porque estamos reivindicando outras narrativas. A literatura é maior que o seu próprio tempo.
A crítica ao identitarismo é na verdade a busca por uma neutralidade ideológica que nunca existiu. Nossas relações sociais modernas sempre foram mediadas pelas questões de gênero e raça. Aliás, recentemente, a inclusão da palavra “raça” na inscrição do prêmio Jabuti, um dos mais tradicionais do país, casou alvoroço nas redes sociais. Houve discursos de que o prêmio agora usaria a cor dos escritores como critério ao invés do mérito literário. Bem, é preciso dizer que a questão é falsa. Primeiro que falar em meritocracia no Brasil, seja ela em qualquer âmbito, me parece uma grande desonestidade intelectual.
E segundo que o sistema literário não está fora dessa discussão. Além disso, é sempre preciso observar que se a cor dos escritores não era solicitada, creio que uma pesquisa rápida serve para descobrir a cor e o gênero da maioria dos premiados. Desse modo, não é difícil compreender que isso nada tem a ver com mérito. Saber a cor dos autores não diz o quanto sua produção é boa ou não, mas expõe as desigualdades entre autores negros e brancos. O identitarismo é um convite para refletir e mudar nossa percepção diante de um mundo complexo e diverso.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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