O que a série 'Um Maluco no Pedaço' dos anos 90 nos diz sobre a questão racial hoje – Folha

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Dois adolescentes negros em um Mercedes Benz são parados pela polícia.
Um deles, criado em West Philadelphia, tem o olhar preocupado de quem sabe exatamente como a situação vai se desenrolar. Ele sai do carro e se joga sobre o capô, com os braços estendidos, enquanto seu primo, um adolescente rico e mimado de Bel Air, assiste, espantado.
A cena, que causou gargalhadas entre os espectadores presentes no estúdio para a gravação de um episódio de “Um Maluco no Pedaço” em 1990, retratava uma situação muito conhecida para as pessoas não brancas, a de serem paradas pela polícia por causa da cor de sua pele.
Passados 30 anos, depois de manifestações de massa que levaram as questões de injustiça racial e brutalidade policial a uma posição de destaque no debate nacional dos Estados Unidos, a série está voltando às telas, como drama, no serviço de streaming Peacock, da NBCUniversal, e o elenco original se reuniu para um especial que estreia quinta-feira na HBO Max.
Relembrar “Um Maluco no Pedaço” e outras séries do período cujo foco era a vida dos americanos negros mostra de que maneira, mesmo dentro dos limites de uma sitcom convencional, esses programas tratavam de questões complicadas de injustiça racial, muitas vezes de um jeito que ficava no fio da navalha entre comédia e tragédia.
“Quanto mais reais nós fôssemos, mais engraçados nos tornávamos”, disse Jasmine Guy, que interpretava uma garota sulista mimada em “A Different World”, uma série derivada do “The Cosby Show”, em cartaz de 1987 a 1993, cujo foco eram alunos da fictícia Universidade Hillman, uma instituição que originalmente era reservada a estudantes negros.
Assuntos dolorosos, como discriminação racial, representação falsa, as indignidades cotidianas do racismo e o “colorismo”, eram garimpados em busca de risadas que revelavam verdades mais profundas, disse Frederick Gooding, professor associado de estudos afro-americanos na Texas Christian University.
“Os negros sempre enfrentaram o desafio de interpretar o papel de bobos da corte, usando o humor como proteção contra verdades salientes que a corte real tende a ignorar”, ele disse.
Morgan Cooper, de 28 anos, estava na segunda série quando assistiu pela primeira vez à cena do encontro com os policiais, numa reprise de “Um Maluco no Pedaço”. Foi mais ou menos na mesma época que seu pai ensinou a ele como reagir caso os dois fossem um dia parados pela polícia.
Para um menino negro criado em Kansas City, no estado americano de Missouri, o episódio foi uma revelação, ele disse.
“Eu me senti visto e me senti ouvido, por meio daquela família”, ele se lembra de ter pensado. “Ainda que ‘Um Maluco no Pedaço’ fosse apenas uma sitcom de meia hora de duração, a série estava plantando sementes. Na verdade, ela usava a comédia como um cavalo de Troia para tratar daquelas ideias.”
Em 2019, Cooper filmou um trailer de três minutos e meio, intitulado “Bel Air”, que reimaginava a série como drama, no qual o personagem principal, Will, é enviado para viver com um tio e uma tia ricos depois de ser apanhado portando uma arma. Cooper postou o vídeo no YouTube e atraiu mais de 6,7 milhões de visitas.
O trailer chamou a atenção de Will Smith, que interpretava Will na série original. Ele ajudou Cooper a obter um contrato para produzir duas temporadas de “Bel Air” para o Peacock. Os dois agora são produtores-executivos da nova série.
Quando “Um Maluco no Pedaço” estreou, em 1990, as redes de TV aberta americanas, encorajadas pelo sucesso de “The Cosby Show” e pela ascensão do hip-hop, estavam investindo em sitcoms estreladas por atores negros.
Os anos 1990 “representam um momento na história da televisão em que vimos o lançamento talvez do maior número de comédias de situação negras a chegar às telas”, disse Robin Means Coleman, professora especializada em mídia, cultura e identidade na Universidade Texas A&M.
Mas as séries variavam na maneira pela qual lidavam com a tensão racial, se é que tratavam do assunto. “The Cosby Show”, por exemplo, em geral o evitava.
Em sua primeira temporada, “A Different World” manteve essa tradição, e destacava tramas tradicionais, como a de um episódio no qual os alunos tinham cada qual de carregar um ovo em uma cesta a fim de aprender sobre as responsabilidades paternas.
Mas em seguida Debbie Allen assumiu o posto de diretora do programa, e “A Different World” começou a lidar com tópicos mais sérios. “Nós tratávamos de todos os assuntos”, disse Allen. “Discutimos situações de estupro em encontros românticos, racismo, os tumultos nas ruas de Los Angeles.”

Allen disse que não foi autorizada a exibir uma camisinha em um episódio sobre Aids. E Guy se lembra de que a rede de TV hesitou em exibir o episódio mesmo depois que as atrizes Whoopi Goldberg e Tisha Campbell, que tinham trabalhado em filmes como “Lute pela Coisa Certa” e “A Pequena Loja dos Horrores”, aceitaram um convite para fazer uma participação especial.
“A sensação era sempre a de que estávamos muito para trás, e de que eles não pretendiam nos deixar livres”, ela disse.
Cree Summer, que interpretava Freddie, uma personagem de espírito livre, na série, disse que “houve um momento em que a censura era muito forte naquelas sitcoms”. Ainda admirada diante da determinação de Allen, ela acrescentou que “eu não sei de que jeito ela conseguiu fazer tudo que fez.”
Mesmo as séries mais conscientes em termos raciais buscavam manter um tom positivo que se enquadrava no clima de otimismo e prosperidade da década de 1990.
Não havia mídia social para oferecer lembretes quase diários de injustiça racial, disse Daphne Maxwell Reid, que interpretou Vivian, a matriarca de “Um Maluco no Pedaço”, entre 1993 e 1996.
“Éramos inocentes”, disse Reid. “A economia ia bem. As pessoas falavam o tempo todo de seu crescimento e de suas vidas de uma maneira mais inocente. Não estavam preocupadas com a morte da democracia”.
Por isso, quando as séries lidavam com temas difíceis, o efeito era ainda mais dramático, disse Cooper.
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“Family Matters”, uma série sentimental da rede ABC sobre uma família de classe operária em Chicago, era mais conhecida pelas trapalhadas de Steve Urkel, um personagem caricato, do que por sua abordagem quanto à política racial.
Mas, em 1994, a série levou ao ar o episódio “Bom Policial, Mau Policial”, no qual o sargento Carl Winslow, interpretado por Reginald VelJohnson, confronta dois policiais brancos que pararam o filho dele, Eddie, quando o rapaz estava dirigindo em seu carro.
A promessa de que aquelas séries do começo da década de 1990 trariam uma nova, e permanente, era de programas com elencos majoritariamente negros tinha basicamente desandado, no começo da década seguinte.
Àquela altura, “The Cosby Show”, “A Different World”, “Family Matters” e “Um Maluco no Pedaço” já tinham acabado. As redes UPN e WB, que destacavam programas com elencos negros, saíram do ar pela metade dos anos 2000.
Mais recentemente, séries como “Atlanta”, “Blackish” e “Insecure” centraram suas tramas nas vidas de famílias e de jovens profissionais negros, que enfrentam problemas como o aburguesamento de seus bairros, preferências quanto a tons de pele, colegas racialmente insensíveis e brutalidade policial.
Mas mesmo esses sucessos vêm com ressalvas. “Insecure”, uma comédia sobre uma jovem de 20 e poucos anos tentando encontrar o sucesso amoroso e profissional em Los Angeles, só teve uma oportunidade depois que sua criadora, Issa Rae, se tornou sucesso no YouTube, disse Gooding.
Cooper, o criador de “Bel Air”, usou a mesma mídia para conquistar a atenção do setor de televisão. “É um referendo incriminador sobre como é difícil penetrar o sistema de Hollywood”, disse Gooding.
The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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