Livro conta a história do Beitar Jerusalém, o clube que nunca contratou um árabe e cuja claque de extrema-direita glorifica o racismo – Expresso

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Tribuna
12 maio 2022 16:25
uriel sinai/getty
12 maio 2022 16:25
O Beitar Jerusalém, clube israelita seis vezes campeão, nunca contratou um jogador árabe. Durante muitos anos, a claque de extrema direita La Familia cantou orgulhosamente a frase: “Cá vem ela, a equipa racista do país”. O jornal inglês “The Guardian” pega no novo livro de Shaul Adar, ‘On the Border: The Rise and Decline of the Most Political Club in the World’, onde se lê que o Beitar “não é um clube racista, mas uma organização profundamente infetada com racismo”.
Em 2009, o capitão de equipa, Aviram Bruchian, sobrinho do lendário Uri Malmilian, disse que ficaria feliz por jogar ao lado de um jogador árabe. Foi imediatamente ‘convocado’ pela claque mais radical do clube. No dia seguinte, Bruchian emitiu um comunicado: “Lamento a dor que causei aos adeptos e compreendo que os magoei. É importante para mim que eles saibam que estou com eles em todas as circunstâncias. Não sou eu quem toma as decisões, mas se os adeptos não querem um jogador árabe, não haverá nenhum jogador árabe no Beitar”.
A claque pode não cantar a mesma frase, mas continua a entoar exemplos monstruosos que mostram bem as dificuldades em erradicar o mal do Beitar. “As estrelas no céu são testemunhas / Porque o racismo é como um sonho / O mundo inteiro vai testemunhar / Não haverá árabes na equipa!” é apenas um exemplo.
O Beitar, clube com origem num movimento da direita liberal, moderada, assistiu a algumas alterações ao longo dos últimos anos do século passado. Shaul Adar falou com David Frenkiel, o criador do primeiro site do clube, que costumava escrever sobre futebol na revista “Shem Hamisehak”. “A onda anti-árabe começou depois dos ataques terroristas da segunda metade dos anos noventa. A reação dos média e da esquerda levou a um comportamento infantil”, diz Frenkiel.
“Quanto mais os adeptos eram atacados, mais as provocações aumentavam. Não tenho a certeza de que todos os que cantavam fossem racistas, mas é assim que funciona nas bancadas”, diz Frenkiel. Sobre as críticas feitas à maioria por não confrontar as palavras insultuosas, o adepto do Beitar responde: “Quem quer confrontar aquelas pessoas?”.
O efeito bola de neve não se fez esperar e o slogan “Morte aos árabes” foi respondido com “Morte aos judeus”. A atitude reproduziu-se nas outras modalidades — até que os adeptos do Hapoel Telavive intervieram. Nas competições europeias em que estavam presentes, podia ver-se uma faixa que dizia: “Representamos Hapoel e não Israel”.
Aos cânticos dos radicais do Beitar, os adeptos do clube de Telavive respondiam com: “Ponham Jerusalém na Jordânia / Dêem-na aos palestinianos / Nas linhas de 1967 / Dividam-nas em duas / Dêem-nas aos palestinianos / Não precisamos do Teddy [o estádio do Beitar] / Nem do Beitar”.
A verdade é que, ao longo dos anos, o Beitar negociou com muitos jogadores árabes israelitas, mas nunca chegou a contratar nenhum. No filme “Forever Pure”, documentário sobre o problema endémico do Beitar, o antigo líder do clube, Ruvi Rivlin, que chegou a ser presidente de Israel entre 2014 e 2021, conta: “Lembro-me de estar sentado no Teddy e dizer ao Ehud Olmert [então presidente da Câmara de Jerusalém e futuro primeiro-ministro do país] que o que estava a acontecer na bancada este não era bom e que, ao mantermos as bocas fechadas, estávamos a legitimá-lo. (…) Mas eles ignoraram-no, para não enraivecer os adeptos”.
Segundo o livro, ao longo dos anos, o estádio conhecido como “Teddy” tornou-se o palco perfeito para os políticos do Likud, o partido da direita nacionalista israelita. Entre eles, Benjamin Netanyahu, o futuro governante que, em 1998, fez questão de saudar os adeptos do Beitar em público, enquanto parte destes cantava insultos aos árabes ou a Yitzhak Rabin, primeiro-ministro mártir às mãos de extremistas israelitas.
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