Jovem ouve de pastor que 'tem que passar chapinha' e o denuncia por racismo – UOL Notícias

Rodrigo Scapolatempore
Colaboração ao UOL, em Belo Horizonte
17/05/2022 13h08Atualizada em 17/05/2022 14h19
Uma assistente de produção de 23 anos denunciou o pastor Lázaro Augusto da Rosa, da Igreja Universal, por ato de racismo no ambiente de trabalho. A denúncia foi feita após Ana Clara da Mota Santos ouvir dele: “Ana, Ana, tem que passar chapinha”. A fala ocorreu, segundo ela, durante a gravação de um programa em Belo Horizonte.
Apoiada pelo pai e advogado, Cláudio Anderson dos Santos, ela conseguiu recuperar a gravação de áudio que comprova a conversa e decidiu levar à delegacia ontem, no mesmo dia em que sofreu a agressão verbal. O enquadramento em injúria racial ainda está sendo analisado pela polícia, que investiga o caso. A Universal se pronunciou.

Ana Clara afirmou ao UOL que a prática era rotineira, mas que, desta vez, a ofensa chegou ao limite, ocorrendo na frente dos colegas.
Ele sempre fez essas brincadeiras nos corredores, geralmente relacionadas a cabelo. Dizia sobre dread, insinuava que era cabelo de mendigo. Desta vez, quando fui fazer uma observação técnica sobre um brilho no rosto dele, ele partiu para este ataque falando sobre chapinha.
Segundo a assistente de produção, no momento da fala ela começou a chorar e a equipe precisou parar o programa. Depois, ela diz que foi levada a uma sala, em uma espécie de reunião secreta para abafar o caso e ouviu que “se fosse à delegacia seria um problema grande”.
Ana Clara afirmou que a vontade de fazer Justiça foi maior que o medo e a possibilidade de perder o emprego, principalmente porque, desta vez, poderia provar, já que “nunca somos levadas a sério”, disse ela, em entrevista por telefone.
A assistente detalha: “Tentaram me colocar como louca, mas a verdade é que até a equipe parou. Era racismo sim. Me levaram para a sala do diretor, que disse que iria conversar com o pastor, e que ele seria punido em uma espécie de lei interna deles, mas que ninguém saberia. Tentaram inverter como se eu fosse o problema”.
Ana Clara, que interrompeu o curso de Cinema na PUC Minas no 7º período, disse que é cristã, mas que não é adepta especificamente da Igreja Universal. No entanto, reforçou que não há distinção religiosa para se trabalhar na TV deles.
“Tem muita gente profissional e boa de serviço aqui, e não importa tanto a religião, mas, infelizmente, os pastores muitas vezes têm seus excessos”, completou.
O pai de Ana é advogado e vai representar a filha. Ao UOL, Cláudio Anderson dos Santos afirmou que vai entrar com ação cível e trabalhista, além da criminal, já iniciada com a ida à polícia.
“As medidas judiciais são o mínimo que podemos fazer em uma hora dessas”. Revoltado, ele reforçou que é justamente a falta de denúncias que permitem que situações como esta se repitam.
Criamos nossos filhos para dar a eles a responsabilidade de trabalharem sua identidade, que é afro e é linda, e saber que todos somos iguais, pelas leis jurídicas e até divinas. Vamos levar para frente sim porque crime é para ser punido, e mostrar às pessoas que ninguém deve se calar com esse tipo de violência. Deixar de denunciar é aceitar o racismo estrutural como a regra.
O advogado acrescentou que ninguém da Universal entrou em contato com a família.
“Sou pai, cidadão e jurista. Vocês não estão cansados dessas afrontas, sempre de cima, até do governo, ou de gente importante, ou de supostos líderes, seja de quem for, com o recado de que devemos simplesmente aceitar racismo, homofobia, misoginia, xenofobia como se fossem naturais?”, desabafou.
A Igreja Universal, por meio de nota, disse que apura internamente os fatos do caso e que ele “não reflete a cultura inclusiva e de total respeito a todos”. “Quem frequenta qualquer culto da Universal, em qualquer país do mundo, comprova que bispos, pastores e fiéis são de todas as origens, etnias e tons de pele, de todas as classes sociais”, diz o comunicado.
O pastor foi procurado pela reportagem, mas, até o momento, não se posicionou.
Ao UOL, A Polícia Civil de Minas Gerais informou hoje que instaurou inquérito policial para apuração de suposta prática de injúria racial e confirma que a vítima compareceu na segunda-feira (16) na Delegacia Especializada de Investigação de Crimes de Racismo, Xenofobia , LGBTfobia e Intolerâncias Correlatas para proceder com a devida representação criminal indispensável à atuação policial.
“Em observância à lei de abuso de autoridade, não serão divulgadas as datas de oitivas do suspeito. Outras informações serão divulgadas em momento oportuno para não prejudicar o andamento do feito”, encerra a nota.
O crime de injúria racial está previsto no código penal e se refere a situações que envolvem a honra de um indivíduo específico usando características como a raça, cor, etnia, religião ou origem, geralmente por meio do uso de palavras preconceituosas.
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