Dia da abolição da escravatura: racismo e homofobia – 13/05/2022 – Quadro-negro – Folha

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Por Leonardo Alan: cantor, compositor, ator, diretor audiovisual e apresentador de TV brasileiro, residente na Bélgica há oito anos.
As sombras do racismo e as máscaras da homofobia
Muito se fala sobre racismo e sobre a necessidade de representatividade, mas pouco é falado sobre a educação de base e do papel da família para formação de adultos mais humanizados. Digo isso porque tive experiências traumáticas na minha infância e tanto a arte quanto uma boa estrutura familiar me protegeram e me ajudaram a sobreviver.
Desde pequeno já sabia que eu era diferente da maioria dos meninos da escola. Gostava de jogar futebol, mas ao mesmo tempo brincava de boneca. Adorava dançar, cantar, rebolar e, principalmente, fazer arte. Essa realidade estereotipada que impõe o que o homem e a mulher devem fazer nunca me limitou. Claro que na sociedade ainda existe uma certa rejeição, e mesmo hostilidade para os que não seguem os padrões considerados normais. Todos já ouvimos expressões como ‘’Isso é coisa de mulherzinha’’, ou até mesmo mulheres que não podem ser solteiras, porque “mulher foi feita pra casar”. Cresci vendo minha mãe solteira, trabalhando muito pesado, para construir seus sonhos e ainda me educar.
Uma das minhas referências na infância foi Jorge Lafond, que eternizou a personagem “Vera Verão” , sempre achei ele um artista muito interessante, embora pouco valorizado. Também me identificava com Mussum, e também com Lacraia. Esses personagens foram socialmente desumanizados, e por isso demorei muito tempo para me entender como artista, para entender quem é o Leonardo Alan. Pois claro, no estereótipo em que a sociedade queria me encaixar, eu era colocado nesta categoria. Demorei para me valorizar pessoalmente e também artisticamente.
Já vivi diversos tipos de experiências que não desejo que ninguém passe. Desde ser chamado de apelidos horríveis, sofrer racismo de um ator em cena, até ao ponto levar chuva de tomate no palco. Me recordo de um dia em que jogava vôlei na escola, e aconteceu de ter 200 pessoas me chamando de veado no meio da quadra. Foram meses com medo de entrar no portão da escola, sem poder falar com ninguém sobre o que aconteceu.
Hoje, resolvi colocar toda essa narrativa dos meus traumas em um videoclipe que eu mesmo dirigi. Pois identifiquei essa sombra do racismo, que me fez não entender o meu real valor por muitos anos. Essa sombra me perseguiu, e ainda me persegue, ela anda sempre comigo. Esses traumas me deram, em contrapartida, a possibilidade de desenvolver uma empatia com relação ao outro. E quem é esse outro? O que é esse outro? São todos os que são diferentes de mim, os que não necessariamente pensam ou agem como eu. E o fato de ser gay, não exclui a minha possibilidade de diálogo, respeito e empatia com uma pessoa evangélica, por exemplo.
Essas feridas hoje me dão a possibilidade de também me autovalorizar, e não me importar muito com o que as pessoas pensam sobre mim, pois me fazem entender quem sou como pessoa, e como quero usar a minha arte como ferramenta de empoderamento. Sou fruto da minha resistência e da minha responsabilidade artística com aqueles que se sentem fora do padrão. Uma criança que sofre bullying pode desencadear desde dificuldades de concentração na escola, falta de autoestima, depressão, ou até mesmo desenvolver na vida adulta um estímulo para o abuso de substâncias químicas. Temos que falar abertamente sobre como a sociedade às vezes é tóxica, para daí sim resolvermos tais tipos de problemas, que em verdade, são coletivos, e não individuais.
Tive uma educação familiar e de base muito forte para entender que nem tudo é preconceito, mas por vezes de falta de um referencial teórico ou pessoal, de inseguranças, de inveja, do medo do que é diferente, ou até mesmo de falta de saúde mental. Tais formas de exclusão, que vão muito além do superficial ‘’eu não gosto da sua cor de pele”, ou do “não gosto da textura do seu cabelo”. Porque acho muito difícil levar a sério alguém que acha que você é inferior por ser gay, negro, ter mãe solteira, ou gostar de sair de shortinho. É preciso ser autocrítico e muito corajoso para encarar nossas falhas.
Me percebo cauteloso para falar sobre questões raciais, porque quando falo de preconceito e de racismo, falo de eventos traumáticos, sistemas opressores, desigualdades sociais, e de mecanismos de controle econômico. É preciso analisar de maneira imparcial como nossa educação e como alguns valores estão ultrapassados, e acabam por nos influenciar diretamente, para a partir daí podermos virar o jogo e colocar as cartas na mesa. Um ótimo ingrediente é contarmos a histórias como elas realmente são, para não mais criarmos adultos românticos e alienados – como muito bem propõem a Lei 10.639, que orienta o ensino História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas.
No dia 13 de maio, no Brasil, essa falsa “celebração” do Dia da Abolição da Escravatura, vem justamente dessa constatação de maneira distorcida nas escolas. Hoje, morando na Bélgica, percebo também a resistência e a idealização do colonialismo do congolês, assim como foi do brasileiro para Portugal. Essa resistência em contar a história como ela realmente é, só reproduz ainda mais essa romantização tóxica entra as relações entre o negro e do branco. Essas dinâmicas que se estabelecem, estão ficando ultrapassadas, é preciso reescrever nossa história, mas antes disso precisamos entender a nossa própria história.
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