Masp exclui fotógrafos de movimentos sociais e indígena – Combate Racismo Ambiental

O museu renega a  sua missão museológica  ao vetar as fotos  do MST e  dos  fotógrafos João Zinclar, André Vilaron e Edgar Kanaykõ
por Fabiana Ribeiro, em Jornalistas Livres
No site  do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) declara como missão do museu “ O MASP, Museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte” um discurso que na prática se mostra muito diferente das palavras do site. Prova disso é o cerceamento  de  peças que comporiam parte da exposição do Masp “Histórias Brasileiras”, a maior exposição do Masp neste ano , prevista para o mês de julho.
O Masp alegando um problema de ordem burocrática  vetou um conjunto de documentos e fotos do Movimento Sem Terra, o MST, e de fotografias dos artistas João Zinclar, André Vilaron e Edgar Kanaykõ.
Artistas e outros envolvidos no núcleo denominado “Retomadas” foram informados da decisão das organizadoras dessa parte da mostra, Sandra Benites e Clarissa Diniz, curadora adjunta e curadora convidada da instituição, respectivamente, em e-mail assinado por ambas.
O núcleo contava com dezenas de artistas, tanto em ascensão quanto consagrados, dentre os quais Denilson Baniwa, Oswald de Andrade, Paulo Nazareth, Sebastião Salgado e Lourival Cuquinha.
No trecho do e-mail escrito por elas:
“A dolorosa decisão, tomada pouco mais de 60 dias antes da inauguração da exposição, vem pela impossibilidade de incluir, no Retomadas, a completa representação das retomadas que o intitulam, a saber: o conjunto de cartazes/documentos do Movimento Sem Terra e as fotografias de João Zinclar, André Vilaron e Edgar Kanaykõ.”
No e-mail as curadoras destacaram a importância do conjunto de obras vetadas pelo Masp
 “ Além de suas obras documentarem a luta pela reforma agrária e pela demarcação dos territórios indígenas, o MST e os mencionados fotógrafos são pessoas com as quais temos dialogado ao longo dos últimos meses, abrindo arquivos, gavetas, HDs, escolhendo imagens, elaborando uma forma de representação coletiva por entre reuniões, conversas, e-mails.”
Segundo as organizadoras, o museu alegou que o conjunto de documentos e fotografias não poderia integrar a mostra porque foram requisitados após o prazo estipulado pelo museu para empréstimo das obras. Elas afirmam, no entanto, que não foram informadas dessa data máxima definida pela instituição.
Nos meses em que estivemos trabalhando na instituição, atuamos proativa e dedicadamente, atendendo todas demandas que nos foram informadas, a despeito da inexistência de um cronograma indicado para guiar nossas atividades curatoriais. Apesar do cuidadoso trabalho realizado, para a nossa surpresa, o MASP não concordou com a integral inclusão da representação das retomadas pelo suposto descumprimento de um prazo que não nos foi informado pela produção ou pela curadoria do Museu. ”
As curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz – respectivamente, curadoras adjunta e convidada do MASP –, cocuradoras da mostra Histórias Brasileiras e proponentes do núcleo Retomadas relatam no texto  o desrespeito ao artistas fotógrafos e ao MST
 Impedidas de levar adiante nosso acordo com o Movimento Sem Terra, seus fotógrafos e Edgar Kanaykõ como sanção a um erro que sabemos não ter cometido, sentimo-nos desrespeitadas, injustiçadas e instaladas, em consequência de tal decisão, a trair a confiança deste que não é só o maior movimento social do Brasil, como também é a coluna vertebral do Retomadas.
Aceitar a exclusão das imagens das retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade. ”
E completam:
“O Retomadas é sobre a urgência de revermos as éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus”
Edgar Kanaykõ Xakriabá, pertence ao povo indígena Xakriabá Estado de Minas Gerais, é mestre em Antropologia pela UFMG. Tem atuação livre na área de Etnofotografia: “um meio de registrar aspecto da cultura – a vida de um povo”. Nas lentes dele, a fotografia torna-se uma nova “ferramenta de luta”, possibilitando ao “outro” ver com outro olhar aquilo que um povo indígena é.
André Vilaron , fotógrafo carioca que tem inúmeros trabalhos relacionados à temática africanidades e as lutas pela terra, formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense. Como fotógrafo trabalhou para empresas como Folha de São Paulo, revista Manchete, Editora Abril e agência Imagens da Terra.
João Zinclair   o “ operário da fotografia” como se auto denominava , falecido em 2013. Dirigente sindical metalúrgico, militante político que colocou sua arte a serviço das lutas sociais pelo país afora. As imagens que realizou são, portanto, parte da ação de um trabalhador que soube identificar as transformações na cultura visual e no cenário político brasileiro nas décadas de 1980 e 1990, e perceber a necessidade de produzir registros das lutas populares sob a ótica de quem vive o movimento por dentro. Em seu acervo estão documentados os principais movimentos das classes trabalhadoras no país desde a década de 80 até seu falecimento em 2013.
MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra ), surgiu em 1984 durante o Encontro Nacional de Trabalhadores Sem Terra, no Paraná, no declínio do período da Ditadura Militar, o regime que aprofundou as desigualdades sociais no país. No ano de 1984  estava em curso o processo de abertura para a redemocratização do país, o que possibilitou a emergência de movimentos sociais, duramente reprimidos nas décadas anteriores. É um dos mais importantes movimentos sociais do Brasil, tendo como foco as questões do trabalhador do campo, principalmente alusivo à luta pela reforma agrária brasileira.  O movimento possui um grande acervo de documentos e fotografias da luta dos trabalhadores.
A pluralidade descrita na missão no site do Museu parece não ser levada à risca pela entidade Em no mês de maio, a instituição cancelou, após todos os trâmites burocráticos, o lançamento do livro de Guilherme Boulos. Na ocasião, o museu cancelou a liberação do auditório, alegando o evento ser “político”.
Vários artistas, fotógrafos e pessoas ligadas ao campo da arte e da cultura criticaram o museu e afirmam a existência de um claro cerceamento  ao campo progressista.  O MST e o Acervo João Zinclar construíram conjuntamente o documento que está circulando nas redes coletando apoio à nota.  
Abaixo na íntegra o documento assinado pelo MST e pelo Acervo João Zinclar  
Vimos, por meio desta, manifestar nossa indignação com a atitude da direção do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), que impossibilitou a realização do núcleo “Retomadas”, como parte da mostra Histórias Brasileiras.
Como informa e-mail recebido das curadoras no dia 03/05/2022, sob alegações de cunho burocrático e legalista que não se sustentam na efetiva realização do projeto, o MASP inviabilizou a inserção de imagens do acervo do MST, do acervo João Zinclar e de outros acervos que documentam a trajetória do MST e da luta pela Reforma Agrária no Brasil.
Somos testemunhas da forma ética e profissional com que as curadoras e os acervos parceiros se empenharam na produção do projeto em todas as etapas e em acordo com as demandas da instituição.
Afirmamos nosso respeito e apoio às curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz, responsáveis pelo Núcleo “Retomadas”, que diante da atitude do MASP, decidiram não participar da mostra, pois, como declaram: “Aceitar a exclusão das imagens das retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade”.
Como afirmam as curadoras: “O Retomadas é sobre a urgência de revermos as éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus. Do nosso ponto de vista, mantê-lo à revelia da representação das próprias retomadas que lhe dão título, argumento e sentido social nos levaria a ser antiéticas em nome da ética, excludentes em nome da inclusão, não representativas em nome da representatividade, expropriadoras em nome da não apropriação, silenciadoras em nome da voz. Nos levaria, por fim, a praticar a colonialidade contra a qual o núcleo se insurge”.
O material selecionado pelas curadoras – imagens fotográficas, cartazes, cartilhas e jornais impressos – são testemunhos da capacidade da classe trabalhadora de se apresentar firme e altiva como sujeito de sua história, em todos os sentidos. 
Destacamos que ao inviabilizar a inserção desses documentos o que de fato se efetiva é a exclusão de um dos maiores movimentos sociais da história contemporânea brasileira e latino-americana. Decisão que aponta para uma construção de conhecimento histórico distorcido e comprometido com uma cultura deturpadora da real complexidade da história política brasileira. Atitude que, no mínimo, está em desacordo com a função social de uma instituição museológica que se apresenta em seu site com a seguinte missão: “O MASP, museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte por meio de experiências transformadoras e acolhedoras”.
Esses fatos são de grande gravidade, apontando par a construção de conhecimento que invisibiliza a luta da classe trabalhadora e chamamos toda a comunidade cultural e entidades que representam as lutas do povo brasileiro para este debate, que se reveste da urgência de não ceder à censura e ao apagamento de nosso maior patrimônio: nossa capacidade de luta organizada para construir um outro modelo de sociedade. 
Pátria livre, venceremos!
Acervo João Zinclar
Coletivo de Arquivo e Memória do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra 
Victória Ferraro Lima Silva
Sônia Fardin
Batata “



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