Dirigentes brancos jamais vão se sensibilizar por situação que não sentiram, diz Grafite – Folha

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Grafite, 43, costuma sentir um incômodo quando visita os restaurantes de alto padrão na Barra da Tijuca, onde mora no Rio de Janeiro.
A sensação que ele tem é a de que sua presença nesses lugares não é bem-vinda. Somente é aceita porque ele é um ex-jogador de futebol famoso, atacante da seleção brasileira na Copa de 2010, campeão mundial pelo São Paulo em 2005 e, atualmente, comentarista do SporTV.
“Eu vejo [o preconceito] pelos olhares, pela linguagem corporal das pessoas quando elas veem um homem negro, de 1,90 m, entrar no restaurante”, diz o ex-atleta à Folha. “Aí, elas percebem que eu sou o Grafite. Por ser uma pessoa conhecida, isso me deixa um pouco fora disso.”
Mas nem sempre foi assim. Nem mesmo enquanto era jogador. Em 2005, ele foi vítima de racismo durante uma partida pelo São Paulo contra o Quilmes (ARG), no Morumbi, pela Copa Libertadores. Grafite se recorda de ter sido chamado de “negro de merda” pelo argentino Leandro Desábato. Terminado o jogo, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves entrou em campo e deu voz de prisão ao defensor por racismo. Depois de ter passado dois dias preso, Desábato pagou fiança de R$ 10 mil e foi liberado para voltar ao seu país.
Passados 17 anos, o ex-atacante ainda lamenta não ter levado o caso adiante para ver as consequências. A frustração dele é ainda maior diante dos recentes casos de racismo no futebol, sobretudo envolvendo os clubes brasileiros na Libertadores —torcedores do Boca Juniors (ARG) e da Universidad Católica (CHI) fizeram gestos imitando macacos durante jogos contra o Corinthians e o Flamengo, respectivamente.
Na opinião dele, em parte, o problema reflete a falta de representatividade nos cargos de direção no futebol.
“Entre os dirigentes, a grande maioria é branca. Jamais vão se sensibilizar por uma situação que não sentiram na pele. Não tem técnico negro, não tem dirigente negro”, disse. “A gente fica de mãos atadas. A gente fica à mercê de essas pessoas se sensibilizarem.”
Como você reagiu diante dos recentes casos de racismo no futebol, como as situações envolvendo times brasileiros na Libertadores? Minha reação é sempre a mesma de quando começamos a ter noção disso. O meu caso é de 2005, mas hoje está ficando mais explícito. Fico perplexo. Não tem punição, não tem pena. A pessoa paga uma multa e sai.
Existe uma visão de que problemas como o racismo são coisas que fazem parte do folclore do futebol? O estádio, o futebol brasileiro, sempre foi um lugar de desafogo na sociedade. Às vezes, um cara está sem emprego, com problemas com a mulher, problemas financeiros, e ele vai ao estádio para ter duas horas em que ele esquece tudo. O estádio, também, sempre foi visto como um lugar onde se pode tudo: chamar juiz de veado, o adversário de macaco… Só que a sociedade evoluiu e essas coisas viraram crime. Parece que o torcedor ainda tem esse sentimento de que pode tudo. A gente não pode ser assim.
O que precisa ser feito para essa mentalidade mudar e para combatermos o racismo? A solução é de todos. Temos que dar conhecimento aos torcedores porque alguns não têm conhecimento das leis. Isso tem de partir dos clubes, dos dirigentes e dos próprios jogadores. Não adiante ter só punição. Dá a impressão de que, para o negócio futebol, atitudes mais radicais sobre isso não são bem-vistas. É muito complexo. Faltam atitudes mais energéticas.
Qual o papel de entidades como CBF, Conmebol e Fifa no combate ao racismo no futebol? A Fifa e a Uefa têm ações mais contundentes onde os casos [de racismo] ocorrem, mas não com tanta frequência. Tem casos de que a gente nem tem conhecimento. Além disso, entre os dirigentes, a grande maioria é branca. Jamais vão se sensibilizar por uma situação que não sentiram na pele. Não tem técnico negro, não tem dirigente negro. A gente fica de mãos atadas. A gente fica à mercê de essas pessoas se sensibilizarem.
​​​Em recente entrevista, o técnico Roger Machado, do Grêmio, afirmou que os discursos do presidente Jair Bolsonaro dão autorização para o racismo. Você também vê dessa maneira? Sou muito restrito na minha vida pessoal para falar de política porque é muito extremismo. Não existe meio-termo. Mas é uma das causas também. As redes sociais ajudam bastante na disseminação de notícias falsas também. A gente fala que é mundo virtual, mas a violência vem à tona no mundo real. A gente vê torcedores marcando brigas pela internet, gente ligada ao nazismo, ao extremismo, gente que odeia gays. Não atribuo apenas ao governo [Bolsonaro], mas tem sua parcela.
Como comentarista de uma grande rede, você sente que tem uma plataforma e uma importância para falar sobre racismo? Eu me sinto incomodado de falar sobre isso porque não deveríamos estar falando sobre isso em 2022. Eu me sinto incomodado, mas tenho o dever de falar, pelo palanque que eu tenho para falar. Eu me sinto obrigado e ser a voz daquelas pessoas que não têm conhecimento das coisas e sofrem com o racismo.
Ainda se incomoda de falar do caso de racismo que sofreu em 2005? Teve um certo tempo em que me incomodava. Mas hoje em dia é tranquilo. Eu não me sinto à vontade. Não é que eu goste de falar, mas eu discuto, eu falo. Tenho o arrependimento de não ter levado o caso adiante. Se eu tivesse levado, talvez não desse em nada, como acontece com frequência. A gente acaba se adaptando e achando normal. Eu não acho normal. E, hoje, gosto de falar sempre do Observatório Racial do Esporte. O trabalho deles, mapeando os casos, é muito importante.
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