Racismo nos estádios argentinos convive com classismo e tradição migratória – Folha

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Tarde de sábado no estádio do Boca Juniors, a Bombonera. Vaias se escutam quando o rival do dia, o Barracas Central, entra em campo. Logo depois, a cantoria festiva acolhe o time local, numa melodia praticamente única que vai até o final da partida, vencida pelo Boca com facilidade por 2 a 0.
Ao longo do jogo, escutam-se várias das canções “clássicas” do Boca, das românticas “Boca Mi Buen Amigo” a outras com conteúdo homofóbico (como as que se referem ao adversário como “putos”, gíria para homossexuais), classista (“villero”, habitante das favelas) ou racista (“morocho”, para mestiços e negros). Mesmo a partida não sendo contra o arquirrival River Plate, há ameaças constantes a matar seus torcedores ou “incendiar o galinheiro” (torcedores do River são identificados como “gallinas”).
Sempre é complicado fazer generalizações sobre nacionalidades e torcidas. Mas, assim como nos estádios argentinos convivem a paixão e o insulto, os torcedores se relacionam num ambiente mais pacífico hoje do que no passado, principalmente nas partidas jogadas em casa, desde que deixou-se de permitir a presença da torcida adversária no futebol local. “Isso fez dos estádios, de certa forma, ambientes mais seguros, no sentido em que pais levam filhos pequenos, você vê famílias e casais, como se estivessem indo Ao cinema”, diz à Folha o cronista e estudioso do futebol Ezequiel Fernández Moores.
Para Moores, as piadas ou cânticos sexistas vêm desaparecendo, por conta da presença maior das mulheres nas torcidas e da aceitação do futebol feminino, assim como no movimento feminista que é muito forte na Argentina, tendo alcançado nos últimos anos vários avanços, entre eles a lei que permite o aborto apenas pela vontade da mulher.
De fato, ao lado da arquibancada em que a reportagem se alojou, sentou-se um casal com duas crianças bem pequenas, uma delas um bebê de colo, usando um babador com o escudo do Boca. “Você não se importa de seu filho estar ouvindo todos esses palavrões?”, pergunto. “Ele não entende as palavras, e, quando entender, vai saber que é tudo brincadeira, coisa comum de estádio. A gente vem aqui como passeio de família”, responde o pai, enquanto tira a chupeta do garoto e o ensina a cantar “dale Bo, dale Bo” (grito de alento mais comum).
Enquanto isso, no anel de arquibancada abaixo de onde está a reportagem, ouvem-se os gritos mais estrondosos e carregados de palavras mais ofensivas da famosa La 12, polêmica torcida organizada que tem vínculos com a política.
A outro torcedor perguntei o que achou da prisão de um apoiador do Boca no Brasil por conta de uma ofensa racial. “Isso não é racismo. São brincadeiras de torcedores. O modo de provocar os brasileiros é chamá-los de ‘monos’ (macacos), como os do River são ‘gallinas’ e assim por diante, é uma tradição”, diz outro.
Boca Juniors e Corinthians voltarão a se enfrentar no próximo dia 17 de maio, pela Libertadores.
“Uma tradição que é uma estupidez, é preciso deixar claro que é racismo. Mas não tenho visto que, depois que alguém chame um torcedor de ‘macaco’, arme-se um coro a partir disso, é preciso matizar esses episódios”, diz o jornalista esportivo Andrés Burgo, que estava no estádio no dia em que episódio similar ocorreu numa partida entre o River Plate e o Fortaleza, no último dia 14, quando um torcedor do clube argentino jogou uma banana na tribuna do time brasileiro. “Alguns riram e aplaudiram, mas, tirando esse episódio, era um clima bom entre os dois grupos de torcedores, trocaram camisetas. Não se pode generalizar.”
Em todos os estádios argentinos, convive essa tranquilidade aparente com a possibilidade de violência iminente e uma chuva de insultos. Segundo dados do Inadi (Instituto Nacional Contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo), órgão do governo dedicado a denunciar episódios do tipo, na Argentina, a cor da pele é o terceiro tipo de discriminação nos estádios. Os dois primeiros são o nível sócio-econômico e a imigração. Quem frequenta os campos de jogo costuma ouvir muitos insultos a torcedores estrangeiros de países da região que compõem a torcida dos times grandes, especialmente peruanos, bolivianos e paraguaios. Há um porcentagem de mais de 30% da composição da população das favelas argentinas que vem desses países.
Os torcedores do próprio Boca são alvo de canções xenófobas e racistas, pelo fato de sua torcida ser popular e da localização de seu estádio, num bairro afastado do centro e marcado pela imigração italiana. Um deles, por exemplo, diz: “É preciso matar os ´bosteros´ [torcedores do Boca], são todos homossexuais, são todos favelados, é preciso atirá-los no Riachuelo [afluente do Rio da Prata, que está próximo da Bombonera]”.
​Para o cientista social Javier Bundío, que se dedica a estudar os cantos das torcidas argentinas, as canções e os gritos de guerra para apoiar os times compõem um ambiente de “representações estereotipadas e valorativas que são censuradas em outros espaços e ali são permitidas”.
Bundío diz haver uma particularidade essencial nas torcidas argentinas, onde se revela “a oposição entre um enunciador que se imagina europeu e branco e um sujeito representado como latino-americano e mestiço”. Essa oposição inicial pode ser bem demonstrada pelos dois estereótipos dos mascotes dos torcedores dos maiores clubes do país. Do lado do Boca está “Pedrín, el fainero”, que é moreno e descendente de italianos e se dedicaa fazer pizzas; do outro lado, está “el Millonario”, que é aristocrata, culto e essencialmente branco.

Essa dicotomia remonta ao século 19, quando a reduzida elite pós-Independência da Argentina passou a promover seguidas e intensas campanhas de imigração de europeus, numa tentativa, como afirmavam os políticos e intelectuais, de “embranquecer o país”. Mas, enquanto presidentes como Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888) esperavam que, com isso, aparecessem holandeses, ingleses ou alemães, os que mais chegaram foram italianos e espanhóis, que eram vistos, pelos olhares e conceitos de então, como europeus de segunda categoria, e ocupariam postos de trabalho menores, como o comércio, a gastronomia.
Embora essa seja a origem de certo classismo na sociedade argentina, analistas políticos da atualidade creem que a história não pode se prestar a justificar abusos.
Essa dicotomia do passado, explica Bundío, foi “do cômico ao trágico” nos anos 1970 e 1980, anos de ditadura e crise no país. “O apoio dos torcedores baseados no apoio ao time passou para o enfrentamento. E os cantos e gritos de guerra mostram como das ironias se passaram aos insultos, das piadas, às ameaças”, conta.
Ainda para Andrés Burgo, “é preciso dar um passo a mais na luta contra o racismo nos estádios na Argentina, e não é possível que se dê enquanto não se aplicarem multas e punições sérias”. “Passa mais pela multa aos clubes e punições aos abusadores que pela educação, para atacar o problema de frente.”
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