Racismo sistémico, o mito da igualdade – Observador

Ouvir Rádio
©2022 Observador
A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.
Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais
Adere à Fibra do MEO com a máxima velocidade desde 29.99/mês aqui.
Siga Eduardo Fangueiro e receba um alerta assim que um novo artigo é publicado.
A premissa de que a maioria dos homicídios é devida a ódio racial está errada. A maior parte dos assassinatos nos EUA são entre pessoas da mesma raça/etnia, seja ela qual for.
Exclusivo assinantes: Ofereça artigos aos seus amigos.
Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.
Fazendo nós parte da sociedade mais pragmática, educada, lúcida, informada, inteligente e onde a partilha e discussão é resultado do mais longo período democrático da humanidade, é importante entender antes de mais a razão da permanência de falácias ou narrativas desviantes para perceber a razão de existência das mesmas.
Parece um contrassenso que numa altura onde a abundância de conhecimento galopa e o secularismo parece singrar se continue a preservar religiosamente tantos dogmas como verdades absolutas e inquestionáveis, as quais denominamos vulgarmente como narrativas.
É precisamente algumas dessas ideias que pretendo rebater com um ceticismo saudável e necessário para não tropeçar nas falácias contemporâneas. Neste seguimento, venho-vos falar hoje de um tema que tem tanto de controverso como de emocional: o racismo, ou, mais atual ainda, o racismo sistémico, sistemático, estrutural ou qualquer outro adjetivo que pretendam anexar, tentando trazer um pouco de objetividade com factos a um tema que é fundado na compaixão mais do que na racionalidade conquistada com os valores ocidentais do iluminismo.
Não obstante a importância das intenções é crucial entender os efeitos das ações pois só essa visão pragmática permite conhecer a verdade e tirar daí as ilações certas para melhorar a vida de todos na sociedade.
PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR
O que é o racismo sistémico?
É importante acertar nas definições não estejamos todos a discutir conceitos diferentes para a mesma terminologia. A forma como o defino é: o preconceito generalizado com base na cor ou etnicidade das pessoas que as impede recorrentemente de proliferar na sociedade somente devido às suas características inatas. As premissas para aceitar esta definição são a existência de barreiras legais ou barreiras enraizadas na cultura da sociedade que as impeçam desproporcionalmente de singrar na vida. Vamos então por partes.
Felizmente no século XXI, no mundo ocidental, já não existem barreiras legais “racistas”, isto é, ninguém tem impedimentos legais consoante a sua cor ou etnia de exercer a sua cidadania, de entrar em determinados lugares ou de participar na vida da comunidade. Continua, no entanto, a haver entraves por parte de alguns membros da comunidade em aceitar esse facto consumado do século XXI, a igualdade perante a lei. Mas se não existem leis racistas não significa que não exista uma cultura racista que recorrentemente discrimine e impeça as pessoas de certa etnia de viver a sua vida. Vamos então a factos onde estes mais abundam nesta nomenclatura étnica/racial e onde as tensões raciais sempre foram foco crucial da vida em quotidiano, os Estados Unidos da América (EUA).
Vamos então desmontar algumas ideias feitas, comecemos pela ideia de que é o ódio racial que provoca a maioria dos homicídios nos EUA. Estes dados são especificamente interessantes uma vez que é difícil estarem enviesados, visto tratar-se de um crime de gravidade extrema e como tal os registos são especialmente minuciosos.

Most murders were intraracial – According to the U.S. Department of Justice. From 1980 through 2008
84% of white victims were killed by whites
93% of black victims were killed by blacks
Conforme podemos observar na imagem acima, segundo o Departamento de Justiça norte-americano, com dados desde 1980 até 2008, a grande maioria dos assassinatos são entre pessoas da mesma raça, isto é, em que a vítima e o agressor são da mesma cor/etnia, independentemente da cor dos mesmos.
Também de acordo com o Federal Bureau of Investigation (FBI) a tendência mantém-se e podemos observar no gráfico seguinte (Expanded Homicide Data Table 6) a distribuição dos homicídios pelos mesmos parâmetros étnicos.

Podemos assim coerentemente concluir que a premissa de que a maioria dos homicídios é devida a ódio racial não só está errada como a informação nos leva logicamente para premissa oposta. A maior parte dos assassinatos nos EUA são entre pessoas da mesma raça/etnia, seja ela qual for.
Podemos assim coerentemente concluir que a premissa de que a maioria dos homicídios é devida a ódio racial não só está errada como a informação nos leva logicamente para premissa oposta. A maior parte dos assassinatos nos EUA são entre pessoas da mesma raça/etnia, seja ela qual for.
É importante realçar a distribuição étnica no país por uma questão de idoneidade na análise, como demonstra o gráfico em baixo, Racial categories, baseado nos census de 2020 e cruzá-lo com estes mesmos dados relativos aos homicídios. Anúncio desde já que apenas faço esta análise porque um dos principais argumentos utilizados pela narrativa que se diz anti-racista é precisamente de que existe um número desproporcional de presos de raça negra nas prisões dos EUA e que tal é uma demonstração per si de racismo sistémico.

Tendo em conta os dados do FBI devemos questionar-nos se será razoável que uma população que se estima representar 12% da população geral ser responsável por 55.9% de todos os homicídios e em que medida estes dados coabitam com o racismo sistémico que tentamos abordar objetivamente. Realçando novamente que cerca de 90% destes crimes são cometidos por um agressor da mesma raça/etnia.
Será portanto instintivo, na minha opinião, presumir que se trata sobretudo de problemas culturais mais do que de discriminação. O facto agrava-se quando destes 12% a grande maioria são homens, isto é, falamos de cerca de 7% da população geral responsável por 55.9% dos crimes de homicídio nos EUA. Contra estes factos podemos argumentar, e bem, que os problemas são do foro cultural, sejam eles a violência entre gangs ou a falta de uma figura paternal para cerca de 65% dos jovens afro-americanos. Não devemos desvalorizar este problema mas antes enaltecê-lo, uma vez que é obrigando as mães a criar filhos em condições menos desejáveis, sozinhas e sem ajuda, que os filhos ficam à mercê dos gangs, da “vida de rua” e de uma cultura muitas vezes violenta que só os prejudica no futuro, como relata e personifica a cultura machista ainda hoje enraizada no hip-hop.
Quem o diz felizmente não sou só eu e os dados, nem nenhum membro do partido republicano, é o ex-presidente dos EUA Barack Obama no seu discurso do dia do pai em 2008: “But if we are honest with ourselves, we’ll admit that what too many fathers also are is missing — missing from too many lives and too many homes. They have abandoned their responsibilities, acting like boys instead of men. And the foundations of our families are weaker because of it.
You and I know how true this is in the African-American community. We know that more than half of all black children live in single-parent households, a number that has doubled — doubled — since we were children. We know the statistics — that children who grow up without a father are five times more likely to live in poverty and commit crime; nine times more likely to drop out of schools and 20 times more likely to end up in prison. They are more likely to have behavioral problems, or run away from home or become teenage parents themselves. And the foundations of our community are weaker because of it.”
Obama reflete na importância da família, em como os pais fora do ambiente familiar e longe dos seus filhos aumentam estatisticamente a propensão para o fracasso na vida dos jovens afro-americanos, tendo estes 5 vezes mais probabilidade de viver na pobreza e cometer crimes, uma probabilidade 9 vezes superior de desistir da escola e uma probabilidade 20 vezes maior de serem presos. Diz também que têm maior probabilidade de ter problemas comportamentais, de fugir de casa ou tornarem-se pais adolescentes e que com isto toda a comunidade afro-americana perde.
A violência policial é também outro dos temas quentes deste debate mas afinal o que dizem os números?

Embora haja um grande número de homicídios por parte da polícia nos EUA, os números não parecem fugir da tendência de que falámos. Se há mais de 50% de homicídios por parte de afro-americanos é normal que seja proporcional ou semelhante os número quando falamos de encontros com a polícia.
Por exemplo, em 2018 houve 209 mortes de afro-americanos por parte da polícia, segundo mostra o gráfico anterior, sendo que a etnia do polícia não vem especificada no mesmo. No entanto, nesse mesmo ano houve 2925 mortes por homicídio. Isto é, 7,4% do total das mortes terão sido cometidas por polícias, dos quais alguns serão afro-americanos, outros brancos, hispânicos e por aí adiante. Torna-se infelizmente risível a forma como este tema é representado na comunicação social e a disparidade entre o que realmente são os factos versus o que pretendemos que sejam.
Há vários estudos que confirmam que tendencialmente um polícia tem maior probabilidade de disparar quando o criminoso é da mesma etnia, como demonstra a tabela 14 do U.S. Department of Justice (abaixo). Isto acontece pelo medo de ser acusado de racismo mas também porque os polícias normalmente são destacados para perto da sua zona de residência, o que faz com que a distribuição racial/étnica dos polícias seja semelhante à da comunidade onde estão inseridos.

É importante relembrar depois disto que nem toda a discriminação é violenta e que muitas vezes acontece no dia-a-dia mas é vital combatê-la com uma narrativa verdadeira de melhoria em vez de constante vitimização e ou através de uma postura auto-indulgente. É crucial combater casos específicos que podemos provar em vez de optar por mudanças estruturais que na maioria das vezes não são mais do que areia para os olhos de quem defende genuinamente as causas.
Com isto reforço que há muitas injustiças, que deve haver reformas como o First Step Act ou FUTURE Act, e muitas outras, mas reitero que estas não serão a solução para a maior parte dos problemas ou tensões raciais. Não é através de protestos onde morrem dezenas de pessoas (muitas delas afro-americanas), com as melhores intenções mas com consequência nefastas, que vamos mudar o paradigma. O mundo não é perfeito, nem igual para todos e com certeza teremos impedimentos nas nossas vidas que as tornam pouco justas e difíceis, sejam elas discriminações com base na nossa altura, peso, beleza, idade, etnia, sexo, rendimentos e uma infinitude de outros fatores que nos rodeiam mas não nos definem. O importante é como o encaramos e o que fazemos dessas situações/injustiças, visto que elas certamente existem.
O mito da igualdade não é procurar que todas as raças e etnias sejam tratadas de igual forma na comunidade mas esperar que, sendo-o, não haja diferenças nos resultados. É simplesmente impossível essa igualdade, porque antes de sermos pertencentes a qualquer grupo somos indivíduos e, como tal, dadas as mesmas oportunidades teremos escolhas que nos irão projetar para resultados distintos. Nomear essas diferenças como preconceito é perpetuar a falta de autoavaliação que não nos permite melhorar como indivíduos, povo e sociedade.
Alguns dos nomes mais proeminentes na vertente contra-narrativa do racismo sistémico são os afro-americanos Thomas Sowell, Clarence Thomas, Larry Elder, Coleman Hughes, Candace Owens, David Webb, Tommy Sotomayor e Brandon Tatum. Outros escolhem não tomar parte nestas “guerras culturais” mas também partilham das ideias contra narrativa como Denzel Washington e Morgan Freeman.
Receba um alerta sempre que Eduardo Fangueiro publique um novo artigo.
Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.
A enviar artigo…
Ainda tem para partilhar este mês.
O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.
Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.
Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.
Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.
Por favor tente mais tarde.
Obrigado por assinar o jornalismo que faz a diferença.
Rua João Saraiva, nº 7
1700-248 Lisboa
© 2022
Disponível gratuitamente para iPhone, iPad, Apple Watch e Android

source

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.