A revolta dos enraizados – Observador

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Correspondendo a somente 25% da sociedade inglesa, os desenraizados têm imposto hegemonicamente a sua ideologia. Desvalorizando a identidade nacional, estão muito próximos da agenda globalista.
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Um autor que continua inexplicavelmente por traduzir em Portugal é o jornalista inglês David Goodhart, um dos intelectuais mais influentes no espaço público inglês. Nas últimas duas décadas, Goodhart fez um percurso cada vez mais comum nos países anglo-saxónicos: embora se tivesse considerado sempre de esquerda, as contradições de uma esquerda cada vez mais progressista levaram-no a reposicionar-se no espectro político. Em artigo de 2017, “Why I left my liberal London tribe”, Goodhart diz-nos que essa inflexão se iniciou em 2004, com o ensaio “Too diverse?”, no qual refletia sobre as políticas demasiado amplas de imigração adotadas no Reino Unido, que, enquadradas num princípio multiculturalista, colocavam sob forte tensão os valores de diversidade e solidariedade. Acusado de racismo pela sua tribo liberal, Goodhart foi-se tornando cada vez mais crítico de uma esquerda que era incapaz de refletir sobre os problemas que resultavam das suas propostas políticas e que a afastavam, progressivamente, da vida real das pessoas, em particular da working class inglesa, eleitores tradicionais do Partido Trabalhista.
A partir desse momento, Goodhart foi refletindo sobre os impactos das políticas globalistas, cuja agenda resulta na crença de que a globalização é um fenómeno irremediável das sociedades contemporâneas pelo que inevitavelmente temos de ceder perante a diversidade, o multiculturalismo, a perda de identidade, a imparável mudança. O resultado dessas reflexões foi a publicação, em 2017, do livro The road to somewhere, entendido em Inglaterra como fundamental para a compreensão dos dois acontecimentos políticos que marcaram 2016: o Brexit e a eleição de Donald Trump. Vejamos qual é o seu contributo.
De acordo com Goodhart, a sociedade inglesa tem vindo a assistir, nas últimas duas décadas, a uma nova e crescente divisão que está a substituir a tradicional dicotomia entre esquerda e direita. Essa nova divisão seria entre aqueles que o autor designa como somewheres e aqueles que designa como anywheres – em português, algo como “de algures” e “de nenhures”, embora prefiramos falar em “enraizados” e “desenraizados”.  Comecemos pelos segundos. Os desenraizados corresponderiam a um grupo mais jovem e geralmente com formação universitária, que se apresentam como cosmopolitas e abertos à diferença e à mudança. No contexto inglês, são aqueles que saíram de casa para estudar na universidade e não regressaram, passando a considerar-se cidadãos do mundo, sem grandes raízes comunitárias. Em sentido oposto, os enraizados preservam essas raízes, pelo que o fator de identidade, em especial a nacional, é fundamental para a sua mundividência. São também mais velhos e geralmente sem formação universitária, sentindo-se menos confortáveis com uma sociedade crescentemente cosmopolita e na qual a diferença se sobrepõe ao que é comum. São socialmente mais conservadores, pelo que temem o ritmo de mudança imparável que marca a ideologia dos desenraizados.
Correspondendo a somente 25% da sociedade inglesa, os desenraizados têm imposto hegemonicamente a sua ideologia. Desvalorizando a identidade nacional, estão muito próximos da agenda globalista, considerando que, por regra, os interesses globais devem prevalecer sobre os interesses nacionais. Votaram maioritariamente Remain. Já os enraizados representam a maioria da sociedade (pouco acima dos 50%) e tendem a sentir que as suas ideias e preocupações não foram refletidas pelas políticas das últimas décadas. Sabendo constituir a maioria da população, sentem-se subrepresentados ou mesmo silenciados no espaço público, pelo facto de as suas preocupações serem desvalorizadas pelas elites políticas, que preferem destacar a barbaridade das suas ideias a ouvir as suas reivindicações. O referendo permitiu-lhes um grito de revolta: o Brexit foi o resultado.
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A análise de Goodhart centra-se no contexto britânico, mas pode ser facilmente extrapolada para os Estados Unidos, se considerarmos como Donald Trump venceu as eleições de 2016 com os votos dos chamados perdedores da globalização. Isto significa que não podemos desprezar a dimensão económica deste novo antagonismo: apesar de a divisão entre enraizados e desenraizados superar a tradicional dicotomia esquerda e direita, isso não significa uma desvalorização das condições económicas. O que acontece é que elas são reinterpretadas a uma nova luz, filtradas pela identidade nacional e pela crítica à política globalista que está para lá do controlo democrático das populações. As recentes eleições francesas são representativas desta alteração, mostrando a pertinência da dicotomia interpretativa de Goodhart.
A existência de uma França dividida tem sido notada por vários autores, nomeadamente em Portugal. A verdade é que, à medida que as tensões do projeto globalista se tornam mais evidentes, a nova dicotomia espalha-se pelo ocidente, tornando obsoleta a velha dicotomia. Ainda assim, o vocabulário que usamos continua agarrado às velhas ideias, impedindo-nos de compreender o que está a acontecer. Pensemos na utilização da expressão “extrema-direita” para referirmos o projeto político de Marine Le Pen: se há duas décadas ainda faria sentido recorrer ao termo para representar as ideias da Frente Nacional, os últimos anos trouxeram uma mudança de tal ordem que mantermos esse uso nos impede de compreender adequadamente a realidade francesa. Clarifiquemos esta posição: não é que as ideias da Rassemblement National não sejam de extrema-direita se usarmos o modo de pensar do final do século XX, em que havia um forte consenso ao centro e as ideias que saíam desse centro eram consideradas como estando nos extremos (fosse à direita ou à esquerda). Mas as sociedades ocidentais mudaram de tal forma que esses termos carecem agora de rigor terminológico.
Em que consistiu essa mudança? O final da segunda guerra mundial originou um forte consenso político em torno de um conjunto de valores: globalização económica e social, diluição das fronteiras, enfraquecimento da soberania, maior entrosamento entre os estados e crença na diversidade, progresso e mudança – tudo isto significaria uma espécie de paz perpétua, pelo menos no ocidente. Este consenso pós-1945 moldou o cenário político da segunda metade do século XX, determinando a adoção de políticas amplamente consensuais que permitiram várias décadas de crescimento económico e desenvolvimento no ocidente.
Entretanto, esse consenso político terminou. E terminou em resultado não só das contradições internas que todos os projetos políticos contêm, mas sobretudo pelo facto de as elites políticas, inebriadas pelas promessas desse consenso, se terem afastado progressivamente das pessoas reais e da compreensão dos impactos daquelas políticas na vida real. E tendo terminado, deixou de fazer sentido falar em extremos.
Ora, continuar a pensar o mundo a partir daquele consenso não nos permite compreender adequadamente o que está a acontecer. É essa incapacidade que se nota nos comentadores que, também em Portugal, continuam a usar os velhos termos e os velhos consensos para interpretar a nova realidade. Basta pensar na expectativa que muitos geraram de que a proximidade a Putin enfraquecesse as posições de Viktor Orban e Marine Le Pen. Na verdade, um mundo marcado pelo signo da mudança, constante e imparável, aparece à maioria da população como um produto de permanente desordem e instabilidade – o que gera a necessidade psicológica de um símbolo de autoridade e segurança que possa recuperar ordem e estabilidade. E isto torna-nos suscetíveis a reforçar a posição daqueles que estão mais próximos dos novos homens fortes. A proximidade a Putin funciona, assim, como uma vantagem e não como uma desvantagem.
A incapacidade ou a falta de vontade de nos reposicionarmos perante a nova realidade, que tornou obsoleto o antigo vocabulário político, condenar-nos-á à mesma obsolescência.
Com o título The road to somewehere, Goodhart pretende convocar uma missão política: aproximar enraizados e desenraizados na determinação de um projeto comum por forma a diminuir a tribalização e antagonismo das sociedades atuais. E considerando a hegemonia política dos desenraizados, essa aproximação terá de ser feita com a consideração das preocupações e reivindicações dos enraizados na agenda política: estes devem ser ouvidos e não tratados como bárbaros. É o facto de as elites políticas não o fazerem que tem empurrado os enraizados para projetos populistas, que prometem à maioria recuperar a sua voz, garantindo-lhes controlo democrático e o regresso a um estado de estabilidade e ordem.
No entanto, as elites políticas têm sido pouco perspicazes nesta avaliação: no Reino Unido, a opção Leave foi permanentemente apontada como irracional e resultado de ignorância; nos Estados Unidos, os que elegeram Trump foram acusados de racismo e xenofobia; em França, os apoiantes de Marine Le Pen foram desclassificados como sendo de extrema-direita. Ora, esta reação não só é profundamente antidemocrática, como se limita a reforçar o sentimento de silenciamento no espaço público e de afastamento do poder político. Limita-se a aprofundar a já profunda crise democrática que marca os países ocidentais.
Infelizmente, em Portugal, as elites políticas repetem estes maus exemplos. Temos, por um lado, os discursos e intervenções do Presidente da Assembleia da República, que promovem uma desconsideração permanente de um projeto político que foi a terceira força política mais votada nas últimas eleições legislativas. Apesar de prometer ouvir democraticamente todos os portugueses, o que Augusto Santos Silva tem feito é delimitar aquilo que, do seu ponto de vista, é admissível dizer-se e sentir-se no espaço público. Mas notemos igualmente as declarações do Presidente da República após a vitória de Emmanuel Macron: em absoluto desrespeito pelos cidadãos franceses que votaram em Le Pen, Marcelo Rebelo de Sousa acusou-os de xenofobia. Podemos refletir sobre o sentido de um Presidente fazer acusações deste tipo a cidadãos de outro estado, mas o mais importante talvez seja perguntar: para que caminho democrático nos querem levar as elites políticas que recusam ouvir uma parte cada vez maior da população?
Professora da Universidade da Beira Interior
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