A matrioska setubalense – Expresso

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Ex-deputado do PSD
3 maio 2022 10:46
3 maio 2022 10:46
Perseguir ou criticar impiedosamente cidadãos de uma determinada nacionalidade, com base apenas nesse critério, chama-se xenofobia. Achar que os ucranianos são todos nazis porque há meia dúzia que o assumem é inaceitável. Considerar que todos os russos são pequenos Putin’s é igualmente inaceitável. O que se passou com o acolhimento de refugiados ucranianos em Setúbal é imperdoável e um embaraço para todos. A autarquia local parece um pequeno Kremlin que vive numa bolha onde as alianças soviéticas imperam. Só assim se percebe que há quase uma década estejam de “relações cortadas” unilateralmente com o Alto Comissariado para as Migrações.
Escrevo isto a propósito da recente polémica com a CM de Setúbal e os cidadãos russos que estão a servir de “comité de boas-vindas” aos refugiados ucranianos que fogem, precisamente, das tropas russas. Tenho sido testemunha privilegiada de muitos cidadãos russos ou bielorussos que a partir de Portugal têm ajudado a enviar ajuda para a Ucrânia, a financiar meios de apoio aos refugiados ucranianos que estão nas fronteiras vizinhas do conflito ou já cá em Portugal. Há russos e russos. Mas sou o primeiro a dizer que não é avisado ou de bom senso colocar na primeira linha, na chegada, uma pessoa russa a dar as boas-vindas a um refugiado ucraniano, que possivelmente chega traumatizado, a pedir-lhe documentação e informações sobre a família.
O que a CM de Setúbal fez se não é inocente é totalmente irresponsável e de mau gosto. Mesmo que o casal que fez o acolhimento tivesse posições contra a guerra e contra o regime de Putin revelaria falta de tato e de bom senso colocar duas pessoas assim a fazer a receção os refugiados ucranianos.
Por outro lado, o casal em causa é famoso e conhecido nestes meios. Não se trata de uns russos quaisquer. Já foram protagonistas de uma disputa eleitoral para a representação da sua comunidade junto do Alto Comissariado para as Migrações. Vários embaixadores ucranianos têm contestado junto do governo português a eleição destas associações alegadamente ucranianas, mas constituídas por russos ou ucranianos com forte influência da embaixada russa. O PCP de Setúbal não pode ser alheio a esta informação.
A este propósito importa referir que o município de Setúbal é um caso raro na política pública de integração de migrantes pois recusa e na última em ficado à margem de todas as políticas públicas implementadas pelo Alto Comissariado para as Migrações. Por iniciativa própria a autarquia comunista tem optado por contratar estas, ou esta, associação pró-russa em particular num relacionamento e dependência muito pouco transparente. A autarquia de Setúbal vive numa espécie de bolha no que diz respeito às questões das migrações. O resultado está à vista.
Nada disto acontece por acaso. Qualquer político no ativo, inclusive no PCP, sabe que nos anos mais recentes diferentes diplomatas russos têm tentado fazer uma aproximação ao Parlamento português e aos elementos mais novos dos partidos políticos. Esta prática acentuou-se há cerca de 10 anos e trata-se de um trabalho normal de auscultação das embaixadas de vários outros países. Mas a Rússia não é um país qualquer e exigem-se mais cautelas. O lamentável episódio recente da Câmara Municipal de Lisboa ainda sob a liderança de Fernando Medina revela bem a incúria e falta de cuidado que alguns políticos e instituições públicas têm com assuntos tão delicados como este.
Mas tratando-se do PCP, que conhece bem a realidade russa, que tem ligações estreitas e habituais de décadas com políticos e decisores deste país, e ainda para mais com as posições que já evidenciou sobre este conflito, o caso agora noticiado é ainda mais grave. As condições e o contexto revelam que não se pode tratar apenas de negligência ou falta de tato. É muito mais grave. O casal em causa é avençado da CM de Setúbal, sabe-se lá porquê, para fazer o quê ou para cumprir as ordens de quem. O que sabemos é que tem defendido como poucos os interesses do regime russo por cá e boicotado as mais diversas ações da política externa da Ucrânia, seja com este atual Presidente seja com o anterior.
Só estranho a forma discreta como se deixam morrer assuntos como este. Se isto se passasse noutro país, existiriam já denúncias da Amnistia Internacional, deputados com camisolas em protesto e pelo menos uma queixa enviada quer ao Conselho da Europa quer à União Europeia.

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