Triunfo de Exu no Carnaval do Rio expõe onda de racismo religioso – UOL Notícias

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de “Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito”, “Profetismo, Utopia e Insurgência” e “Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship
Colunista do UOL
28/04/2022 04h00
Há um preço alto a ser pago pela ideia de que o “Deus” cristão bolsonarista está acima de todos.
A homenagem ao orixá Exu que deu à escola de samba Grande Rio o título inédito de campeã do Carnaval 2022 fez o racismo religioso e toda a hostilidade às religiões de matriz africana saírem das sombras.

Muitos cristãos, principalmente evangélicos, usaram as redes sociais para expor a sua “indignação” contra o que consideram o resultado de uma “batalha espiritual”. Aqui, a compreensão é literalmente de uma batalha, o que significa que envolve, entre outras coisas, a conquista, tomada e retomada de um território.
Isso também —se não explica— ao menos ajuda a entender de onde o bolsonarismo e seu discurso de superioridade e supremacia cristã consegue canalizar a sua força. O “respeito” e a “tolerância” são valores preservados até que a manifestação pública de celebração dos orixás aconteça.
Há uma relação direta entre o “cristianismo bolsonarista” e o racismo religioso —a compreensão inequívoca de que as religiões de matriz africana são seitas demoníacas ou religiosidades inimigas dos valores cristãos e que, portanto, essa ancestralidade religiosa africana é uma herança que as pessoas negras devem abandonar ou “se libertar”.
Permanece a ideia de que, durante o Carnaval, a cidade do Rio é tomada por um “espírito demoníaco”, que pretende dominar e barbarizar a cidade e seus habitantes. A entrega da cidade ao Rei Momo é lida como um “símbolo material” do que, no plano espiritual, seria concessão da cidade ao mal, o período em que os orixás das religiões de matriz africana então “reinariam”.
Curiosamente, este “espírito demoníaco” nunca está em operações policiais que barbarizam comunidades e moradores —tratados com desrespeito, violência e abuso de autoridade— sem qualquer desculpa ante a morte de crianças. Tudo sob o álibi do “combate” ao tráfico.
Não foram poucas as manifestações de pessoas cristãs que, ou insinuaram, ou fizeram diretamente a esdrúxula associação entre a trágica morte da menina Raquel, 11, na madrugada de quinta-feira (21), após o desfile da escola Em Cima da Hora, com uma espécie de “sacrifício” exigido por Exu, para a realização do Carnaval. É covarde, é bárbaro, mas fizeram isso.
Foi essa a insinuação do polêmico ex-presidente da Fundação Palmares Sergio Camargo. Depois de citar a morte da menina Raquel e de criticar a postura da escola e de carnavalescos que não se manifestaram, Camargo termina seu post dizendo que “faz todo o sentido que Exu seja o grande vencedor”.
O cantor gospel Rafael Bittencourt, no seu canal no YouTube, diz que a Grande Rio colocou na Sapucaí “pessoas manifestando demônio, ficando possuídas”. Assim, ele convoca sua audiência para se “posicionar” com ele “diante dessa guerra”? Que guerra é essa? A guerra que ele criou, para manter o racismo religioso de pé.
O influencer Carlos Heinar, que integrou por anos a Congregação Cristã do Brasil, afirma no seu vídeo que pessoas incorporaram demônios durante os ensaios na quadra da Grande Rio. O número de visualizações desses vídeos só aumenta a cada hora, o endosso de várias pessoas cristãs se multiplica e uma rede de legitimação de racismo religioso e violência vai se perpetrando.
O que eu quero dizer aqui é que, quando um terreiro é atacado, violentado, no Rio, em Salvador ou em qualquer outro lugar, o ataque não surge “do nada”. Ele acontece na medida em que encontra um ambiente possível. A vitória da Grande Rio mostrou que esse ambiente está posto e sempre vigilante.
Nós devemos agradecer à Grande Rio, pois sua vitória permitiu a exposição desta vergonha, dissimulada por esse cristianismo beligerante, falso, perseguidor, desconectado da mensagem de Jesus. Vencer e superar isso será muito mais difícil do que parece. Exu ainda terá muitas batalhas pela frente.
Laroyê, Exu!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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