“Africanos para o fim da fila”: portugueses alvo de racismo ao tentarem fugir da guerra na Ucrânia – Público

Dois estudantes de Medicina que tentavam passar a fronteira para a Polónia queixam-se de racismo: soldados só deixavam passar pessoas brancas, dizem. Estiveram dias à espera até que diplomacia portuguesa e ucraniana desbloquearam situação. “Sermos tratados desta forma trouxe muita revolta e tristeza”.
“Os africanos vão para o fim da fila”: foi isto que ouviram pelo menos quatro vezes os portugueses Domingos Ngulonda, 22 anos, e Mário Biaguê, 24, da boca dos soldados ucranianos na fronteira com a Polónia, em Medyka. Isto depois de horas de viagem e quilómetros a andar a pé com malas às costas, depois de horas sem se sentarem, depois de verem todas as pessoas brancas a passar a fronteira e todas as pessoas negras, de origem indiana ou do Médio Oriente, a ficarem para trás.
Estudantes de medicina a viverem em Ternopil há quase cinco anos, os dois amigos — com outros dois tinham sido enganados por um taxista que lhes prometeu deixar na fronteira em troca de 90 euros. Sem acesso a Internet no móvel, saíram quando o taxista lhes disse que tinham de andar mais uns seis quilómetros até chegarem ao posto que os levaria à Polónia. Desconfiados, eles perguntaram se era mesmo ali, o taxista disse que sim. Só que afinal faltavam mais de duas dezenas de quilómetros.
Cansados da epopeia que tinha sido fugir da cidade e das dificuldades em encontrar transportes, Mário e Domingos conseguiram finalmente chegar a Medyka. Viram milhares de pessoas, meteram-se na fila na esperança de chegar ao fim e finalmente passar para um país da União Europeia. Contaram cerca de 16 horas de espera, até chegarem aos portões. Chegando ao fim da fila, os amigos equatorianos passaram. Mário e Domingos foram logo barrados. Explicaram aos guardas que eram portugueses e que por isso podiam entrar na Polónia sem visto. Eles não quiseram saber.
Tiveram de obedecer e esperaram mais 14 horas, ou seja, só nessa primeira tentativa foram 30 horas no total. Para chegarem ao posto e receberem de novo a resposta: “Os africanos têm de esperar. É para o fim da fila”. Começaram “a empurrar”, lembra Domingos Ngulonda, ao telefone. Ao lado deles só viam estrangeiros não brancos. A selecção era obviamente ditada pela cor da pele, refere.
“Estava muito irritado, mas não podia fazer nada”, conta, também ao telefone, Mário Biaguê. “Quando chegámos estavam lá muitos africanos que sofreram a mesma coisa. Como é que é possível? As pessoas a tentarem fugir e eles dizem: ‘pretos, vão para o final da fila’! Porque não são seres humanos e podem morrer à vontade?!”, lamenta.
Ficaram ao frio, em pé, mais horas e horas. Com fome e sono, decidiram ir em busca de um lugar onde pudessem recuperar forças para voltar a tentar. Viram mais agressões dos guardas aos estrangeiros que estavam na fila. “No segundo dia chegavam autocarros com muitos ucranianos e os guardas diziam para fazer uma fila à parte e deixavam-nos passar”, conta Domingos. “Em segundos os ucranianos estavam a passar a fronteira. Obviamente que isso criou muita revolta nos estrangeiros. Começámos a gritar: ‘o que é isto?’ Um dos guardas disse que os ucranianos têm prioridade. Os estrangeiros começaram a fazer barulho. E os guardas usaram bastões e cada vez que um estrangeiro queria falar era empurrado, tratado com agressividade”.
Depois, descreve Domingos: “Começaram a humilhar. Diziam: ‘quem quiser entrar que se sente’; depois: ‘quem quiser entrar que se levante’; depois: ‘os negros para a direita’ e íamos todos para a direita; e depois: os ‘indianos para a esquerda’. Começámos a perceber que era mesmo para fazer troça de nós”, lembra. “A partir do momento que percebemos isso já não acatámos as ordens.”
Entretanto, começou a nevar. As baterias dos telemóveis iam-se gastando. Quando os mandaram ir para o fim da fila de novo, decidiram procurar um sítio para pernoitar; encontraram uma casa, onde estava escrito que qualquer pessoa a podia usar. Assim fizeram. Conseguiram dormir algumas horas e carregar os telemóveis. Falaram com a mãe de Domingos, Ana Maria Costa, médica no Hospital de Portalegre. “Descrevemos tudo o que se estava a passar e foi nessa altura que a minha mãe contactou a comunicação social.”
Eles falaram com as autoridades diplomáticas portuguesas, que lhes passaram uma declaração em inglês para os deixarem passar. Mas os guardas não quiseram saber e voltaram a enxotá-los à bastonada. Ainda pensaram em sair dali e comprar bilhetes de autocarro mas quando ligavam diziam-lhes que se não fossem ucranianos não o fariam; tentaram junto de ucranianos que lhes dessem boleia a troco de dinheiro, mas a resposta era a mesma. Ficaram sem saber o que fazer. “Se na fronteira eram racistas, não sabíamos o que podia passar pela cabeça das pessoas.”
Em Portugal, a família de ambos desdobrava-se em contactos. A mãe de Domingos dava uma entrevista à RTP a denunciar a situação. “O meu filho está há três dias à porta da União Europeia e não consegue passar. Não consigo compreender.” O Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmava que estava a cuidar da situação.
Ao mesmo tempo, alguns media internacionais, incluindo o New York Times, e as redes sociais mostraram vídeos de estrangeiros não brancos à porta das fronteiras sem conseguirem passar. Há um par de dias, Domingos recebeu uma chamada de um soldado a dizer-lhe para se dirigir à zona dos prioritários. Pediu-lhe para mostrar o passaporte, disse-lhe para ir buscar o amigo. “Quando estávamos a caminho ainda fomos abordados por dois guardas com armas apontadas para nós, tive de passar o telefone ao soldado que me chamou”, lamenta.
Finalmente conseguiram passar a fronteira. A partir daí foi tudo mais fácil. Chegaram a Lisboa na terça-feira à noite, Domingos seguiu para Portalegre e Mário para Loures. Agora estão a tentar ajudar os que ficaram a sair da Ucrânia.
“Sermos tratados desta forma trouxe muita revolta e tristeza”, comenta Domingos. “Não odeio os ucranianos, não são todos iguais, tenho amigos ucranianos que amo como irmãos, mas aquilo que eu vi e vivi naquela fronteira fez com que eu nunca mais queira voltar àquele país.”
Não é que nunca tivessem sido alvos de discriminação antes, porque foram, dizem; mas nada que se compare ao que sofreram nestes dias. Por outro lado, Domingos diz que está triste pelo que passou e pelo que vai ter ainda de passar. Não sabe se terá equivalência em Portugal, até porque na Ucrânia o curso de Medicina tem seis anos. Se for preciso, começa tudo de novo. “Já estava no 4.º ano, na minha cabeça estava a pensar para onde ir trabalhar, onde fazer a minha especialização. Agora tenho que fazer um reset, parece que dei um passo atrás.” Mas sente-se aliviado: “Não queria morrer só para tentar ser médico. Há muito mais vida do que uma carreira. Ver a minha mãe, poder estar com ela, vale mais”.
Mário afirma que ainda vai ter de deixar passar algum tempo até perceber o que fazer a seguir: “Não posso decidir nada agora”, conclui.
Entretanto, o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, pediu às autoridades das fronteiras ucranianas para darem “oportunidades iguais” aos africanos que tentam sair da Ucrânia. Disse ainda que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia afirmou isso mesmo – este ministro anunciou, de resto, no Twitter que tinha criado uma hotline para os estudantes africanos, asiáticos e outros que estejam a tentar sair da Ucrânia através do número +380934185684.
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