Acusações de xenofobia, alianças improváveis e política feita a beber minis. A história improvável de (mais) um vereador que o Chega perdeu – Observador

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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
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Como é que um fã de Bolsonaro com experiência na restauração acaba a desfiliar-se do Chega e a aceitar um pelouro pelas mãos dos comunistas? A história improvável de Márcio de Souza.
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Quem pergunta é um cliente do Esportes Bar de Sesimbra, um espaço modesto, com o menu de almoço a 8,50 euros impresso e exposto na parede, mas claramente concorrido. Quem responde é o sócio-gerente, que se desloca com habilidade pelos corredores pequenos e chama os clientes para saber se querem café pelo nome ou por alguma alcunha alternativa: “Quer cafezinho, bonitinho?”. Vai servindo com destreza as lulas e o frango do dia, mas falta pouco tempo para se ir embora: daí a uns minutos tem de vestir o fato de vereador e sentar-se na reunião da Câmara Municipal, onde é responsável pelo pelouro da Proteção Civil.
Ouça aqui o episódio do podcast “A História do Dia” sobre os ex-vereadores do Chega.
Os vereadores do Chega punidos por apoiarem a CDU

Os últimos anos da vida de Márcio de Souza, agora vereador independente – eleito pelo Chega – com um pelouro atribuído pelo PCP, contam-se assim: aterrou em Sesimbra, depois de uma passagem por vários países europeus, para fugir ao PT de Lula da Silva. Foi lá no Brasil que nasceu, sendo agora luso-brasileiro, casado com uma portuguesa.
Trabalhou em restauração, hotéis de luxo, serviu Pedro Passos Coelho — “uma pessoa que ouve primeiro e fala depois, isso é dos sábios” – no Solar dos Presuntos e passou pelo exército brasileiro, onde era “militar atirador”, o que lhe trouxe uma admiração acrescida por Jair Bolsonaro. Depois, abriu este espaço na vila piscatória de Sesimbra e atirou-se ao desafio da política local – onde chegou com a bandeira do Chega na mão e está agora sem partido, mas debaixo de críticas duras de André Ventura.
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Márcio Souza divide o seu tempo entre o Esportes Bar, em Sesimbra, e o trabalho como vereador
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Márcio de Souza é um dos três vereadores que o Chega já perdeu desde que conseguiu, em outubro, eleger 19 representantes em câmaras municipais um pouco por todo o país. E é um dos dois nomes que André Ventura mencionou quando, no início desta semana, convocou uma conferência de imprensa para anunciar a retirada de confiança política aos eleitos que tinham viabilizado orçamentos municipais da CDU, “violando diretamente as regras do partido de não pactuar com partidos que têm destruído Portugal”, por “complacência pessoal” e “interesses obscuros”.
A primeira rutura tinha acontecido em Moura, com a passagem a independente da vereadora Cidália Figueira, alegando divergências com o partido – partido que também lhe apontou uma aproximação a outra força política, nesse caso o PS. Esta semana, Ventura referia-se a Henrique Freire, vereador no Seixal, e a Márcio de Souza.
O segundo caso é, na perspetiva do partido, mais grave: o vereador que obteve o melhor resultado do distrito, com 9,34% e 1805 votos, não só deixou passar o orçamento comunista como viria depois, estando já a desfiliação do partido – assim como a condição de vereador independente – consumada, a aceitar das mãos da CDU o pelouro da Proteção Civil.
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Para o Chega, foi uma traição; para Márcio de Souza, uma forma de fazer política com resultados e deixar de ser apenas “do contra”; para a CDU, uma boa notícia – nas últimas eleições o PCP perdeu a maioria absoluta e ficou empatado em número de vereadores com o PS (três, todos com pelouros) e o ex-Chega pode, assim, atuar como fiel da balança.
Márcio e a mulher gerem o espaço. Foi lá que conheceu o seu assessor, Luís Pina
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A história dos últimos meses no peculiar executivo da Câmara de Sesimbra é, no entanto, mais atribulada do que isso: envolve supostas conversas entre Márcio de Souza e o PS para “lixar” os comunistas, insultos em reuniões de câmara (“palhaço” será dos mais suaves), acusações de xenofobia e política feita à mesa do restaurante (com umas alegadas minis pelo meio).
Mas, para perceber a história de Márcio de Souza e a forma como o Chega lidou com as consequências das suas dores de crescimento, é preciso recuar umas horas e mudar de cenário, do Esportes Bar para o edifício da Câmara Municipal. É lá que pelas 9h30 desta quarta-feira está o vereador independente, num gabinete pequeno onde cabe um computador, uma impressora, uma secretária e algumas cadeiras, onde se senta também o assessor, Luís Pina – um antigo cliente do restaurante e um dos motivos para a zanga com o Chega, que criticou a avença atribuída ao colaborador próximo de Márcio. Na mão tem um livro pesado com um título sugestivo: “Governo local”.
Conforme explica a descrição no site das Edições Sílabo, o manual escrito por António Edmundo Ribeiro “visa apoiar os eleitos locais no exercício das suas funções, robustecendo conhecimentos na gestão e administração local”. E é isso mesmo que o vereador, que admite sem pudores que ainda há uns meses “não percebia patavina de leis e regras”, tenta agora fazer. Não que sinta grande diferença em termos de rede de apoio relativamente aos tempos em que estava no Chega. É, aliás, uma das queixas que aponta assim que começa a desfiar o rol de motivos para a saída em colisão direta com as estruturas locais e nacionais do partido de André Ventura.
O livro "Governo Local" tem ajudado o vereador a ambientar-se às novas funções
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A fundação do núcleo concelhio do Chega em Sesimbra, terra onde só PS e PCP governaram, foi difícil, recorda – “deram-me 15 nomes de militantes, num universo de 50 mil pessoas”, e teve de partir dali. A campanha, idem: “Quero que as pessoas percebam o desafio que foi chegar até aqui. As pessoas não acreditavam no Chega, acreditavam no Márcio”. Recrutava no restaurante, onde diz que não tem clientes, só “amigos”, e percebe “as ideias políticas de quem o frequenta”; orgulha-se de ter ido “apresentar-se” junto da “comunidade cigana e das minorias”; em resumo, acredita que desmistificou “preconceitos” sobre o Chega e de volta ainda recebeu “xingamentos” e suásticas pintadas na carrinha.
A somar a tudo isto, o esforço financeiro, já que diz ter pago do seu bolso 3900 euros para a campanha (tendo-se recusado a incluir nos outdoors o rosto de André Ventura, já que preferia uma fotografia da sua “equipa”). Do partido, garante, recebeu zero – “bola”. “Éramos os patinhos feios”.
As queixas sobem para um patamar mais grave quando diz ter sido vítima da tal xenofobia que tentava dissociar do Chega junto dos eleitores dentro do próprio partido: “Começaram a dizer: o que é que vamos fazer para lixar esse brasileiro? Era mesmo assim que eles diziam. Na distrital, outros candidatos… tratavam-me assim. O brasileiro é maluco. Ficava sentido, passei noites sem dormir de raiva”.
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Mesmo assim, concorreu, conquistou o cargo de vereador e começou a perceber que a relação não seria fácil. Primeiro, ficou “sentido” por não receber um telefonema de André Ventura a dar os parabéns – o mesmo Ventura que elogia pela inteligência, mas diz ser endeusado pelo partido: “É um Deus e para falar com ele tem de passar por uns quantos sacerdotes. Eu conheci inúmeras vedetas, trabalhei em hotelaria de cinco estrelas, e não tinham segurança ao lado”. Depois, começou a irritar-se com as constantes orientações do partido para chumbar todas as propostas que apareciam na câmara, após uma reunião rápida com a direção em que foi informado de que “não haveria acordos com nenhuma força política”.
A “oposição saudável” que queria fazer, concluiu, não seria possível; concluiu que não queria “mentir ao povo” e decidiu comprar livros, estudar e aprender. Deixou passar o Orçamento – “sem combinações com a CDU”, jura – e achou que tinha “começado a guerra entre a Ucrânia e a Rússia”, ironiza, dada a quantidade de telefonemas com pressões que começaram a chegar do partido. E, é claro, decidiu desfiliar-se, depois de perceber junto do presidente da Câmara Municipal que concorrendo pelo Chega nunca teria hipótese de agarrar um pelouro ou entrar nas negociações camarárias.
O vereador a cumprimentar um trabalhador da câmara municipal. Orgulha-se de conhecer todos os que passam por ele na rua
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“O presidente é da CDU, temos de trabalhar com CDU. Se fosse PS ou eu, também. Se não andávamos aqui sem fazer nada”, resume agora. Fê-lo para conseguir emprego seguro na Câmara, onde tendo pelouro recebe salário? “Se eu tivesse necessidade de ter um emprego, fechava as portas do meu espaço assim que aceitasse o cargo aqui. Não vivia da política antes nem agora, ao contrário de muitos eleitos do Chega”, dispara.
E retira uma conclusão sobre o partido que conheceu por dentro: “Nós víamos os debates e tínhamos vergonha. A mim diziam-me que ainda tinha dois minutos e eu dizia: deixa, eu não sei mais, não posso ir mais longe. É muito chato entrar numa sala de vereadores e ser o único que não sabe nada. Aqui não há extremismo, há é falta de conhecimento”.
Se ao ouvir Ventura na televisão a anunciar a retirada de confiança política ficou revoltado – porque já nem sequer é filiado e porque achava que o assunto estava morto e “não se chuta cachorro morto” – do lado do Chega também se acumulam as queixas sobre o vereador e as suas ambições. Até porque a direção nacional não acredita nas boas intenções de Márcio, nem na sua avidez de aprender e fazer política “construtiva”.
“Ele sempre teve contacto direto e privilegiado comigo e com a comissão nacional autárquica”, contrapõe, em declarações ao Observador, o coordenador autárquico do Chega, Bruno Nunes. E atribui a saída de Márcio de Souza à vontade que tinha de aceitar pelouros e à “rota de colisão” em que terá entrado com a distrital de Setúbal, tendo mostrado vontade de ser presidente da estrutura ou candidato a deputado (Souza assegura que teria apoiado a vice Marta Trindade, mas nunca Bruno Nunes, que efetivamente foi eleito pelo distrito).
Por tudo isto, o Chega acredita que está em causa apenas um aproveitamento do nome do partido. E a campanha paga do bolso do candidato (“depois, quando estivermos a passar fome, vais pedir dinheiro ao André Ventura”, dizia a mulher do vereador)? Nunes confirma: “Todos os candidatos do Chega sabiam que o partido ia ajudar com um ou dois outdoors por concelho, mas não teria capacidade financeira, e que a ajuda seria diminuta. Eu só tive direito a um outdoor. Todos sabíamos as regras do jogo”, justifica, antes de negar a veracidade de qualquer acusação de xenofobia dentro do partido.
Chega retira confiança política a dois vereadores. Um deles já tinha deixado o partido

Quanto à rutura em direto, na televisão, mas segundo Márcio de Souza – que comunicou a sua desfiliação ao partido a 28 de dezembro – desfasada no tempo, o coordenador explica: eleitos e eleitores continuavam a fazer uma associação do nome de Márcio ao partido e era preciso “dar uma justificação” e “reafirmar junto da população” que o vereador que costumava usar os pólos com o logo do Chega já nada tinha a ver com Ventura.
Agora, Márcio de Souza senta-se na outra ponta da mesa, embora insista sempre em lembrar que é de direita e que isso é ponto assente. Faltam minutos para a reunião de câmara em que Márcio participará quando acabar de servir almoços e, de volta à Câmara Municipal, estamos num gabinete consideravelmente maior, onde se instala o presidente, o comunista Francisco Jesus. É à mesa, com o e-mail que recebeu a dar conta da passagem do vereador a independente impresso à sua frente, que tenta explicar o que à primeira vista parece contranatura: a forma como a CDU acabou por entregar um pelouro a alguém que meses antes era eleito nas listas do arqui-inimigo Chega.
Francisco Jesus foi eleito para o terceiro mandato, mas perdeu a maioria absoluta
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Para começar, Francisco Jesus lembra que é prática comum, nos municípios governados pela CDU, atribuir pelouros aos outros vereadores – com este executivo tão dividido, encontra-se na situação praticamente “única” de todos os eleitos terem recebido pastas para trabalhar (“não concebo que com esta correlação de forças a CDU aplique o seu programa tout court”). Mas, mais do que isso, frisa o aspeto que é para si mais relevante: a sua “perceção pessoal” é que Márcio de Souza, que só conheceu em campanha, não tem qualquer adesão ao “discurso mais populista e narrativa de ódio” do Chega.
O vereador insistia em estar em todas as reuniões preparatórias e orçamentais, mesmo que no mero papel de “observador”, conta. “Parece-me uma pessoa com seriedade… não vou mentir, com um desconhecimento profundo sobre a administração local que se nota, mas acima de tudo uma distância brutal face à narrativa conhecida do Chega”, arruma. Saindo do Chega, decisão que lhe comunicou informalmente e que o deixou “satisfeito” – antes disso, garante, não houvera qualquer negociação com o vereador – estavam reunidas as condições para atribuir um pelouro ao independente.
Coisa diferente é a forma como dentro do partido – que, naturalmente, não conhece o perfil de Márcio – a notícia é recebida. Pela primeira vez na conversa, Francisco Jesus hesita. Foi uma decisão conversada? “Não houve muita margem” para tomar outra, assume – até tendo em conta que matematicamente deixar de ter uma força de bloqueio na câmara facilitaria a vida à presidência. Mas “nunca é uma decisão fácil”.
O presidente da câmara falou com o Observador antes da reunião do executivo
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“Um vereador eleito pelo Chega, com uma posição política nos antípodas da conceção ideológica do PCP, vir a assumir responsabilidades passado uns meses, independentemente de ter saído do partido que representava nunca é uma coisa que possa ser totalmente agradável, do ponto de vista do PCP. Se me perguntar a mim, sendo direto, não tenho dúvidas de que mesmo dentro do PCP não terá sido uma solução totalmente agradável. Mas foi muito conversado entre os eleitos e mesmo entre os militantes locais a questão está sanada”. Sobre o vereador, graceja: “As pessoas também têm direito a errar na vida…”. E despede-se: dentro de minutos começa a próxima reunião do executivo municipal.
Foi num desses encontros que o verniz estalou recentemente, mas dessa vez entre PS e Chega. A reunião de 9 de fevereiro foi comparada a um “reality show” – tendo em conta os termos pouco edificantes em que se desenrolou – por uma vereadora da CDU. Passavam cerca de 24 minutos do início do encontro quando o socialista Nelson Pólvora leu o comunicado em que o PS criticava a atribuição do pelouro a Márcio de Souza – um pelouro que dizia ter querido negociar com a CDU e que significava um “abrir de porta à extrema-direita” por parte dos comunistas.
O que se seguiu foi um espetáculo improvável, como se comprova pelo vídeo colocado no Youtube: Márcio de Souza tomaria a palavra para “repor a verdade” e acusar o próprio PS de ter querido chegar a acordo consigo, apelidando Nelson Pólvora de “palhaço” e “feijãozinho de duas caras” (uma referência ao feijão frade); o PS devolveu a acusação, garantindo que Souza chegou a propor um acordo para “lixar a CDU”; Souza replicou que para isso o PS teria tido de devolver as suas “pastazinhas” no executivo e que a memória do socialista estaria afetada pelas “minis que bebeu” no Esportes Bar.
A tudo isto, dificilmente comprovável por, como lamentaram, não haver testemunhas dos tais encontros que corroborem a versão de um ou outro, Francisco Jesus assistia de camarote, resumindo assim a interação: “Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades!”.
Será com essas “comadres”, as do PS e as da CDU, que Souza, solto e disposto a juntar-se a outros partidos de direita (a Iniciativa Liberal soa-lhe bem), trabalhará na câmara. E se o acusam de, depois de uma campanha difícil, ter aproveitado para agarrar o cargo no município, responde assim, a partir do gabinete onde guarda os ensinamentos sobre “Governo Local”: “Você atravessou o deserto todo e a água está logo ali. Você não vai beber?”.
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