Ciência psicodélica tem discriminação contra negros – 19/04/2022 – Virada Psicodélica – Folha

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A revista de esquerda norte-americana The Nation trouxe há um mês reportagem de Kali Holloway sobre discriminação racial no campo psicodélico. “A Secreta História Negra do LSD” é de leitura obrigatória para quem acredita que racismo e expansão da consciência nunca andam juntos.
Difícil concluir o que sai pior da história, se o passado, o presente ou o futuro da psicodelia. Mas ainda há tempo para endireitar o torto, por improvável que seja.
Nas décadas de 1950/60, quando eclodiram as primeiras pesquisas com LSD, pretos e pardos entraram como bucha de canhão em experimentos sem consentimento ou as mais básicas noções de ética. Considere o caso do soldado James Thornwell, único negro de uma guarnição americana na França.
Acusado de desviar documentos em 1963, em plena Guerra Fria, ele foi interrogado com abusos físicos por 99 dias, narra ​Holloway. Na 100ª sessão, entrou em cena uma equipe da Operação Terceira Chance, que deu LSD para o militar sem ele saber e prosseguiu com o interrogatório brutalizante.
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Thornwell achou que estava ficando louco. Anotações do Exército americano registraram “reação paranoica extrema” e “quase incapacitante”. Concluiu-se que o soldado era inocente, e ele foi sumariamente dispensado da corporação.
Só anos depois ficou sabendo em detalhes o que haviam feito com ele, como contou no documentário “MIssion Mind Control” (1979). Após 16 anos de depressão, pesadelos e dores de cabeça, o ex-militar processou o governo de seu país, recebeu pedido de desculpas do Congresso e compensação no valor de US$ 625 mil.
Bem mais curta foi a trajetória de Frank Olson, um cientista (branco) da agência de espionagem CIA na época do projeto MK-Ultra, que lhe deu LSD sem seu conhecimento como parte de estudos em busca de um “soro da verdade”. Olson se matou, ou foi jogado de uma janela por brucutus da companhia, episódio obscuro tratado na série “Wormwood” da Netflix.
Thornwell e Olson não foram casos isolados. Em 1979, 16 mil documentos da CIA vieram à tona sobre o projeto que durou 25 anos e torrou US$ 25 milhões na busca infrutífera, durante a qual centenas, talvez milhares de pessoas –na maioria negras– tomaram LSD involuntariamente.
Participantes foram “recrutados” para testes de mais de 800 substâncias pela CIA. As cobaias humanas eram obtidas principalmente em prisões, nos estados da Georgia, Louisiana, Maryland e Nova Jersey, onde os detentos não tinham escolha e a maioria era composta por negros.
Os experimentos com seres humanos, em desacordo com as regras vigentes após os processos de Nuremberg, contavam com apoio da academia. Em 1955 a CIA fechou parceria com a Universidade Tulane, de Nova Orleans, para dar LSD e o alcaloide bulbocapnina a presos negros na famigerada penitenciária Angola.
Os testes foram conduzidos pelo catedrático de psicologia Robert Heath. Ele tinha como assistente Harry Bailey, que testemunharia anos depois ser “mais barato usar negros, e não gatos, porque estavam em toda parte e eram animais experimentais baratos”.
Outra instituição a colaborar com o MK-Ultra foi o Centro de Pesquisa de Adição (ARC, em inglês), do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, chefiado por Harris Isbell. A maioria dos pacientes era de dependentes químicos negros, cuja participação “voluntária” era recompensada com doses de heroína e morfina…
Isbell descreveu um dos testes em artigo de 1956, conta Holloway na reportagem em The Nation. Os negros pobres recebiam LSD numa enfermaria que mais parecia prisão, enquanto um grupo de controle composto por brancos de classe média tomava metade da alta dose inicial dos negros –fora do ARC.
Os brancos tomavam LSD por no máximo oito dias. Os presos recebiam a droga diariamente por 85 dias, em doses crescentes para contrabalançar o desenvolvimento de tolerância. Houve caso de detento submetido à droga por 174 dias. Isbell recebeu em 1962 o Prêmio por Mérito de Serviço em Saúde Pública.
As barbaridades prosseguiram até os anos 1960, quando tomou impulso o movimento por direitos civis, contra o racismo e a Guerra do Vietnã. O consumo de LSD e maconha se disseminou entre jovens hippies, motivando a declaração da Guerra às Drogas pelo presidente republicano Richard Nixon em 1971.
Começou aí o longo inverno da pesquisa séria com psicodélicos como LSD e MDMA, que chegaram a ser largamente usados em hospitais e consultórios, inclusive no Brasil, para tratar dependência de álcool e distúrbios psicológicos. Só na virada do milênio os estudos começariam a voltar, ganhando momento até se multiplicarem na última década.
Os negros, contudo, seguem discriminados pelo chamado renascimento psicodélico. Como tem noticiado este blog, estão adiantados os ensaios clínicos para regulamentar compostos como o MDMA e a psilocibina de cogumelos “mágicos” em psicoterapia para tratar transtornos de depressão e estresse pós-traumático.
No fenômeno científico e cultural predominam brancos afluentes, um tanto como se deu a progressiva liberação da maconha medicinal e, em seguida, para uso adulto. De novo, saem marginalizadas as minorias pobres negras e latinas dos EUA.
O peso maior da Guerra às Drogas recaiu sobre os grupos populacionais que compõem a massa carcerária americana. Embora sofram tanto ou mais com depressão, estresse pós-traumático e outros transtornos mentais, não têm incentivos para inscrever-se nos testes clínicos com drogas psicodélicas, sob o temor de reestigmatização.
Como resultado, há enorme sub-representação do contingente populacional nas estatísticas até aqui colhidas sobre segurança e efeitos terapêuticos dos psicodélicos. Cobaias preferenciais, antes, hoje os negros são excluídos do ressurgimento –algo que corresponde a agregar insulto moral, no presente, ao sofrimento físico infligido no passado. “Insult to injury”, como se diz nos EUA.
Racismo estrutural é isso aí. Nem a ciência libertária escapa.
——
Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”
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