A verdade sobre o racismo – Dinheiro Vivo

O Governo, fincado numa posição parcialmente negacionista, convidou um conjunto de peritos da Organização das Nações Unidas (ONU), de que o nosso compatriota António Guterres é secretário-geral, para aferir a situação dos afrodescendentes em Portugal.
Os peritos vieram, viram e reportaram. Viram o racismo nu e cru da nossa sociedade, o sofrimento da comunidade Negra acantonada e segregada em bairros de barracas e municipais sem condições, a brutalidade policial contínua, gratuita e impune, a discriminação escolar, as disciplinas de História no ensino transformadas em propaganda colonial, a mentalidade orgulhosa dos crimes do passado erigidos em feitos heroicos, a hipócrita negação do racismo que se estende da extrema-direita de Ventura a Jerónimo de Sousa do PCP (se bem que o PCP já começa a admitir que o racismo existe) passando por todos os partidos do centro, talvez com a tímida exceção do BE. Um relatório preliminar da visita foi já entregue ao governo português. Era importante que fosse divulgado.
Este é um forte murro no estômago de um governo que pouco ou nada fez de substantivo para contrariar o racismo na nossa sociedade.
Nesta mesma semana tivemos mais casos de racismo no desporto, significativamente denunciados por jogadores estrangeiros, que os dirigentes desportivos desvalorizaram, tivemos a reafirmação de André Ventura de que, sentindo-se protegido pela inação da Justiça, continuará a não moderar a sua linguagem racista e xenófoba mesmo depois de condenado, os abjetos insultos públicos e reiterados a um motorista Negro dos TST e tivemos o inacreditável caso de perseguição à artista Grada Kilomba. Em tão pouco tempo tantos casos é obra.
Subscreva a nossa newsletter e tenha as notícias no seu e-mail todos os dias
Grada Kilomba é uma das mais conceituadas e internacionais escritoras e artistas plásticas portuguesas, professora na prestigiada Universidade de Humboldt em Berlim. Pois foi afastada da representação nacional sem razão aparente que não seja a denuncia do passado colonial que a sua obra faz. Como aliás o parecer de um dos jurados candidamente o afirma. Afasta-se assim uma das mais importantes artistas portuguesas Negras da representação nacional num dos certames internacionais mais importantes. Lembra a triste decisão de júri, de igual dimensão moral e intelectual, que afastou Saramago por falta de qualidade. Perante estes desmandos o Governo cauciona a decisão do júri.
Portugal vai assim cimentando na arena internacional a sua reputação de país racista e contrário à diversidade, Estado que discrimina os seus cidadãos Negros e Ciganos ao mesmo tempo que nega a existência de racismo. Tal como antes do 25 de Abril quando éramos sistematicamente condenados internacionalmente e quando, mesmo com uma sangrenta guerra em curso, negávamos contra todas as evidências, que fossemos um país colonialista. Este isolamento só pode ser prejudicial para todos nós.
É tempo de nos deixarmos de hipocrisias, de ridiculamente tentar esconder o sol com a peneira, e enfrentarmos de forma adulta e corajosa o problema do racismo estrutural da nossa sociedade.
É indispensável que os Partidos na elaboração dos seus programas eleitorais nos digam que políticas e que medidas preconizam para combater o racismo em Portugal.

source

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.